A cada mês de outubro, milhares de fiéis se lançam na Rodovia Presidente Dutra em direção ao Santuário Nacional de Aparecida, no interior de São Paulo. A peregrinação, tradição que atravessa gerações, é vista por muitos como promessa, agradecimento ou busca por um encontro espiritual. Junto com a fé, vem o risco de dividir espaço com uma das rodovias mais movimentadas do país.
O Ministério Público Federal (MPF) acionou o Governo Federal e a Motiva-CCR, concessionária responsável pela Dutra, devido ao número de acidentes (veja detalhes ainda nesta reportagem).
Uma tradição que atravessa séculos
A devoção à Nossa Senhora Aparecida começou no século 18, após a descoberta da imagem da santa por pescadores no rio Paraíba do Sul.
Desde então, Aparecida se transformou em um dos maiores centros de peregrinação católica do mundo, recebendo milhões de visitantes todos os anos. Entre eles, milhares escolhem fazer o percurso a pé, muitos partindo de cidades vizinhas ou até de outros estados, em jornadas que duram dias.
A Via Dutra, inaugurada em 1951 e principal ligação entre São Paulo e Rio de Janeiro, acabou se tornando o caminho mais utilizado.
Tragédias na ''estrada da fé''
O problema é que a convivência entre carros, caminhões e peregrinos muitas vezes resulta em tragédia.
Dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) mostram que em 2024 houve oito atropelamentos envolvendo romeiros, com três mortes. Em 2023, também foram registradas três mortes, enquanto em 2022 não houve óbitos.
“Esses números reforçam a importância do trabalho preventivo e da conscientização” , destacou a PRF em entrevista ao Portal iG .
A corporação lembra que muitos acidentes acontecem em trechos sem acostamento ou sem gramado, onde os fiéis acabam obrigados a andar bem próximos à pista.
O histórico recente confirma a preocupação. Só na primeira semana de outubro de 2024, três romeiros morreram em acidentes distintos na Dutra, entre Jacareí, Santa Isabel e Pindamonhangaba. Em um dos casos, um ônibus atropelou três peregrinos, matando um deles e deixando outros dois feridos.
Faltam passarelas
Para tentar evitar tragédias, a PRF realiza todos os anos a Operação Nacional Nossa Senhora Aparecida, considerada a maior operação do órgão em São Paulo. Entre 28 de setembro e 13 de outubro, o efetivo é reforçado com mais viaturas, rondas constantes e sinalização extra.
“Intensificamos o policiamento ostensivo e distribuímos materiais educativos. Também orientamos os fiéis a caminharem sempre no sentido contrário ao tráfego, de preferência durante o dia, em fila indiana e usando roupas claras ou refletivas” , explicou a corporação.
Segundo a PRF, medidas estruturais ainda são necessárias: mais passarelas, iluminação adequada e barreiras físicas em áreas críticas.
“Mas, acima de tudo, é preciso a conscientização de cada um que utiliza a rodovia nesse período” , acrescentou a instituição.
Ação do Ministério Público
O aumento dos acidentes levou o Ministério Público Federal (MPF) a entrar com ação civil pública contra a União, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e a Motiva-CCR.
O órgão cobra medidas emergenciais para garantir a segurança dos romeiros, como melhorias na sinalização, rotas alternativas e estruturas específicas para pedestres.
O MPF argumenta que a fé não deve significar risco de vida, e que cabe ao poder público e às concessionárias criar condições mínimas de segurança. A ação pressiona para que o trajeto dos romeiros deixe de ser marcado por atropelamentos e mortes.
A voz dos peregrinos
Quem já viveu a experiência de caminhar pela Dutra sabe que a devoção precisa conviver com a tensão.
A romeira Vanessa Araújo, que por cinco anos fez a peregrinação a pé e hoje atua como coordenadora de uma romaria, lembra que a tradição começou ainda na infância:
“Desde pequena, quando viajava pela Dutra, eu via os romeiros e sempre tive vontade de ir também. É uma emoção muito grande, uma mistura de sentimentos quando chegamos em Aparecida.”
Ela conta que a maioria dos grupos segue as orientações da PRF e caminha pelo gramado, mas em muitos pontos isso não é possível.
“Tem trechos em que precisamos ir pelo acostamento, em fila indiana. É perigoso, porque os carros passam muito perto”, relata.
Vanessa diz nunca ter presenciado um atropelamento, mas já ouviu histórias de acidentes fatais e até de romarias que foram assaltadas no caminho. Para ela, a rodovia deveria receber atenção especial no período do feriado de 12 de outubro.
“Seria importante que a Dutra tivesse um trajeto mais seguro, ou pelo menos mais sinalização para nós romeiros e organizadores” , defende.
Apesar do risco, ela descreve a chegada ao Santuário como um momento inesquecível.
“É uma mistura de sentimentos de muito agradecimento a Deus e Nossa Senhora Aparecida. Conhecemos tantas pessoas, tantas histórias de superação, cura e amor pelo próximo. Em palavras fica difícil explicar.”
Romaria Segura
Tentando reduzir o problema, a concessionária anunciou o Projeto Romaria Segura 2025.
“O projeto reúne orientações práticas, informações importantes e ações educativas ao longo da rodovia, com o objetivo de reduzir os riscos de acidentes”, informou a empresa.
O lançamento está marcado para 8 de setembro, no próprio Santuário.
Entre a fé e a urgência
Enquanto a peregrinação continua mobilizando milhares de pessoas, cresce a pressão para que concessionárias e órgãos públicos encontrem soluções.
O iG procurou o Santuário Nossa Senhora Aparecida, mas não teve respostas até a publicação desta reportagem.