João de Deus pediu para converter sua união estável em casamento
MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL
João de Deus pediu para converter sua união estável em casamento

Em prisão domiciliar por uma série de abusos sexuais contra mulheres durante atendimentos espirituais, João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus, pediu para converter a união estável que tem com a advogada Lara Cristina Capatto em casamento. Repercutida na noite desta terça-feira, a notícia causou indignação em um grupo de vítimas do médium, que questiona a “vida normal” levada por ele, mesmo após ser condenado a quase 110 anos de detenção.

Em entrevista ao GLOBO, a holandesa Zahira Mous, de 38 anos, primeira mulher a dizer publicamente ter sido abusada por João de Deus, afirmou que, apesar de não ser crime a união do acusado, é "antiético vê-lo seguir a vida" enquanto vítimas ainda aguardam um julgamento moroso do caso.

— O advogado de João Teixeira disse que não é crime ele se casar, o que é verdade. Mas é incrivelmente antiético vê-lo seguir a vida como se nada tivesse acontecido e nós ficarmos presas na incerteza do processo que não caminha. É uma afronta, enquanto mulher e vítima, saber que uma outra mulher, vendo tudo o que aconteceu, ainda assim consiga sublimar tudo e se casar com um agressor. Sinto raiva — relatou Zahira.

O casal tem união estável desde 1º de setembro de 2021 e pediu a conversão em casamento no dia 8 de abril. O processo tinha a previsão de ser concluído nesta quarta-feira, de acordo com o g1. O GLOBO procurou o tabelião responsável para saber se o processo já havia sido concluído, mas não conseguiu contato.

Enquanto João de Deus é mantido preso em sua mansão e formaliza seu casamento, Zahira conta que o seu caso está sendo investigado desde 2018, quando a denúncia foi feita por ela. O último depoimento da vítima aconteceu há dois anos e agora a Justiça precisa ouvir o médium para dar prosseguimento ao julgamento. Desde o início da pandemia, porém, Zahira afirma que não tem atualizações sobre o seu caso, sentimento de impunidade que, segundo ela, se juntou ao fato de o acusado cumprir prisão domiciliar.

— Não perco a esperança, porque sem esperança não tenho nada. Mas com o meu caso parado, quando ele foi para casa eu senti ainda mais que ele seria capaz de continuar as atividades criminosas e abusar de mais pessoas. Prisão domiciliar no Brasil basicamente significa liberdade do indivíduo. Nós, como vítimas, vivemos em prisões de nossa própria mente devido aos traumas, e ele acaba sendo libertado. É doloroso — afirmou a holandesa.

O GLOBO tentou contato com o advogado de João de Deus, Anderson Van Gualberto, que não retornou até a publicação desta reportagem. A esposa do médium, a advogada Lara Cristina Capatto, também foi procurada, mas não respondeu.

Enquanto vítima, o desejo de Zahira era que João Faria de Teixeira cumprisse sua pena de mais de um século na cadeia. A holandesa fez sua denúncia contra o religioso pelas redes sociais, no início de 2018. Depois de seu depoimento, mais de 400 mulheres denunciaram o médium ao Ministério Público.

— Ele (João de Deus) deve cumprir sua pena de prisão para o criminoso que ele é. Se ele é saudável o suficiente para se casar, também pode ir para a prisão e cumprir sua pena. Ele é um dos homens mais perigosos do mundo e não merece o luxo de viver em sua mansão — disse Zahira.

Denúncias contra João de Deus

O Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO) denunciou o religioso 15 vezes por crimes sexuais. Ele já foi condenado por crimes sexuais, violação sexual mediante fraude e posse ilegal de arma de fogo. A quinta e última condenação de João de Deus, até o momento, aconteceu em janeiro deste ano. No total, sua pena chega a quase 110 anos de detenção.

João de Deus cumpre prisão domiciliar na sua mansão em Anápolis, a 55 km de Goiânia, desde setembro do ano passado. No início da pandemia, ele deixou o Núcleo de Custódia de Aparecida de Goiânia, onde estava preso, devido à resolução do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que recomendava aos magistrados que, em razão da pandemia de Covid-19, avaliassem os casos de detentos em grupos de risco, como os idosos. Na época, o médium tinha 79 anos de idade.

O acusado voltou para a penitenciária em agosto do ano passado, após o Ministério Público de Goiás oferecer a última denúncia contra ele por estupro de vulnerável. Um novo pedido de prisão foi feito pelo fato de as vítimas se sentirem inseguras com ele cumprindo pena em regime domiciliar. Em setembro, porém, o Tribunal de Justiça de Goiás determinou que João Teixeira de Faria deixasse o presídio depois que a defesa apresentou um habeas corpus alegando que o médium tem problemas crônicos de saúde.

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