Nathalia Soeiro, passageira do MSC Splendida
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Nathalia Soeiro, passageira do MSC Splendida

'Stress e frustração'. É assim que a passageira Nathalia Soeiro resume o desfecho da viagem a bordo do cruzeiro MSC Splendida, que saiu do Porto de Santos em 26 de dezembro e teve sua viagem interrompida após um surto de covid-19 na véspera do Réveillon. 

Em entrevista exclusiva ao iG, Nathalia, que investiu cerca de R$ 6 mil na viagem para passar o Réveillon no mar, afirma que no embarque, a quebra de alguns protocolos sanitários já chamava atenção.

"Tinha uma fila longa e sem distanciamento logo no porto, no primeiro atendimento, sem álcool em gel no guichê", conta ela. Para subir no navio, os passageiros precisaram apresentar comprovante de vacinação e exame negativo para covid-19.

Dentro da embarcação, a história não foi diferente. "Nenhum distanciamento era obrigatório, e não havia nenhum totem de álcool em gel nas portas que davam acesso à área da piscina, por exemplo. Aliás, elas estavam sujas, assim como diversos talheres e pratos dos restaurantes", conta.

No dia 28 de dezembro, os primeiros casos iam se confirmando enquanto a viagem prosseguia para Balneário Camboriú, em Santa Catarina. Ao chegar na cidade, os passageiros foram surpreendidos com a demora na autorização para o desembarque.

"Lá [em Balneário] não tem um porto específico, o navio atraca um pouquinho longe, e a gente teria que pegar um barquinho para o píer. Disseram que desceríamos entre 9h e 10h, pegamos senha - pedem sempre para gente se reunir no teatro, e esperamos chamar. O tempo foi passando, nossa senha era para 9h30, já era 11h quando disseram que nós não tínhamos autorização para descer porque a Anvisa e as autoridades locais estava 'verificando'", narra ela.

"Apenas por volta das 16h informaram, de forma pífia, em um áudio, que aproximadamente 14 pessoas estavam infectadas com a covid-19. E não falaram que foi por isso que a gente não desceu, mas foi o primeiro contato que tivemos com a informação."

O aviso, no entanto, "não foi transparente, segundo conta Nathalia. "Muitas pessoas que estavam na área da piscina não ouviram esse áudio. Ele ficou mais interno, na área fechada. Na área externa, com a música alta, ninguém ouviu."

Ela afirma que as atividades continuaram acontecendo dentro do navio, como o acesso às piscinas. No dia seguinte ao anúncio, os tripulantes informaram aos passageiros que retornariam ao Porto de Santos, em São Paulo, para uma "parada técnica".

"Ficamos impossibilitados de descer e sem o roteiro que havíamos adquirido. As medidas continuaram as mesmas no navio. Depois de muita especulação, muita informação falsa, por fim, no dia 31, começaram a liberar as pessoas que gostariam de descer no porto de Santos".

A liberação aconteceu por volta das 15h. Durante o dia, a MSC Cruzeiros informou à Anvisa, através de um ofício, a interrupção da viagem. Àquela altura, já eram 78 casos positivados entre tripulantes e passageiros.

"Foi um processo de estresse e frustração do dia 28, que desceríamos em Balneário Camboriú, até a saída. Saímos no dia 1º, pois nos deram essa opção. Aceitamos para não ficar sem um jantar de Ano Novo", conta Nathalia.

Ela afirma que em um primeiro momento, a MSC se limitou a dizer que revisaria os protocolos para covid-19, e que dariam um reembolso e um voucher para os passageiros. A posição foi revista, e a empresa prometeu reembolsar toda a viagem.

No dia 3 de janeiro, a Anvisa recomentou a suspensão da temporada de cruzeiros no país em virtude do aumento exponencial de casos. Segundo a agência, de 26 de dezembro a 3 de janeiro, 798 casos foram registrados. Para efeito comparativo, de 1º de novembro a 25 de dezembro, foram 55.

Os passageiros que já aguardavam o embarque no Porto foram pegos de surpresa, e a decisão de manter os navios em quarentena causou confusão em Santos.

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Renata Zanon está entre os que tiveram suas viagens canceladas. Ela embarcaria na última sexta-feira (7) no MSC Seaside com o pai, em uma viagem rumo ao nordeste que custou cerca de R$ 20 mil.

Ao lado do Costa Fascinosa, o Seaside foi um dos últimos a encerrar as atividades após a recomendação da Anvisa. Em viagem até quinta (6), ele desembarcou no início da manhã de sexta em Santos com mais de 90 casos de covid-19. A confirmação de que a viagem de Renata e o pai não aconteceria veio só na segunda-feira (3) à noite.

"Como acompanhei as notícias no último fim de semana, fiquei alerta, principalmente porque eles exigem os testes e não são baratos. Na segunda-feira pela manhã não consegui retorno da CVC. Eles foram avisar apenas na segunda-feira à noite que os embarques haviam sido cancelados e ainda não deram retorno do que vai ser feito com o dinheiro", conta ela.

"A comunicação foi péssima. Tentamos contato o dia inteiro [com a agência] e a mensagem só chegou na segunda a noite. Não sabemos [o que vai ser feito com o valor pago]. A temporada ainda não foi definida aqui no Brasil. Nossa intenção é remarcar a viagem", ela conta.

A MSC classificou como "frustrante para os hóspedes" a suspensão da temporada de cruzeiros , decisão adotada pelas próprias empresas após a recomendação da Anvisa .

"É muito frustrante para os nossos hóspedes termos suspendido temporariamente nossas operações de navegação no Brasil até 21 de janeiro, devido a um número limitado de casos identificados a bordo, que foram gerenciados de forma eficaz por meio do protocolo de saúde líder do setor, e eram puramente um reflexo das crescentes taxas de contaminação em terra. Mas esperamos que, nos próximos dias, a CLIA, entidade representante do setor, possa obter maior alinhamento com o governo federal, a Anvisa e as
autoridades de saúde dos destinos para adotar uma abordagem consistente e uniforme em relação aos protocolos de saúde e segurança, que foram acordados antes do início da atual temporada de cruzeiros", disse a empresa em nota.

Sobre o protocolo de saúde vigente nas embarcações, a MSC afirma que disponibiliza estações de higienização das mãos, entre outras medidas.

"O robusto protocolo de saúde e segurança implementado no Brasil inclui que todos os hóspedes com 12 anos ou mais devem apresentar comprovante de vacinação completa contra a COVID-19 e todos aqueles com dois anos ou mais devem apresentar teste negativo do tipo RT-PCR feito dentro de 72 horas do embarque no navio ou de um teste de antígeno feito nas 24 horas anteriores ao embarque. Além disso, um questionário de saúde deve ser preenchido dentro das seis horas antes do embarque", afirma.

"Testagens são também realizadas a cada dia em 10% dos hóspedes e tripulantes durante a viagem do cruzeiro e toda a tripulação é vacinada e também testada semanalmente. Os navios navegam com ocupação reduzida de no máximo 75% da capacidade, disponibilização de estações de higienização das mãos, ar 100% fresco e sem recirculação e medidas ainda mais elevadas de higienização, apoiadas pelo uso de produtos desinfetantes de nível hospitalar, além do uso de máscaras em áreas públicas. As medidas
de saúde e segurança são constantemente reforçadas com os hóspedes durante as viagens por meio de comunicados e sinalização a bordo", prossegue a nota.

"Essas e outras medidas preventivas de saúde que fazem parte do protocolo, fornecem hoje - como têm feito desde que a MSC Cruzeiros reiniciou as suas operações de cruzeiro globalmente em agosto de 2020 - um ambiente seguro para todos a bordo dos navios da empresa, bem como para as comunidades que os nossos navios visitam."

Com relação ao pagamento das viagens, a empresa diz estar em contato com todos os hóspedes e agentes de viagens afetados. No momento, são fornecidas duas opções:

- A remarcação da viagem sem diferença tarifária em cruzeiro similar até o final da próxima temporada, além de um crédito de 200 dólares/euros por cabine para uso dentro do navio;

- O recebimento de uma carta crédito no valor pago pelo cruzeiro original a ser resgatada até 31 de dezembro de 2022, e utilizada em qualquer cruzeiro, e um voucher de 200 dólares/euros por cabine para o novo cruzeiro;

- Reembolso em até 45 dias.

Para optar por uma das três alternativas, os clientes devem procurar o agente de viagens, caso a reserva tenha sido intermediada, ou a MSC Cruzeiros.

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