Denise Santos está com esperança de se tornar a primeira da família a ingressar no ensino superior
Ana Branco / Agência O Globo
Denise Santos está com esperança de se tornar a primeira da família a ingressar no ensino superior

A aposentada Denise Santos, de 56 anos, chegou sorridente para o segundo dia de provas do Enem. Neste terceiro ano de tentativa, ela conseguiu finalmente tempo para estudar, graças à aposentadoria e à ajuda de um cursinho comunitário do Morro do Salgueiro, no Rio de Janeiro, onde mora. Confiante de que garantiu uma boa nota no primeiro dia de prova, a aposentada está com esperança de se tornar a primeira da família a ingressar no ensino superior, para cursar Ciências Sociais e atuar na sua comunidade.

— Estou muito animada. A última prova achei fácil, essa que vai ser mais pesada. Mas como eu tive tempo para estudar e por estar aposentada vou continuar tendo tempo, caso não passe novamente, eu estou super otimista — relata.

Nos mais de dez anos em que trabalhou como cobradora de ônibus, Denise conta que nunca teve tempo para estudar para o Enem. Mas a vontade de iniciar uma graduação falou tão alto, que ela conseguiu convencer até o filho, de 30 anos, a fazer o vestibular. O rapaz acompanhou a mãe nos últimos dois anos, mas por não ter conseguido passar, desistiu e se dedicou a cursos técnicos de design gráfico.

— Eu chamei meu filho para fazer a prova comigo porque não custa tentar, né?! Continuo aqui firme e forte no meu propósito. Agora que eu tenho tempo, que estou com mil vezes mais vontade de voltar aos estudos. Estudar é bom demais — diz com brilho nos olhos.

A estudante Ana Cláudia da Silva, de 17 anos, também chegou otimista ao local da prova porque conseguiu acertar o tema da redação no último domingo, e acredita ter garantido uma nota próxima de 1000. Com o objetivo de ser advogada, caso consiga ingressar na universidade, Ana será a segunda da família a entrar no ensino superior. Os pais, que não concluíram o ensino fundamental, são os maiores incentivadores.

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— Eu estava falando para todo mundo que a redação seria algo a ver com a identidade do brasileiro, sobre os direitos a partir da identidade. E foi praticamente isso, então consegui desenvolver os argumentos bem. E isso me aproxima da faculdade de direito, que quero tanto fazer por acreditar que as leis brasileiras são boas, mas as aplicações práticas não — afirma.


Primeira vez fazendo o Enem, o estudante Diego Batista, de 17 anos, foi um dos primeiros a chegar no campus da Uerj. Apesar de ter tido um ano difícil, em que por algumas vezes teve de faltar às aulas por causa de operações policiais no Jacaré, onde mora na Zona Norte do Rio, Diego diz que recebeu apoio de professores do cursinho popular Dona Zica, oferecido pela escola de samba da Mangueira para jovens de baixa renda.

— Eu estou bem angustiado com tudo que vem acontecendo no Rio, com as aulas remotas que defasam muito o ensino e também com todos esses problemas no Inep. A única coisa que me motiva é pensar no que os professores do cursinho me disseram: a gente não é essa prova, mas ao estarmos aqui representamos o esforço de todos que lutaram pelo nosso espaço de direito na universidade, e por isso estou feliz, apesar de tudo — relata.

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