Sequestradores pedem resgate via PIX no Rio de Janeiro
O Globo
Sequestradores pedem resgate via PIX no Rio de Janeiro

RIO - Na manhã de terça-feira da semana passada, o arquiteto X., de 28 anos, chegava para fazer o orçamento da obra de uma casa na Ilha do Governador, Zona Norte do Rio, quando dois homens o obrigaram a voltar para dentro do carro. Com uma arma apontada para sua cabeça, o jovem dirigiu por cerca de dez minutos, foi comunicado de que se tratava de um sequestro relâmpago e, por ordem dos bandidos, teve R$ 1.200 transferidos de sua conta bancária, por meio do PIX. Não foi um episódio isolado: a tecnologia criada para facilitar a vida de correntistas está sendo usada por criminosos para exigir o pagamento de resgates. Em dois meses, pelo menos seis casos foram registrados na Região Metropolitana do Rio.

Em depoimento na 37ª DP (Ilha do Governador), o arquiteto relatou que os bandidos tentaram fazer um empréstimo por meio do aplicativo da instituição financeira instalado em seu celular. Sem sucesso, apelaram para o PIX do valor total disponível em sua conta-corrente. O rapaz foi forçado ainda a ligar para o pai, que é marceneiro, e para a mãe, uma técnica de enfermagem, para que eles também realizassem esse tipo de transferência. Mas o casal não tinha dinheiro.

Também no bairro, uma moradora foi abordada perto de casa, e teve que pedir ao marido para fazer uma transferência de R$ 2.500.

— Foi tão agressivo que estou em pânico de sair à rua depois disso — resumiu.

À frente da Delegacia Antissequestro (DAS), o delegado Claudio Góis admite que a facilidade do PIX beneficia a atuação das quadrilhas. Mas ele ressalta: as transferências deixam rastros. É possível identificar o destinatário que recebe os valores, e ele pode ser acusado pelo crime.

— Mesmo que uma pessoa tenha aceitado receber de boa-fé a transferência, ela poderá indicar quem pediu para usar a conta dela — diz o delegado.

Nem esse possível rastreamento tem inibido os bandidos. No último dia 14 de junho, um vendedor de uma loja de carros de Botafogo, na Zona Sul, recebeu a ligação de um suposto comprador interessado em quatro veículos. Ele marcou de assinar o contrato no escritório do “cliente”, em Irajá. Ao chegar, foi obrigado a entrar em um carro, levado para a Favela Jorge Turco, em Coelho Neto, e acabou tendo R$ 80 mil transferidos de sua conta-corrente, em seis transações via PIX.

Em uma delas, o gerente do banco ligou para seu celular, ao estranhar a movimentação. Mas, ameaçado por dois homens armados, ele respondeu que as operações eram válidas. O caso foi registrado na 40ª DP (Honório Gurgel).

Diferentes abordagens

Já no último dia 8, quatro bandidos que exigiam resgate usando PIX foram presos pela DAS, em São Gonçalo. O bando entrava em contato com empresários e comerciantes, pedindo orçamentos de serviços. Ao encontrar as vítimas, eles as obrigavam a fazer transferências e a contratar altos empréstimos. No caminho, ainda roubavam seus pertences e telefonavam para parentes, exigindo resgate. Um quinto suspeito, Ricardo Patrick Vieira dos Santos, foi preso nesta terça-feira.

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No mesmo município, um comerciante foi mantido dentro de seu carro, por dois homens armados, que o obrigaram a transferir R$ 24 mil . Na vizinha Maricá, um estudante foi vítima de um golpe mais comum. Interessado em comprar um carro anunciado numa rede social, marcou um encontro com o suposto proprietário. Ao chegar, foi levado por um jovem armado e dois comparsas para uma rua deserta, onde ele teve R$ 16 mil transferidos de sua conta corrente.

De volta à capital, em 24 de junho, dois policiais militares do 18º BPM (Jacarepaguá) foram acionados pelo marido de uma empresária abordada por criminosos no Recreio dos Bandeirantes. O rastreador do carro mostrava que ela estava perto da favela de Rio das Pedras. Os PMs conseguiram localizar a vítima, que já havia sido obrigada a transferir R$ 16 mil para a quadrilha, por PIX.

Ainda não há, porém, um levantamento de quantos crimes do tipo já ocorreram. O Instituto de Segurança Pública (ISP) aponta que, de janeiro a junho deste ano, 54 pessoas foram vítimas de sequestros relâmpagos. Os dados divulgados, no entanto, não mostram como se deram as abordagens e tampouco como foi roubado o dinheiro das vítimas.

O que fazer para se proteger

CEO da Dinamo Networks, empresa responsável pelo desenvolvimento da tecnologia de criptografia do PIX, Marco Zanini diz que a utilização da ferramenta em crimes do tipo era uma preocupação entre engenheiros do projeto. Ele mesmo desativou o aplicativo de sua principal conta bancária no celular e, no da outra, estabeleceu limite de R$ 1 mil para transferências.

— Os criminosos aprendem rápido, então evitam, por exemplo, resgates tão altos, para burlar as medidas de segurança. Só com a repressão das autoridades conseguiremos evitar esses crimes — afirma Zanini.

Especialista em Direito Digital, o advogado Antônio Carlos Marques Fernandes destaca que, além de limitar o valor das transferências diárias, os consumidores podem recorrer a medidas ainda mais bruscas, como desabilitar esse tipo de procedimento quando o celular estiver fora de uma rede de conexão doméstica, ou até deletar os aplicativos dos aparelhos.

Procurada, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) informou que os bancos investem, anualmente, cerca de R$ 25,7 bilhões em tecnologia, sendo 10% voltados para cibersegurança. A entidade destacou que as transações são “totalmente rastreáveis”, que os usuários têm a opção de controlar limites para PIX e que mantém “estreita parceria” com as forças de segurança e o Judiciário.

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