Matheus Nunes com sua bicicleta elétrica
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Matheus Nunes com sua bicicleta elétrica

"Se eu fosse um rapaz branco não teria sido abordado de tal forma", disse o instrutor de surfe Matheus Ribeiro da Cruz, de 22 anos, após prestar depoimento na 14ª DP (Leblon), que investiga o caso. Ainda que o jovem negro não tenha sido alvo de ofensa explícita de caráter racista, segundo ele, a  abordagem foi "com certeza" um ato de racismo por parte do casal. Para especialista, crimes de injúria racial e calúnia, o qual está sendo apurado pela delegacia, esvaziam o crime de racismo, pois a legislação é aberta e não abarca o racismo estrutural no Brasil.

No último dia dos namorados, Matheus esperava por sua namorada em frente à porta do Shopping Leblon, quando foi abordado por um casal de jovens brancos que o acusaram de ter roubado uma bicicleta elétrica . O caso ganhou repercussão após o instrutor de surfe publicar nas redes sociais um vídeo feito na hora da abordagem. Nesta terça-feira, Matheus foi ouvido na delegacia e nesta quarta será a vez da menina. O garoto que a acompanhava ainda não foi identificado.

"Na hora a gente fica muito em choque porque a gente não entende o porquê de estar acontecendo aquilo. O sentimento primeiro que vem é de susto e medo. Daí quando acabei percebendo que não era só uma dúvida, porque talvez se eu fosse um rapaz Branco não teria sido abordado de tal forma. Se eu não fizesse o máximo possível para provar minha inocência ali o menino já teria certeza de que eu era culpado", conta Matheus.

A delegada Natacha Alves de Oliveira explica que está sendo apurado o crime de Calúnia pela falsa acusação do casal e que não há elementos suficientes para enquadrar o crime como racismo. Mesmo assim, ela diz: "Ele alega quefoi abordado por ser negro. E a gente que existe racismo estrutural no Brasil, isso é inegável. Mas nem sempre é o suficiente para se enquadrar no tipo penal", disse Natacha.

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No entanto, para a advogada criminalista Priscila dos Santos, casos como esse demonstram o quão vaga é a legislação em episódios de manifestações implícitas de racismo estrutural. Ela explica que o crime tipificado como racismo ocorre quando alguém ofende toda a comunidade negra, mas quando ela é direcionada para uma pessoa em específico, o crime é qualificado como injúria racial. No entanto, este é um equívoco, pois, quando alguém ofende uma pessoa negra, todas as demais que se identificam desta maneira são atingidas.

"Na época da constituinte de 1988, nós não trabalhávamos com a questão do racismo estrutural. Até hoje o Brasil e o povo brasileiro não admite ser racista. Injúria e Calúnia não abarcam condutas como o medo de estar na mesma calçada que uma pessoa negra e atravessar a rua, por exemplo, que está relacionado única e exclusivamente à cor da pele da pessoa. A sociedade foi alimentada pelo estereótipo do negro associado à criminalidade, à marginalidade. E a gente precisa discutir isso, pois são interpretações injustas", afirmou.

Demissão do casal
Após a repercussão do caso, empresas demitiram o casal acusado de racismo . Após cobrança de usuários nas redes sociais, a Papel Craft comunicou que desligou o funcionário, designer da marca, de seus quadros. A informação foi confirmada ao GLOBO nesta terça-feira (15) pela gerente da loja da marca na Gávea. Até o momento, no entanto, a empresa não se posicionou oficialmente.

Já a Espaço Vibre comunicou nesta terça em suas redes sociais que a professora implicada no caso foi demitida. A empresa afirmou em nota que está "consternada" e "tratando o assunto com toda gravidade que ele merece".

"Nos solidarizamos com o Matheus pela dor sofrida e mesmo que o gesto condenável não tenha ocorrido dentro de nosso espaço, esta é uma violência que todos temos que combater juntos", afirmou a Espaço Vibre no comunicado.

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