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“Elas pertencem à era digital e são bombardeadas com informação", diz Ana Raquel de Oliveira, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Neurociências e Educação da UFPI.

Nina, 4, e Rebeca, 2, têm uma mãe um pouco fora da curva para os dias de hoje. Renata Koraicho, de 32 anos, não utiliza muito a tecnologia , com exceção dos casos em que há alguma exigência profissional, e raramente acessa as redes sociais. Em contrapartida, os brasileiros gastaram, em média, quase quatro horas por dia nas redes sociais em 2019, aponta uma pesquisa realizada pela GlobalWebIndex .

“Não acho saudável”, diz Renata sobre as redes sociais . “É super triste ver aquelas cenas de famílias ou amigos em restaurantes cada um olhando para o seu celular”, complementa. Por isso, assistir à televisão ou mexer no celular não é uma prática frequente na vida de Nina e Rebeca.

Diante da pandemia do novo coronavírus (Sars-CoV-2), o cenário mudou um pouco. “A gente liberou, principalmente a TV , porque não teve jeito, mas elas não são apegadas”, observa Renata. “Como nunca foi muito uma prática das meninas, elas saem para brincar. Eu não preciso nem desligar”, relata.

Telas são prejudiciais à saúde?

A psicóloga Ana Raquel de Oliveira, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Neurociências e Educação da UFPI (Universidade Federal do Piauí), afirma: “as mídias favorecem a socialização, mas o uso sem limitações e sem acompanhamento parental pode ser problemático”.

Para que uma criança desenvolva suas habilidades e tenha uma aprendizagem consistente, é preciso que conexões cerebrais sejam fortalecidas, diz Oliveira. “As telas são uma das variáveis que podem contribuir para que a criança não se engaje em atividades de aprendizagem, de estudos e nas relações sociais, que são importantes porque aprende-se também no contato e no convívio”. 

A psicóloga observa que as crianças são expostas desde muito cedo à tecnologia. “Elas pertencem à era digital e são bombardeadas com informação. Sabe-se que isso pode causar alguma alteração no padrão de conexões entre neurônios”, diz.

Oliveira explica que quanto mais conexões o cérebro  realiza, mais desenvolvido ele é. Essas conexões são feitas em resposta aos estímulos recebidos ao longo da vida e são responsáveis pelas habilidades humanas. Quando há uma mudança nas conexões sinápticas de algum indivíduo, ele pode desenvolver transtornos de aprendizagem, psicológicos e psiquiátricos.

Vício em telas existe?

Oliveira também alerta para o perigo do uso exacerbado da tecnologia, que pode deprimir o sistema nervoso central e levar a algum tipo de dependência. “O nosso cérebro tem um sistema de recompensa e, por isso, tendemos a repetir atividades que são prazerosas, como estar em frente a uma tela”, diz.

“Quanto mais transmissores de serotonina são liberados, mais o nosso cérebro tende a reproduzir a mesma coisa”, complementa. Além disso, ela afirma que, pensando no longo prazo, quando uma criança é exposta a uma tela, as células neuronais estão hiperativas. Quando a exposição cessa, ocorre a hipoativação.

“A depressão do sistema nervoso central é nesse sentido: há uma diminuição no padrão de neurotransmissores e receptores. Para que haja aprendizagem e para que a gente esteja bem, é preciso haver uma harmonia”, explica.

Como fazer um uso moderado?

“Eu vejo que não tem como ser um dos extremos”, afirma Renata Koraicho, que não restringe totalmente o uso da tecnologia , mas também não incentiva o uso intenso.

Ela relata que costuma conversar bastante com as filhas sobre o assunto e as meninas se mostram compreensivas. Além disso, Renata acredita que “a criança não tem essa necessidade de sempre estar sendo provida com algum entretenimento”. 

Ana Raquel de Oliveira diz que, de fato, é importante limitar o número de estímulos aos quais a criança é exposta, porque tempo ocioso é necessário. Dosar o uso das telas também é fundamental para que a tecnologia não faça com que o contato social diminua ou que atividades acadêmicas se tornem menos prazerosas.

Apesar dos riscos, a tecnologia é um recurso do qual não é possível abrir mão, defende Oliveira. Ela lembra que o uso de telas não é recomendado antes dos 2 anos de idade, e, depois, o essencial é observar como o uso será feito e criar uma rotina de exposição a telas que seja supervisionada. “Uma primeira dica seria estabelecer limites de horário e deixar uma distância considerável entre a criança e a tela”, diz.

“Conversar com a criança e explicar o que é possível fazer e o que não é, porque o hábito tem que se constituir desde cedo”, complementa. Além disso, o ideal é analisar o que a criança gosta de assistir, mas não deixar que ela escolha diretamente. E, depois que o tempo de exposição a alguma tela chegar ao fim, Oliveira diz que é importante tentar envolver a criança em algo que a faça se sentir bem.

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