Eva Maria de Carvalho e João Vicente recorrem à fonte para conseguir água.
Guilherme Pinto/Agência O Globo
Eva Maria de Carvalho e João Vicente recorrem à fonte para conseguir água.

Aos 55 anos, a dona de casa Eva Maria de Carvalho tem precisado sair de casa todos os dias e carregar dois baldes d'água de uma fonte no Largo do Pedregulho, em Benfica, Zona Norte do Rio. São cerca de 400 metros até o local onde ela consegue buscar a água que vai ser utilizada para cozinhar, tomar banho e beber. Com problemas de abastecimento que atingem pelo menos 17 bairros do Rio, além da cidade de Nilópolis, na Baixada Fluminense, moradores têm se virado para cumprir as atividades em casa.

"É muito sacrifício. Eu estava indo na casa de parentes tomar banho e trazia água de lá para abastecer em casa. Agora, venho aqui todos os dias para encher os baldes. Isso é um absurdo. Eles não cumprem com a obrigação do abastecimento, mas nós temos que pagar a conta todo mês. É tudo muito errado", conta a dona de casa.

O comerciante João Vicente Sobrinho, de 49 anos, é dono de um bar em Benfica, na Rua São Luiz Gonzaga. Ele acreditou que o momento seria de retomada profissional. No entanto, os últimos dias são de sufoco.

"Passei meses com o meu bar fechado e sem trabalhar. Passada parte dessa crise, vem agora a Cedae para complicar nossa vida. Essa água aqui da fonte é para lavar as louças, usar no vaso sanitário e limpar o chão. Para cozinhar e beber, eu compro água todos os dias. Foram mais de R$ 200 nos últimos 15 dias", conta ele, que carrega, com ajuda da bicicleta, 30 baldes por dia.

Na Rua Marechal Aguiar, em Benfica, os moradores também estão sem receber água nas torneiras há duas semanas. A professora Fátima Bastos, de 66 anos, tem usado a água armazenada na piscina para amenizar o problema. Mesmo assim, as dificuldades ainda são muitas: a mãe de Fátima, com 89 anos, precisa de cuidados médicos com atendimento de home care.

"As enfermeiras chegam à minha casa e não podem tomar banho, o que deveria ser o certo devido à pandemia de Covid-19. Olha o risco que estamos correndo", alerta Fátima, que revela ainda a dificuldade para comprar carro-pipa .

"Os preços subiram, quase dobraram. E mesmo assim o tempo de espera está maior. Às vezes, acertamos a compra e logo depois a empresa liga e cancela. O carro-pipa gratuito da Cedae está sendo prometido para daqui a cinco dias úteis. Nós não temos como esperar", diz.

Apesar do desabastecimento na rua, um funcionário da Cedae esteve no local para realizar a medição dos hidrômetros. Na casa do técnico em eletrônica Rafael Garcia, de 38 anos, a pia cheia de louças acumuladas é o retrato da falta d'água.

"É até vergonha dizer, mas ontem [quinta-feira] eu não consegui tomar banho . Não tinha uma gota d'água. Tenho dois filhos pequenos e é ainda mais complicado. Já fiquei acordado uma madrugada inteira para ver o horário em que a água ia cair. Foi 4h30, e durou cerca de 20 minutos só. E para piorar ela veio um fio, fraquinha", relata.

Gabinete de crise e solução em 23 dias

Em meio a uma pandemia do novo coronavírus (Sars-CoV-2) e ao calor, a falta de água é em razão de um problema na Elevatória do Lameirão. O reparo da Cedae se estende por mais de uma semana.

O problema afeta um milhão de pessoas. Com três motores fora de operação, a elevatória trabalha com 75% de sua capacidade. A Cedae tem feito manobras para tentar não deixar áreas do Rio desabastecidas, como uma espécie de rodízio. Contudo, moradores indicam que a medida tem sido ineficaz. A previsão de normalização do serviço é em até 23 dias.

O Ministério Público do Estado (MPRJ) e a Defensoria Pública pressionaram a Cedae a respeito da transparência das medidas adotadas para minimizar os efeitos. Diante desse movimento, a companhia anunciou a criação de um gabinete de crise para tratar das medidas para minimizar os impactos dos problemas na elevatória.

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