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Reprodução/Flickr/Prefeitura do Recife Oficial
Qualquer decisão sobre o Carnaval em Recife e Olinda só vai ser tomada depois das eleições municipais

Qualquer decisão sobre o Carnaval 2021 em Recife e Olinda só vai ser tomada no final de novembro, depois das eleições municipais. As equipes das duas prefeituras teriam tomado a decisão em conjunto, em um acordo que contou com a participação do Governo do Estado.

Em Recife, oficialmente o assunto sequer existe. Ao pedido de indicação de um gestor público para conceder entrevista para subsidiar esta reportagem, a assessoria da secretaria municipal de Cultura respondeu que “a Prefeitura do Recife não tem, no momento, tratativas ou definições sobre o Carnaval 2021 a serem divulgadas para a imprensa”.

Na linha seguinte, a evasiva é reiterada: “A Prefeitura do Recife informa que, por ora, não há definições a serem anunciadas sobre o Carnaval 2021”.

Bastou uma conversa com o secretário municipal de Patrimônio, Cultura e Turismo de Olinda, João Luiz da Silva Júnior, para entender melhor as razões da indefinição. Sem rodeios, o secretário olindense explicou detalhadamente aquilo que, para seus colegas do Recife, não precisaria ser divulgado.

“Olinda, Recife e o governo estadual vêm conversando sobre a questão, discutindo possíveis cenários futuros a partir da situação de momento da covid-19. Ficou decidido que o melhor seria esperar até o final de novembro para tomar uma decisão. Uma coisa é certa, só vai ter carnaval se houver segurança sanitária”.

Por que novembro? De acordo com João Luiz, a esperança dos gestores é que, até lá, seja “possível visualizar com clareza se haverá vacina acessível para a população  e qual será a situação de contágio”. Além disso, ele admite sem constrangimentos que a realização das eleições também motivou a escolha da data. “Com o resultado das definições, será possível tomar uma decisão livre da pressão eleitoral”.

João Luiz acrescenta uma informação curiosa: os gestores de Belo Horizonte também participaram das conversas sobre a possibilidade de realizar ou não o carnaval. “De um jeito ou de outro, São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador parecem ter tomado a decisão de cancelar ou adiar o carnaval. Belo Horizonte estava numa situação indefinida, parecida com a nossa”.

Desfile só com vacina

Os carnavalescos que fazem o carnaval de rua já começam a definir seu rumo sem esperar pelos governantes. É o caso da diretoria de uma das mais tradicionais agremiações de Pernambuco, a Pitombeira dos Quatro Cantos, fundada em 1947, que tomou uma decisão, independente da prefeitura de Olinda e do Governo do Estado: desfile só com vacina. Quem garante é o presidente da troça, Hermes Neto. “E não adianta só a vacina, é preciso ter campanha de vacinação. Sem isso, Pitombeira não sai no carnaval do ano que vem”.

Apesar dessa convicção, Hermes acredita que, mesmo se não houver o carnaval oficial, “o povo vai para a rua, vai fazer a festa”. Mesmo assim, ele admite: “O povo vai fazer isso, mas eu mesmo não tenho coragem. Por mim, o carnaval de 2021 seria como os de antigamente, com mela-mela de talco nos quintais das casas”.

Ao longo do ano, Pitombeira realiza várias prévias e aluga a sede para diversos eventos. Essas atividades arrecadam até 30% dos recursos necessários para o desfile – os outros 70% vêm da subvenção da prefeitura e dos patrocínios. “Se de repente aparecer uma vacina e tiver carnaval, vamos ter dificuldade de botar a troça na rua, pois desde o dia 6 de março, dia do aniversário de Olinda, não arrecadamos um centavo”, explica Hermes.

A prévia Acertando o Passo, a mais rentável de todas, que abre a temporada informal do pré-carnaval olindense, esse ano virou uma live com o cantor Ed Carlos e passistas de frevo. A finalidade foi arrecadar doações para a sobrevivência da troça.

Ainda em Olinda, o bloco mais politizado do carnaval, o Eu Acho é Pouco, simplesmente não incluiu o Carnaval 2021 nas discussões entre seus componentes. Guilherme Calheiros, um dos diretores foi enfático. “A gente nem tá pensando no carnaval ainda. Sem vacina fica difícil e tem muita coisa pra rolar daqui pra lá ainda.

“Neste momento, estamos focados no lançamento de uma camisa para discutir e trabalhar esse contexto ainda de pandemia e todo o processo político esquisito que estamos vivendo”, explica Calheiros, que encerrou a entrevista de maneira a tornar impossível uma segunda pergunta: “Não sei se faz sentido qualquer depoimento nosso agora sobre o carnaval 2021”.

Cautela x negócios

O produtor de eventos Henrique Figueira, cuja empresa, a Tampa Entretenimento, produz o Camarote Parador no bairro do Recife, garante que entende a posição das prefeituras, pois “não adianta criar um fato político novo que possa comprometer. Seria mesmo precipitado tomar uma decisão agora, pois pode aparecer uma vacina daqui a dois meses. Ou o inverso, decide que vai ter carnaval, mas os casos voltam a aumentar”.

O cancelamento do Rio de Janeiro seria, na opinião do produtor, justificável, pois as escolas de samba levam um ano inteiro para preparar seus desfiles. “No caso dos carnavais privados do Recife e Olinda, só precisamos de um mês para viabilizar tudo”.

Figueira conta que, desde julho, os produtores de evento estão conversando sistematicamente com o secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Bruno Schwambach, para tentar estabelecer um cronograma e protocolo para a realização de shows e feiras, além da abertura de cinemas e teatros. Os produtores locais chegaram a adaptar um protocolo elaborado pela Associação Brasileira de Produtores de Eventos (Abrape) e o apresentaram como proposta do grupo local, mas a proposta foi rejeitada pelo Governo do Estado.

A proposta recusada incluía medidas de proteção e distanciamento social, prevendo a retomada gradual dos shows com público sentado de até 500 pessoas já no final de agosto. Os shows para público em pé começariam a acontecer para, no máximo, 500 pessoas no final de semana do feriado de 7 de setembro, ficando completamente liberados em setembro, caso o número de casos e mortes por covid continuasse em queda.

“Nós estamos duplamente cautelosos, tanto por receio de reiniciarmos a atividades e isso provocar a volta da doença, quanto por razões econômicas, pois há a possibilidade de realizarmos shows e o público não comprar ingressos por insegurança”, admite Figueira.

Praias lotadas, o argumento

As multidões sem máscara e sem distanciamento social, que tomaram as praias em todo o país no feriadão da Independência, devem ter dissipado os receios dos produtores, além de lhes fornecer argumentos para pressionar o governador Paulo Câmara e os prefeitos das duas cidades.

Outro produtor, Bruno Rego, sócio da BG Promoções, recorre às imagens das praias lotadas para justificar o discurso otimista: “A retomada começou a acelerar, as praias, bares, shoppings andam cheios e os casos só fazem diminuir, como ainda faltam mais de cinco meses para o Carnaval, não vejo como ele não ser realizado, acho que vai acontecer sim.

Quando vejo uma praia lotada e os números diminuindo, acho que vamos ter condições de realizar até sem a própria vacina, mas não podemos minimizar sua importância, de forma alguma”.

A flexibilização do distanciamento social, no entanto, não convence todos produtores de evento. O empresário Jair Pereira, da 2JP Cultura e Entretenimento e um dos fundadores da troça Caranguejo no Caçuá, é uma voz dissonante entre os produtores. “Não acredito que haverá condições fazer o carnaval em segurança no início de 2021. Sem vacina e vacinação, seria irresponsável”. afirma Pereira.

Ele defende um formato virtual semelhante ao São João para garantir remuneração para músicos, cantores e os técnicos, mas admite problemas. “Para cantar e tocar em eventos online, os artistas precisam aceitar cachês menores do que aqueles praticados usualmente. Nem todos aceitam por temer que isso seja usado como precedente para que, no futuro, os tribunais de contas condenem os cachês normais, de valores mais altos”, especula.

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