Apesar das altas taxas, especialista que monitora a Covid-19 nos presídios afirma que os números do Depen são defasados Foto: Gláucio Dettmar/CNJ / Divulgação
Foto: Gláucio Dettmar/CNJ / Divulgação
Apesar das altas taxas, especialista que monitora a Covid-19 nos presídios afirma que os números do Depen são defasados

O número de casos confirmados de Covid-19 em presos no Brasil aumentou 134% entre 28 de junho e 27 de julho. No mesmo período, os diagnósticos confirmados da doença na população em geral aumentaram 82%. Os dados são do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), órgão do Ministério da Justiça e Segurança Pública , englobam detentos dos regimes fechado, aberto e semiaberto e foram fornecidos a pedido do jornal Extra .

O crescimento aconteceu em meio ao aumento na testagem, que subiu 136% no mesmo período, apesar de o total de testes aplicados representar pouco mais de 4% da população carcerária do país. O número de mortes aumentou 22%, subindo de 59 para 72. Entidade que monitora o avanço da Covid-19 nos presídios , no entanto, afirma que os dados do Depen são defasados e subestimados.

Há alguns meses, o Depen lançou uma plataforma online com dados atualizados sobre a Covid-19 nos presídios. A ferramenta, porém, não permite consultas retroativas. Por isso, a reportagem pediu ao Depen que liberasse dados referentes ao intervalo de um mês. O período informado foi entre 28 de junho e 27 de julho.

De acordo com o órgão, havia 10.471 casos confirmados da doença nos presídios de todo o Brasil, no dia 27 de julho, contra 4.473, no dia 28 de junho — um crescimento 134%. No mesmo período, segundo dados levantados pelo consórcio de veículos de imprensa do qual o EXTRA faz parte, o número de casos confirmados em todo o Brasil (dentro e fora de presídios) aumentou 82%, saltando de 1,34 milhão de casos no dia 28 de junho para 2,44 milhões de casos em 27 de julho.

Em relação ao número de testes feitos no sistema penitenciário, ele saiu de 13.057 no dia 28 junho para 30.838 no dia 27 de julho, alta de 136%. Mesmo com o aumento na testagem, esse número representa apenas 4,1% do total da população carcerária brasileira, estimada em 748.009 pelo Depen.

Dados do Depen até 30 de julho, São Paulo era o estado com mais casos confirmados nos presídios: 2.512. Também é o com a maior população carcerária do Brasil. Em seguida, em número de casos, estão Distrito Federal (1.485), Bahia (920), Pernambuco (790), Santa Catarina (733) e Rio Grande do Sul (731). Mas o documento aponta que o número de infectados em São Paulo pode ser maior do que o registrado. Isso porque o número de testes lá era igual ao de casos, o que indicaria que só são testados casos com sintomas. No Distrito Federal, por exemplo, onde há 1.485 casos confirmados, foram feitos cinco vezes mais testes: 7.737.

São Paulo e Rio concentram óbitos

São Paulo também lidera o ranking de detentos mortos pela Covid-19. Foram 19 até o dia 30 de julho. Logo atrás estão Rio de Janeiro (14), Pernambuco e Roraima (6, em cada um). Na avaliação do coordenador do Projeto Observatório do Avanço da Pandemia — Infovírus, Felipe Freitas, as informações do Depen são pouco confiáveis. Segundo ele, os dados são subestimados e defasados.

— A gente compara esses dados com os relatos que recebemos, tanto da imprensa quanto de dentro do sistema carcerário, e sabemos que há problemas quanto à confiabilidade dos dados. Eles são subestimados e defasados. Não refletem a realidade que temos hoje nos presídios — disse Freitas.

O Depen, por sua vez, diz que apenas compila os dados repassados pelos governos estaduais e soma com os dados do sistema penitenciário federal.

Procurada, a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) do estado de São Paulo rebateu as críticas e disse que a política adotada pelo governo paulista é de testagem em massa de presos e funcionários do sistema carcerário do estado. Em nota enviada à reportagem, informou ainda que testou 10.791 presos, e não apenas 2.512, como indica a apresentação do Depen. O jornal Extra procurou o Depen para comentar os dados, mas, até a conclusão desta reportagem, não recebeu retorno.

    Veja Também

      Mostrar mais