Pesquisas recentes apontam que parte da população segue avaliando governo como ótimo ou bom
Isac Nóbrega/PR
Pesquisas recentes apontam que parte da população segue avaliando governo como ótimo ou bom

Após 18 meses de governo e em meio à pandemia, cerca de 30% da população aprovam o governo do presidente Jair Bolsonaro , ou seja, consideram sua gestão ótima ou boa, segundo pesquisas do Datafolha. A composição deste grupo, bastante heterogêneo, vem sofrendo variações nos últimos meses: a perda de apoio nas classes mais altas foi compensada por um crescimento da popularidade entre a população beneficiada pelo auxílio-emergencial de R$ 600. Para os apoiadores, os fatores de maior peso são a agenda liberal, e a confiança na recuperação econômica, e a bandeira anticorrupção.

De acordo com o professor emérito da Universidade São Paulo (USP) Reginaldo Prandi, não se deve confundir a taxa de aprovação com a base mais fiel ao presidente — este grupo, pelos seus cálculos, está em 15% da população: são eleitores que não só aprovam o governo como também dizem sempre confiar nas palavras de Bolsonaro . Para analistas, a adesão ao presidente está relacionada não apenas a elementos concretos, mas também a um apelo emocional e afetivo.

Morador de Padre Miguel, na Zona Oeste do Rio, o motorista Epitácio Coelho, de 60 anos, é um desses bolsonaristas fieis. Para ele, a pandemia da Covid-19 evidenciou a “roubalheira”de prefeitos e governadores, o que associa também aos governos do PT. Sofrendo com os efeitos da crise, já que trabalha no setor turístico, Epitácio diz que votará em Bolsonaro novamente “sem sombra de dúvida”.

"O povo está cansado de sacanagem, de gente que fala bonito e não faz nada. Se o  PT seguisse no poder, aposto que até hoje não tinha concluído o trecho da transposição do São Francisco. Bolsonaro foi lá e entregou. Não virou as costas para o Nordeste, mesmo o pessoal lá sendo petista. Ninguém mais é bobo, as redes sociais estão aí para alertar a todos", afirma Epitácio.

O agrônomo e produtor rural Alexandre Marchese, de 45 anos, que mora na cidade de Formosa (GO) e tem uma fazenda em Formoso (MG), onde planta soja, milho e feijão, também afirma que votaria em Bolsonaro hoje e considera que o governo vem “dando oportunidade” para o agronegócio. Alexandre elogiou as mudanças em regras para porte e posse de armas.

"Você não tinha direito de defender sua casa, sua propriedade. Qualquer um podia entrar, meter o pé na porta. Não podia ter uma arma. O ladrão podia ter, mas você não", opinou.

Para Prandi, um dos criadores do método de pesquisa do Datafolha, Bolsonaro oferece uma identificação muito forte: "nós temos hoje uma espécie de culto à figura do presidente. São pessoas que, ao longo de muitas décadas, não tiveram quem falasse por elas, como os evangélicos e os conservadores. Quando apareceu o Bolsonaro, entraram nessa canoa com tudo".

A socióloga Esther Solano, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), tem feito pesquisas qualitativas com eleitores de Bolsonaro e observa uma “adesão emocional” que ajuda a entender essa fidelidade de um terço do eleitorado ao presidente.

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"O eleitorado mais fiel não tem só uma adesão política, mas também emocional ao Bolsonaro e à sua forma de entender o mundo. Há uma retórica de que o isolamento social seria algo “impossível”, um privilégio da classe média alta e da classe rica, e que a maior culpa é dos governadores e prefeitos. Isso até substituiu um pouco o antipetismo na mentalidade bolsonarista", disse Solano.

Oscilações

Os números do Datafolha apontam que o apoio mais forte ao presidente está entre os nascidos nas décadas de 70 e 80, moradores das regiões Sul, Centro-Oeste e Norte e trabalhadores informais, autônomos e profissionais liberais. Na classe C, há o maior equilíbrio entre avaliações positivas e negativas: 35% consideram o governo ótimo ou bom, enquanto 43% acham ruim ou péssimo.

Apesar de ter perdido dez pontos de aprovação entre os mais ricos desde dezembro, segundo o Datafolha, Bolsonaro mantém o apoio de um terço dos eleitores das classes A e B. Já a aprovação no eleitorado com renda de até cinco salários mínimos chegou a um pico de 39% em abril, na esteira da sanção do auxílio emergencial de R$ 600 pelo governo federal. Mesmo assim, de acordo com o levantamento de junho, 49% dos que receberam o auxílio consideram ruim ou péssimo o trabalho do presidente durante a pandemia.

Para a professora Cândida Brito, de 58 anos, funcionária da rede municipal de ensino de Porto Alegre (RS), o auxílio foi uma surpresa positiva. Ela não solicitou o benefício, mas disse que um irmão e sua cunhada “infelizmente precisaram”. A professora, que participou de uma manifestação pró-governo no último mês, na capital gaúcha, diz “trabalhar muito” com suas redes sociais para, em suas palavras, descobrir diariamente “onde estão inventando coisa e falando mal do Bolsonaro, para que a gente possa rebater”.

"Fiz um voto pró-conservadorismo. Não somos robôs . A gente fica com dor no dedo, na coluna, porque passa o dia inteiro fazendo escrutínio na internet. Agora todo dia eu escrevo para o (Sergio) Moro no Twitter, por exemplo", diz Cândida.

O administrador de imóveis Tony Teixeira, de 55 anos, morador de Copacabana, na Zona Sul do Rio, considera o governo Bolsonaro “inovador”, sobretudo através da agenda de reformas e desburocratização. Para o empresário, que diz ser um eleitor arrependido do ex-presidente Lula , o fato de Bolsonaro criar um ambiente “de muito embate” não chega a ser positivo, mas não é um problema.

"Para quebrar essa estagnação, você tem que ser um cara meio “maluco”. Eu tenho vergonha de ter acreditado numa esquerda que mudou quando chegou no poder. Hoje, me considero um cara de direita . Acho que não pode levar para o lado do personalismo. Mas quem representa melhor a direita, hoje, é o Bolsonaro", diz o empresário.

A cientista política Maria do Socorro Sousa Braga, professora da Ufscar, avalia que o temor de uma crise econômica pós-pandemia aparece especialmente entre os que cresceram nos anos 80 e 90. Para a especialista, a falta de um planejamento econômico consistente, ofuscada parcialmente pelo auxílio emergencial de R$ 600, pode corroer a base de apoio de Bolsonaro no médio prazo.

"É possível que uma hora ocorra um descolamento muito grande entre Guedes , que defende uma agenda neoliberal, e o Bolsonaro , que percebeu o ganho de popularidade com a expansão da assistência social. Isso pode acabar dividindo, em algum momento, esses diferentes grupos que citam as promessas econômicas como um motivo momentâneo para apoiar o governo", finaliza.

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