Em menos de duas semanas, dois moradores do Morro da Providência morreram em casa com sintomas de coronavírus. O chef de cozinha José do Nascimento Félix, de 48 anos, morreu em 12 de abril, um dia após a alta da Coordenação Regional de Emergência (CER) do Centro, ao lado do Hospital Souza Aguiar. O entregador de quentinhas Maurício Rodrigues de Oliveira, de 64, nem teve tempo de procurar uma unidade de saúde: foi encontrado por vizinhos, na última terça-feira, provavelmente dois dias após a morte. A Ozz Saúde, empresa que assumiu mês passado o Samu, fez a declaração dos óbitos. Mas não removeu os corpos, que permaneceram nas residências — Maurício já em estado de decomposição — por mais de 30 horas.

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Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo
Providência: em menos de duas semanas, favela teve dois mortos em casa por Covid-19

Os casos de José e Maurício, que viviam sozinhos, expõem uma situação grave. Líderes comunitários denunciam o jogo de empurra para conseguir a remoção daqueles que estão morrendo em casa durante a pandemia. O Samu não faz o serviço, e, segundo representantes de favelas, as delegacias só estão emitindo guias para mortes violentas, que permitem acionar o rabecão da Polícia Civil. Amigos e parentes de mortos por Covid-19 estão procurando o serviço social da prefeitura, a Defensoria Pública do estado ou batendo diretamente na porta dos cemitérios, para tentar a gratuidade, ou correndo atrás de ajuda para pagar as despesas.

"Antes, o rabecão levava o corpo e colocava numa geladeira, enquanto se resolvia o sepultamento. Agora, cheguei ao ponto de enrolar uma senhora morta num lençol e levar à UPA da Rocinha. Uma ambulância transferiu o corpo", desabafa Wallace Pereira, presidente da Associação Pró-Melhoramentos dos Moradores da Rocinha. "Não podemos esquecer que há outras doenças. Com a Covid-19, o número de mortes na Rocinha cresceu. A remoção de um corpo custa R$ 800. Cadê as autoridades públicas?".

Levantamento feito pelo pesquisador da Fiocruz Daniel Soranz, ex-secretário municipal de Saúde do Rio, no Sistema de Informação de Mortalidade do Ministério da Saúde , mostrou que, de 383 óbitos por Covid-19 no estado do Rio, 4,9% ocorreram em casa. No município, foram 2,8%. Mortes ocorridas em UPAs, CERs e emergências foram 24,4% do total no estado e 16,4% na capital. Nos hospitais, ocorreram 69,7% dos óbitos no estado e 80,8% no município.

"Com o aumento da pandemia não acompanhado pelo serviço público, a tendência é que mais gente morra em casa", lamenta Soranz.

Segundo a Secretaria estadual de Saúde, à qual o Samu passou a ser vinculado, entre 1º e 22 de abril, a Ozz atendeu 705 chamados de pacientes com suspeita de Covid-19. E189 pessoas foram encontradas mortas pelo Samu ao chegar após ser acionado, mas a empresa disse não saber quantas morreram em decorrrência do coronavírus .

Protocolo negociado

Subcoordenadora de Saúde da Defensoria Pública do estado, Alessandra Nascimento conta que a retirada de corpos de residências sempre foi algo complicado, mas se agravou com a Covid-19 . Ela está tentando costurar uma minuta de decreto com o estado a fim de criar um protocolo para as remoções válido para todos os municípios, que, legalmente, são responsáveis pelos sepultamentos:

"Estabelecer um fluxo é questão de saúde pública. Existem estudos que indicam que corpos têm possibilidade de contaminação. E pode haver mortes em massa. Defendo que equipes da saúde da família sejam acionadas para irem às casas para tratar da transferência de corpos para caminhões e contêineres frigoríficos em hospitais", declarou.

Líder comunitário da Providência, Cosme Felippsen, do Projeto Rolé dos Favelados, conta que o corpo de Maurício de Oliveira só foi enterrado na quinta-feira passada após muita dificuldade. Vizinhos contam que o entregador de quentinhas pediu remédio para a febre alta no domingo passado. Depois não foi mais visto.

"Vizinhos foram à clinica da família e à 4ª DP (Praça da República). Não conseguiram ajuda. Quando localizamos um filho do Maurício, ele foi ao Caju. Lá, obteve a gratuidade, mas não havia vaga na geladeira. Foi preciso esperar até o dia seguinte para tirar o corpo de casa. Estamos abandonados", disse.

A Providência contabiliza pelo menos cinco casos de mortes suspeitas por Covid-19 . Numa mesma vila, são três. Há ainda o óbito de uma mulher no Ronaldo Gazzola e de José Félix, em outros pontos do morro.Filho de José, Sávio Félix também precisou ser localizado por vizinhos para o corpo ter um destino.

Respostas oficiais são conflitantes

Na Rocinha, Wallace contabiliza sete mortes em casa só na semana passada, de causas diversas, em que a famílias não sabiam o que fazer com o corpo.

Sobre o tema, as respostas dos órgãos são conflitantes. A Polícia Civil diz que sua atribuição se restringe à remoção de corpos com morte suspeita. O Samu não retira corpos de residência. Já a Coordenadoria de Cemitérios da prefeitura informa que parentes, amigos ou vizinhos devem acionar “o Corpo de Bombeiros ou a Defesa Civil do estado para levar o corpo a um hospital para que seja emitido o atestado de óbito”. Ainda segundo o município, se for comprovada a carência da família, providências serão tomadas para que o corpo seja enterrado gratuitamente. Já os Bombeiros dizem que só são acionados para remoções pela Polícia Civil.

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