Opas
Pedro Rafael Vilela/ Agência Brasil
Testagem em massa deve estar entre as prioridades no Brasil, diz OMS

RIO — Diretores da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), braço da Organização Mundial da Saúde (OMS) para as Américas, manifestaram nesta terça-feira grande preocupação com o avanço da Covid-19 no Brasil em um momento no qual governos locais começam a relaxar medidas de isolamento social. As declarações foram feitas em uma coletiva de imprensa realizada por videoconferência. Autoridades da entidade, sediada em Washington, nos Estados Unidos, chamaram atenção para os baixos índices brasileiros de testagem.

Ontem, a OMS já havia alertado que a América do Sul não havia atingido o pico da doença — ou seja, o número máximo de casos registrados em um dia seguido de uma trajetória descendente consistente — e que não há previsão para que isso ocorra. Quando questionado sobre o estado da pandemia no Brasil, o diretor do Departamento de Doenças Transmissíveis da Opas, Marcos Espinal, classificou a situação do país como delicada.

— Estamos muito preocupados. Vimos um grande aumento de casos e da mortalidade na última semana. As medidas de mitigação precisam continuar a serem implementadas. Não podemos generalizá-las, pois o Brasil é um país vasto, os estados são diferentes entre si. No entanto, se olharmos bases de universidades prestigiadas como a Federal de Pelotas, (os dados) sugerem que estados como Santa Catarina e Amazonas têm alta prevalência, Amazonas, nós precisamos usar esses números e sugerir a continuidade de implementação de medidas — afirmou Espinal.

Ainda segundo o diretor da Opas, os índices de testagem do Brasil são baixos em comparação com outros países da região e disse que é difícil prever quando a curva epidemiológica brasileira se achatará:

— O Brasil não está fazendo um número suficiente de testes. É imperativo que a testagem aumente. Além disso, estamos vendo a ocupação de leitos de UTI em níveis muito preocupantes em alguns estados. Ceará, Amapá, Maranhão estão acima dos 80%. É preciso que Brasil aja e que esses estados habilitem mais leitos. Não é suficiente dizer o país fazendo alguma coisa, mas sim (questionar) ‘como posso fazer melhor?’ A Opas continuará trabalhando com o Brasil, com os estados, para garantir a tentativa de desacelerar a epidemia e minimizar o número de mortes e proteger o máximo possível a população brasileira.

'Cautela'

A diretora-geral da Opas, Carissa Etienne, abriu a coletiva de imprensa chamando atenção para a importância de conduzir processos de reabertura de forma cautelosa. Na semana passada, ela já havia chamado atenção para a situação do Brasil.

— Pensem duas vezes antes de flexibilizar o distanciamento social, que continua sendo a melhor forma de conter o coronavírus. Precisamos ser cuidadosos. Meu conselho é não reabrir as atividades tão rapidamente, sob o risco de perder a vantagem sobre a epidemia conqusitada nos últimos meses — afirmou Carissa Etienne. — Além disso, nossa recomendação sempre foi testar, tratar, rastrear contatos e isolamento social. O distanciamento diminui a transmissão do vírus.

Brasileiro, o diretor-assistente da Opas, Jarbas Barbosa, reforça a importância de planejar meticulosamente a retomada de atividades. Sem mencionar o Brasil diretamente, lembrou que a velocidade de contágio não pode superar a oferta de leitos de UTI em hospitais nos casos graves.

— É preciso monitorar processos cuidadosos de reabertura. Nos casos em que for identificado um aumento no número de casos em determinada localidade após a flexibilização, é o caso de voltar um pouco atrás para evitar que a transmissão se dê em uma velocidade em que os casos graves superem a capacidade hospitalar. Isso sobrecarregará qualquer sistema de saúde, mesmo nos países mais ricos, como já foi visto. Isso levaria à perda de vidas — afirma Barbosa.

Carissa Etienne ponderou que o isolamento social é um grande desafio para o continente americano, que guarda grande desigualdades socioeconômicas e espaciais, mas fez um apelo.

— A pandemia nos forçou a implementar essas medidas. Sabemos que estender o isolamento social torna a situação ainda mais desafiadora para famílias e comunidades (em situação de vulnerabilidade). É um equilíbrio difícil de ser feito, mas quero acreditar que não é impossível. Precisamos de uma abordagem conjunta entre desafios econômicos, sociais e de saúde. Países precisarão construir um período de transição cauteloso — afirmou a diretora-geral. — Os países não devem deixar ninguém para trás Juntos seremos vitoriosos, do contrário, falharemos. E não podemos falhar.

Os diretores também foram questionados sobre os riscos de aglomerações de pessoas. Na última semana, grandes protestos tomaram cidades dos Estados Unidos por conta da morte de George Floyd, um homem negro de 46 anos que não apresentou resistência a uma abordagem policial . No Brasil, também houve protestos pela democracia em contraponto a manifestações antidemocráticas em diferentes cidades do país.

— A Opas recomenda a todos os países que evitem reuniões de massas ou aglomerações porque está demonstrado que elas vão contribuir para a disseminação do vírus. Em países como o Brasil, continuamos observando um aumento inusitado de casos. Na última semana houve um aumento de 44% no número de casos e a mortalidade aumentou, bem como o número de municípios que estão relatando casos — afirma Espinal. — Se formos a uma manifestação de massa, sem usar máscaras e desrespeitar o isolamento, vamos continuar disseminando a doença.

Povos indígenas

Indagados por diferentes jornalistas latino-americanos, as autoridades da Opas também manifestaram preocupação quanto à saúde de indígenas na medida em que o coronavírus avança pelo interior dos países do continente. Para Sylvain Aldighieri, diretor de Emergências da Opas, a saída está na integração entre os governos regionais. Ele lembrou que há exemplos de colaborações anteriores contra doenças como sarampo e difteria, mas reconhece que há desafios.

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— O controle preventivo entre indígenas é uma das principais agendas da Opas. Estamos muito preocupados com as tendências idrntificadas na Bacia Amazônica, mas não apenas lá. Destaco a importância do trabalho colaborativo entre os países, como Venezuela, Guiana, Suriname, Guiana Francesa (departamento ultramarino da França) e Brasil —afirma Aldighieri. — Também há uma interação complexa entre grupos de indígenas e mineradores, legais ou ilegais, entre as fronteiras. É o motivo pelo qual é importante de fortalecer a vigilância para engatilhar investigações bem rápidas.

O diretor de Emergências afrmou que a entidade trabalha ativamente com associações indígenas como a Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (Coica), e defendeu a parceria com ONGs regionais para complementar as atividades coordenadas pelos governos dos países que compõem a Bacia Amazônica:

— A principal recomendação é garantir uma colaboração bem próxima entre associações indígenas e conectá-las no processo de tomada de decisões, para que sejam ultrapassadas as barreiras culturais e idiomáticas.

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