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Jovem de 17 anos foi chicoteado após ter furtado um chocolate; seguranças foram indiciados pelo crime de tortura, cuja pena vai de 2 a 8 anos de prisão

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Reprodução
Adolescente foi chicoteado em supermercado; em nota, empresa diz que repudia prática

A juíza Tatiana Saes Valverde Ormeleze, do Departamento de Inquéritos Policiais do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), atendeu a pedido da Polícia Civil, determinou a prisão temporária, por 30 dias, dos dois  seguranças que foram filmados torturando um adolescente de 17 anos acusado de furtar um chocolate em unidade do supermercado Ricoy, na Vila Joaniza, zona sul da capital paulista.  

Valdir Bispo dos Santos e Davi de Oliveira Fernandes são funcionários de uma empresa privada de segurança que prestava serviços para o estabelecimento, e foram identificados como agressores do jovem. Eles atacaram o garoto com um chicote , nas dependências do supermercado. 

Ao solicitar a prisão dos envolvidos, nesta quarta-feira (4), o delegado Pedro Luis de Souza, titular do 80º Distrito Policial de São Paulo, registrou a necessidade de fazer o reconhecimento dos agressores pela vítima, além de obter informações sobre onde está o chicote usado no crime e como foi feita a divulgação das imagens da agressão .

O delegado também solicitou que seja realizada busca e apreensão no supermercado , para buscar acesso a imagens de câmeras do sistema de segurança do estabelecimento.

Waldir e Davi foram indiciados pelo crime de tortura , cuja pena pode variar de 2 a 8 anos de prisão.

"Os seguranças usaram violência desmedida contra o garoto. Este evento me remeteu à época da escravatura, quando negros eram açoitados em praça pública", disse o delegado responsável pela investigação do caso, que também é negro.

Durante a manhã, funcionários do supermercado prestaram depoimentos à Polícia Civil, mas, segundo policiais que assistiram aos relatos, não apresentaram informações úteis à investigação.

O delegado confirmou que o alimento não foi o primeiro do mesmo tipo que o adolescente tentou roubar, mas ressaltou que isso não é motivo para que ele fosse punido pelos seguranças .

"É um garoto que vive na comunidade, no entorno do mercado, e costuma praticar pequenos furtos. Cometeu um ato infracional que poderia ser passível de reprimenda, se um juiz de Infância e Juventude assim entendesse. Mas nunca seria uma punição como a que ocorreu."

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Cor da pele

Representantes do movimento negro convocaram para este sábado manifestações em frente ao supermercado onde o jovem foi agredido. Nas redes sociais, a repercussão do crime inclui críticas sobre a ligação entre a tortura e o racismo estrutural no País.

Segundo o delegado, porém, ainda não há indícios que comprovem a ligação do crime de tortura com o de racismo . No entanto, ele não descarta que a cor da pele do jovem possa ter influenciado na gravidade do ato. Ainda sobre essa questão, ele revelou que um dos agressores também é negro.

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"Não tenho nenhum elemento que comprove motivação relacionada à cor da pele do jovem. Um dos agressos, incluslive, é negro. Mas toda a conotação do crime pode nos levar a inferir que possivelmente, se fosse um indíviduo de outra condição social, com pele de outra tonalidade, não seria tratado dessa maneira", justificou Sousa.