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Playboy é um dos procurados pela Polícia Civil em operação na manhã desta quinta-feira; ao todo, são 74 mandados de prisão e 93 de busca

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Tânia Rêgo/Agência Brasil
Ministério Público e a Polícia Civil cumprem mandados de prisão preventiva e de busca e apreensão nesta quinta-feira

A Polícia Civil faz, nesta quinta (4),  uma megaoperação em vários pontos do Rio de Janeiro para cumprir 74 mandados de prisão contra um grupo paramilitar ligado ao ex-PM e miliciano Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando Curicica — preso desde outubro de 2017. Dentre os alvos estão nove policiais militares (cinco com mandados de prisão e quatro alvos de busca e apreensão). Até o momento, 40 mandados de prisão foram cumpridos (25 contra pessoas que já estavam presas).

Um dos procurados é o ex-PM Celso Pinheiro Pimenta, conhecido como Playboy. Ele conseguiu fugir quando os policiais chegaram à casa dele, em Niterói. Ele, que também é uma das lideranças da milícia , pulou do seu apartamento no quarto andar e escapou. Uma mulher apontada como companheira dele foi detida no local.

Na Operação Salvator , como foi batizada, os agentes também cumprem 93 mandados de busca e apreensão. O bando é acusado de aterrorizar moradores e comerciantes em Itaboraí há cerca de um ano e meio, garantindo lucro mensal de R$ 500 mil.

Dentre os presos está o principal alvo da ação, o PM Fábio Nascimento de Souza, conhecido como China. Lotado na UPP Borel, o agente foi encontrado em casa, em Rio Bonito, e uma pistola calibre 380 que estava com ele foi apreendida.

Ao DIA , o delegado Antônio Ricardo Nunes, chefe do Departamento Geral de Homicídio e Proteção à Pessoa (DGHPP), disse que "combater essas organizações criminosas resulta em melhorias significativas na redução da criminalidade, especialmente o número de homicídios no município". Nunes afirmou também que "o DGHPP será implacável com esses criminosos".

Dentre os procurados nesta quinta estão ainda os autores da chacina que deixou 10 mortos no dia 20 de janeiro em Itaboraí e São Gonçalo.

Racha

De acordo com investigações da Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSGI), a milícia chegou a Itaboraí há pelo menos um ano e meio. Sob o comando de Orlando Curicica, China e Renato Nascimentos dos Santos, o Natan ou Renatinho Problema, praticavam homicídios, torturas, extorsões, desaparecimento de pessoas e tinham um cemitérios clandestinos. Curicica oferecia armamento e "soldados" para eles e, em troca, recebia um percentual dos valores arrecadados no município.

Ao chegarem na região, o grupo passou a matar usuários de drogas, pessoas que praticavam pequenos roubos e até mesmo prender traficantes de outras comunidades. O objetivo era expandir o domínio.

No entanto, no ano passado, houve um racha entre China e Renatinho Problema, quando China deixou o grupo e delatou Renatinho Problema para a 82ª DP (Maricá). Problema foi preso, em dezembro passado, em Guapimirim, durante as investigações do caso Marielle Franco.

Durante as investigações, que duraram um ano, a DHNSGI descobriu que Curicica colocou Renatinho Problema para expandir os negócios da quadrilha no município.

Comperj

Em Itaboraí, o grupo passou a atuar de diversas formas. Além de ameaçarem e extorquirem moradores e comerciantes — em serviços como exploração de gás, TV a cabo e mototáxi — o bando começou a exigir taxas para empresas que prestavam serviços para o Complexo Petroquímico do Rio (Comperj). A polícia identificou que o grupo cobrava o transporte das empresas que levavam funcionários ao Comperj. Eles ainda atuavam na compra e venda de imóveis da região.

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Os milicianos estariam por trás de diversas mortes e desaparecimentos em Itaboraí. Em um primeiro momento, os desafetos do grupo eram mortos e seus corpos deixados à mostra. Por conta das diversas investigações da DHNSGI, o bando passou a matar e desaparecer com os corpos. Alguns milicianos se passavam por policiais civis para praticar os crimes.

"Uma das vítimas foi mutilada, tiraram o coração dela, chegaram a tirar a cabeça e isso demonstra que eles tinham um requinte de crueldade", o delegado Gabriel Poiava Martins conta, sobre uma morte que aconteceu há cerca de três meses. "Alguns deles (dos milicianos) foram indiciados e presos também por crime de tortura".

Expulsão de traficantes

De acordo com o Ministério Público estadual (MPRJ), a organização criminosa tinha funções bem definidas, como donos, lideranças, gerência, matadores, recolhedores, soldados e olheiros. O grupo começou a se instalar em Itaboraí no final de 2017 e início de 2018, quando aconteceram os primeiros crimes praticados pelo eles, tais como a cobrança das "taxas de segurança" e "gatonet", especialmente nas áreas de Visconde de Itaboraí, Areal e Porto das Caixas.

Até então, as comunidades eram dominadas pelo tráfico de drogas, com criminosos ligados à facção Comando Vermelho.

"Existia uma hierarquia bem definida, até uma responsável pela parte financeira da organização", Poiava reforça. "As mulheres, alguma delas, tinham a função de controlar as finanças da organização criminosa e outras teriam a função de recolher as taxas de segurança, que na verdade seriam as extorsões cobradas dos moradores".

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A operação desta quinta conta com pelo menos 300 policiais. Os agentes deixaram a sede da DHNSGI, em Niterói , no fim da madrugada, por volta das 5h. A Corregedoria da Polícia Militar, a Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) e o Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado do Ministério Público (Gaeco/MPRJ) acompanham e dão apoio à ação.