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Pesquisa entrevistou cerca de 200 pessoas e aponta que mais da metade respondeu já ter sentido que deixou de ser contratado apenas por ser negro

Mesmo que muitas pessoas neguem, o racismo ainda está muito presente em comportamentos e falas cotidianas da sociedade brasileira. Como prova disso, uma pesquisa divulgada em um festival de inovação, em São Paulo, revelou que mais da metade das pessoas entrevistadas já foram vítimas de racismo no ambiente de trabalho.

Entre os atos de racismo, entrevistados contam que já tiveram que alisar ou cortar o cabelo para serem aceitos no trabalho
shutterstock/Reprodução
Entre os atos de racismo, entrevistados contam que já tiveram que alisar ou cortar o cabelo para serem aceitos no trabalho

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Para o estudo, foram ouvidas cerca de 200 pessoas, entre 18 e 50 anos, de diferentes classes sociais. Desses, 67% acreditam que deixaram de ser contratados para uma vaga de emprego apenas por serem negros. Além disso, seis em cada dez entrevistados foram vítimas de racismo no ambiente de trabalho.

Os dados foram informados pela Consultoria Etnus, que organizou a pesquisa com a intenção de debater sobre transformação social dentro da programação do festival de inovação WHOW!, que acontece em São Paulo até esta quinta-feira (27).

Imposição de padrões

Questionados sobre as maiores dificuldades para conseguir ser aceito pelo mercado de trabalho, 43% ressaltaram a falta de qualificação em primeiro lugar, seguida pela discriminação racial, com 34% dos apontamentos, e 31% acreditaram ser por não ter o domínio da língua inglesa.

“As consequências do racismo interferem diretamente na qualidade de vida e produtividade dos trabalhadores ao psicossomatizar em seus corpos, contribuindo para o adoecimento de talentos, e, ainda, fazendo com que o rendimento não seja desenvolvido tanto quanto poderia. Sob a perspectiva empresarial, um ambiente que propaga o racismo contribui significativamente para a baixa produtividade do colaborador, para o desenvolvimento de doenças físicas e psíquicas”, declarou Fernando Montenegro, idealizador da pesquisa.

Os entrevistados contaram que, para serem aceitos no ambiente de trabalho, tiveram que alisar ou raspar o cabelo, pratica muitas vezes vista pela sociedade branca como “normal”. “O gerente disse que eu deveria tirar as tranças e alisar o cabelo para ficar mais bonita”, contou uma das entrevistadas na pesquisa, que não teve seu nome revelado.

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Outro dado apontado pela pesquisa trata da carreira e recolocação no mercado. Entre os participantes da análise, 36% afirmaram que não largariam o emprego para buscar a realização de um sonho porque o fato de ser negro acarretaria em mais tempo para se recolocar no mercado de trabalho. Segundo o estudo, a ideia de pedir demissão para encontrar o sucesso ou refletir sobre a carreira é mais difícil para essa população.

Para Montenegro, a conclusão reforça pesquisas anteriores que demonstraram que os negros demoram mais para conseguir um emprego caso sejam demitidos ou peçam demissão.

“Se eu pedir demissão para seguir meus sonhos ou refletir sobre minha carreira, sei que demorarei muito mais para me recolocar. Além disso, não saberia como justificar isso em uma próxima entrevista de forma que não parecesse uma atitude irresponsável de minha parte. Fora que isso suja carteira [de trabalho] e tenho contas para pagar”, contou uma das entrevistadas pelo estudo, de nome não divulgado.

*Com informações da Agência Brasil

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