
O último zoológico humano da história foi sediado em Bruxelas, capital da Bélgica, em 1958. Aproveitando o domínio colonial sobre o Congo, os organizadores da Exposição Mundial capturaram e exibiram crianças e adultos congoleses atrás de cercas de bambu. Submetidas à chacota dos visitantes, essas pessoas eram humilhadas publicamente e alimentadas com bananas e moedas atiradas pelo público.
Neste evento específico, os congoleses não aceitaram passivamente as condições degradantes em que eram mantidos e resistiram aos abusos dos europeus. Além disso, outros fatores históricos contribuíram para que este fosse o último zoológico humano, como a expansão do cinema, da televisão e do turismo em massa, que alteraram os hábitos de entretenimento do público e tornaram essas exibições ultrapassadas.
Na E uropa, esses zoológicos funcionavam como uma espécie de “show de aberrações"(conhecido internacionalmente como "freak show"), em que pessoas de etnias não europeias eram expostas dentro de jaulas em situações primitivas para o entretenimento do público. Entre as atrações, havia povos africanos, indígenas que deixaram a América, povos asiáticos e pessoas com algum tipo de deficiência física.
Esses eventos aconteciam, em sua maioria, nas capitais da Europa, como Paris, Bruxelas, Hamburgo, Berlim e Londres, e também nos Estados Unidos, em Nova York. Já os frequentadores desses eventos eram, no geral, europeus, políticos e a elite da época.
Como surgiram os “zoológicos humanos”?
Os zoológicos humanos se consolidaram como entretenimento comercial de massa no século XIX, impulsionados pelo colonialismo e pelo racismo científico. A partir das navegações coloniais, pessoas eram frequentemente sequestradas ou trazidas das áreas colonizadas para serem apresentadas às cortes e monarcas europeus como "suvenires" ou "curiosidades"
Em 1874, o empresário alemão Carl Hagenbeck começou a organizar exposições de povos de diferentes regiões, acompanhados de animais e cenários que simulavam seus ambientes de origem. O sucesso comercial estimulou a expansão desse modelo pela Europa.
As exibições ganharam popularidade a partir da exploração comercial da curiosidade pelo considerado exótico, teorias pseudocientíficas que tentavam estabelecer hierarquias raciais e a propaganda colonial. Ao representar povos colonizados como primitivos, os espetáculos também ajudavam a justificar a dominação europeia sobre outros territórios.
Como os países europeus lidam com esse passado?
O reconhecimento dos zoológicos humanos como parte da história colonial avançou, mas ainda há controvérsias sobre a preservação da memória, a responsabilidade das instituições e o reconhecimento das violências cometidas. A Bélgica, por exemplo, nunca pediu desculpas por seu passado colonial.
Em 2022, o rei Philippe expressou pesar pelos abusos cometidos durante a colonização, mas não apresentou um pedido formal de desculpas por todo o passado colonial belga.
Na Alemanha, Hamburgo foi um dos centros das exposições organizadas por Carl Hagenbeck. O legado desses espetáculos alimenta debates sobre a responsabilidade de instituições que continuam atuando no setor de zoológicos e entretenimento e sobre a necessidade de reconhecer publicamente esse passado.
O Brasil já teve zoológico humano?
Um dos episódios mais conhecidos no Brasil ocorreu em 1882, durante a Exposição Antropológica Brasileira, organizada pelo Museu Nacional, no Rio de Janeiro. O evento apresentou objetos e representações de diferentes povos indígenas, além de exibir sete indígenas conhecidos nos registros históricos como Botocudos.
A exposição foi divulgada como uma celebração da ciência, mas também funcionou como entretenimento público. Os indígenas foram observados por pesquisadores que realizavam estudos físicos influenciados pelas teorias raciais do século XIX.
O termo “Botocudo”, empregado pelos colonizadores para designar diferentes grupos indígenas, é uma denominação histórica generalizante e preconceituosa. Os indígenas apresentados pertenciam ao grupo identificado nos registros como Nak-Nanuk, associado ao povo Krenak.
Após a exposição no Rio de Janeiro, integrantes do grupo teriam sido levados à Europa para apresentações comerciais em 1883. O episódio provocou controvérsia na imprensa brasileira da época, que questionou a representação dos indígenas no exterior.