
Um relatório encabeçado pela Universidade de Chicago aponta o Brasil como um dos países que mais será afetado pelo Super El Niño . Dentre as projeções, está a estimativa de que podem ocorrer até 13,3 mil óbitos adicionais e de que o planeta pode ter até 44% mais dias de calor extremo do que o esperado em um ano normal.
El Niño é o nome de um fenômeno natural causado por um aquecimento atípico das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. A meteorologista do Climatempo, Aline Araújo, explica que o evento deste ano é chamado de “super” ou, conforme definição técnica da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), de “ muito forte”, por conta da intensificação dos efeitos dele em decorrência das mudanças climáticas.
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Conforme a especialista, as projeções do começo do ano eram incertas sobre a possibilidade do El Niño acontecer nessas proporções. “A principal mudança que a gente teve do começo do ano para agora foi a certeza de acontecimento do evento. E aí, a partir de agora, a gente entrou numa característica de evento ganhando cada vez mais intensidade com uma probabilidade maior de ser muito forte e até uma chance também de ser um evento histórico”.
A ANA projeta um aquecimento de até 2,0 °C nas águas do Oceano Pacífico Equatorial e, de acordo com o último boletim mensal divulgado na quarta-feira (30) referente ao mês de setembro, a probabilidade de permanência dos efeitos do El Niño até o começo de 2027, entre a primavera e o verão, é de 95% .
Entre os impactos destacados pela meteorologista, estão a seca, o aumento de temperatura e o risco de queimadas nas regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e parte do Sudeste . De acordo com o Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), o número de municípios em seca extrema aumentou de 4 para 24, e os em seca severa passaram de 153 para 197.
A maior parte dessas cidades está localizada no Amazonas, Bahia, Amapá, Alagoas e Sergipe . Além disso, 16% da região Nordeste está em estado de seca grave e municípios do Norte já apontam dificuldades para captação de água.
Já na região Sul, as previsões indicam chuvas mais intensas e riscos de enchentes e alagamentos . “O Sul vai ser uma das regiões mais afetadas aqui do país, principalmente o Rio Grande do Sul. Pode esperar dias chuvosos, enxurradas, alagamentos e bastante granizo”, informa Aline. Somente em 2026, foram emitidos mais de 190 boletins de alerta hidrológico para a região pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB).
Segundo ela, eventos extremos já acontecem com maior frequência e em maior escalada em função das mudanças climáticas, mas o El Niño é um agravante.
Fenômeno desigual
Os efeitos das mudanças climátics não ocorrem de forma heterogênea somente conforme as características geográficas de cada região no país. Seus impactos são sentidos principalmente por populações em maior vulnerabilidade social .
No final de fevereiro de 2026, a região de Juiz de Fora acumulou 752,4 mm de chuva , número quatro vezes maior que a média de 170 mm do mês, segundo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) . O volume provocou estragos e deixou quase 9 mil pessoas desabrigadas, de acordo com números divulgados pela Defesa Civil.
Juiz de Fora é a 9° cidade com maior número de pessoas vivendo em encostas do Brasil, a média é de um a cada quatro habitantes. A cidade está localizada do fundo do vale do Rio Paraibuna e grande parte das moradias estão nas encostas dos morros, regiões mais vulneráveis a chuvas e deslizamentos.
Morador do bairro Industrial há 7 anos, Kellerman Jesus Sodré, de 50 anos, é uma dessas pessoas. Ele trabalha como autônomo e vende brinquedos usados na Feira da Avenida Brasil. Há cerca de 15 anos, segundo ele, percorre brechós e bazares em busca de peças que possam ser revendidas
Em entrevista ao iG, Kellerman conta que, mesmo meses depois da chuva, ainda encontra objetos encharcados dentro de casa. Em uma das últimas vezes em que revirou um dos cômodos, encontrou uma maleta de brinquedo que permanecia cheia de água desde fevereiro. Em outro momento, encontrou sacolas com brinquedos que havia comprado para revender ainda molhadas.

As perdas materiais, no entanto, não foram o único impacto . O desastre também levou três pessoas próximas a ele; um casal de amigos que trabalhava como feirante na Avenida Brasil, e uma terceira amiga, que morava em outro bairro. “Eu não tenho como mensurar o que eu perdi”, conta.
O bairro Industrial não foi o único afetado. Benfica, Monte Castelo, Três Moinhos e Parque Burnier também registraram impactos. Em comum, os bairros estão localizados em regiões periféricas da cidade.
Para a jornalista e pesquisadora Mariana Belmont, que pesquisa racismo ambiental e justiça climática, a desigualdade territorial ajuda a explicar por que determinados grupos estão mais expostos às consequências de eventos extremos.
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Os impactos de um evento climático não são determinados apenas pela intensidade do fenômeno. Eles também dependem das condições em que as pessoas vivem antes, durante e depois do desastre. “Um evento climático extremo encontra uma sociedade que já é marcada por profundas desigualdades sociais, raciais e territoriais.”
Segundo Mariana, uma chuva intensa pode produzir consequências diferentes dependendo da qualidade da moradia, da existência de drenagem e saneamento, do acesso ao transporte, à informação e aos serviços públicos e da possibilidade de deixar uma área de risco durante uma emergência.
Sem cozinha durante o período de reorganização da casa, Kellerman também precisa recorrer a restaurantes e outros lugares para se alimentar, o que pesa no orçamento. O auxílio recebido do governo foi, segundo ele, a única ajuda financeira que teve para reconstruir a vida.“Eu estou lutando, graças a Deus, estou tentando me reerguer diante disso tudo. Não está sendo fácil”, afirma.
A rotina que antes era dedicada a percorrer brechós e bazares em busca de brinquedos para vender agora também inclui limpar, secar e recuperar o que restou. Enquanto tenta reorganizar a casa e retomar o trabalho, ele calcula que ainda pode levar alguns meses para colocar a vida em ordem.
Para a pesquisadora, fenômenos como o El Niño podem aprofundar as desigualdades que já existem nos territórios vulnerabilizados . Uma seca, por exemplo, não afeta da mesma maneira uma família que possui acesso regular à água, infraestrutura e recursos para comprar água ou buscar alternativas e uma família que já vive em situação de insegurança hídrica.
Da mesma forma, o calor extremo não é experimentado da mesma maneira por quem vive em uma área arborizada, com boa ventilação e infraestrutura urbana, e por quem vive em uma região densamente construída, com pouca cobertura vegetal, muito asfalto, moradia precária e dificuldade de acesso a serviços de saúde.
As projeções para os próximos meses indicam que os impactos também podem chegar ao bolso, afetando ainda mais pessoas em vulnerabilidade social. Segundo a meteorologista Aline, o excesso de chuvas no Sul já tem provocado perdas em lavouras e atrasos no plantio, enquanto a estiagem em outras regiões pode prejudicar o desenvolvimento das culturas. Como consequência, produtos como soja e trigo podem sofrer aumento de preços nos próximos meses.
Diante desse cenário, Aline afirma que o monitoramento antecipado pode ajudar a reduzir os prejuízos. Prefeituras de cidades com histórico de alagamentos e áreas próximas a rios, por exemplo, podem adotar medidas de proteção antes da ocorrência dos eventos mais intensos.
Já a pesquisadora Mariana Belmont, afirma que o caminho para reduzir os impactos no longo prazo passa por ampliar a capacidade de adaptação das cidades e fortalecer políticas públicas voltadas à prevenção e à redução das vulnerabilidades.
"A exposição climática não será reduzida apenas com uma política ambiental ou uma obra específica. É necessário investir em habitação digna, saneamento, drenagem urbana, segurança hídrica, mobilidade, arborização, infraestrutura verde, saúde pública, sistemas de alerta e proteção social, mas também garantir planejamento territorial que considere raça, gênero, renda e outras dimensões de desigualdade", afirma.