
De acordo com dados publicados nesta segunda-feira (28) pela Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA), o El Niño
se torna mais intenso da história moderna com força jamais vista nos últimos 150 anos e anomalias de temperatura da superfície do mar sem precedentes desde o começo dos registros regulares.
A confirmação de um El Niño de proporções planetárias passa pela análise do setor Niño 3.4, no centro do Pacífico Equatorial. Ali, o parâmetro oficial ONI apontou um desvio de +3,1 ºC em relação ao normal. Superando a marca histórica de +3,0 ºC do Super El Niño de 2015-2016, a nova medição concretiza os avisos meteorológicos de que este evento se desenhava como um dos mais intensos já registrados.
O avanço precoce do fenômeno chama a atenção, a marca histórica foi estabelecida dois meses antes do ápice de novembro de 2015, deixando para trás no indicador ONI os picos de 1982-1983, 1997-1998 e a fatídica crise global de 1877.
Dados da NOAA tabulados pela MetSul mostram que, antes do atual ciclo, a maior anomalia térmica semanal no Pacífico Equatorial Central havia sido de 3,0 ºC, em meados de novembro de 2015, seguida por 2,6 ºC, no final de dezembro de 1982.
A quebra desse recorde já era prevista diante do ritmo sem precedentes com que o Pacífico se aqueceu. Segundo os dados do ONI, o oceano nunca havia alcançado a categoria de Super El Niño tão cedo na história moderna: a marca de +2,0 ºC de anomalia foi registrada logo na semana de 8 de julho .
Em comparação, nos grandes eventos do passado, esse patamar de intensidade muito forte só foi atingido em 3 de setembro (1997), 16 de setembro (2015) e, de forma ainda mais tardia, em 24 de novembro (1982).
Dinâmica oceânica, ventos e projeções extremas
O Super El Niño de 2026 ganha força rapidamente no Pacífico Equatorial, impulsionado pelo enfraquecimento dos ventos alísios, pulsos de vento de Oeste e pelo acúmulo de calor oceânico, com pico previsto entre novembro e dezembro. Acelera essa evolução uma poderosa onda de Kelvin subsuperficial, cujas anomalias térmicas ultrapassam os 10 °C nos primeiros 200 metros de profundidade. Essa imensa reserva de água quente desloca-se para Leste e emerge, alimentando continuamente a elevação da temperatura na superfície.
A rápida escalada do fenômeno decorre de uma forte acoplagem entre a atmosfera e o oceano, impulsionada por pulsos de vento de Oeste (westerly wind bursts) e pelo colapso dos ventos alísios. Esse padrão atmosférico empurra as águas aquecidas do Oeste para o Leste do Pacífico, enquanto a onda de Kelvin fornece energia térmica constante para a superfície.
A permanência dos ventos de Oeste nas semanas seguintes deve manter e reforçar a intensidade do evento. Diante desse cenário, simulações do modelo climático europeu (ECMWF) indicam que o El Niño de 2026-2027 pode registrar um pico sem precedentes no final do ano, com a anomalia no índice ONI alcançando marcas próximas a +4 ºC.
Intensidade do oceano e impactos regionais
A força histórica deste El Niño não se traduz automaticamente em tragédias climáticas recordes pelo país. Como a resposta do clima à temperatura do oceano não é proporcional, o topo de intensidade do fenômeno não significa necessariamente enchentes históricas no Sul ou secas sem precedentes no Norte e Nordeste. O comportamento do tempo nas diferentes regiões brasileiras dependerá da combinação do El Niño com outros sistemas atmosféricos locais.