
A diretoria da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) aprovou a inclusão de 24 novos blocos terrestres na Bacia Potiguar e, entre eles, está o POT-T-551, que abrange o sítio Santo Estevão, em Tabuleiro do Norte, no Ceará . Essa decisão colocou oficialmente a propriedade do agricultor Sidrônio Moreira dentro de uma área destinada à exploração de petróleo.
A reunião em que a decisão foi tomada foi transmitida ao vivo e vista por Sidrônio, seu filho Sidnei no campus de Tabuleiro do Norte do IFCE (Instituto Federal do Ceará) ; o engenheiro químico Adriano Lima, que têm acompanhado o caso desde o início, em 2024, também estava presente. Para o agricultor, a aprovação representa um avanço importante: “Eu fiquei muito animado, porque é mais um passo. Vai andar para frente. Resolver isso o quanto antes é bom para nós”, declarou ao IFCE.
Como foi a descoberta
A história que levou a esse desdobramento começou em novembro de 2024, quando Sidrônio buscava água para enfrentar a escassez hídrica da região e decidiu abrir um poço artesiano em sua propriedade rural; para isso, ele investiu R$ 15 mil de parte de sua aposentadoria.
A primeira tentativa, que ultrapassou 40 metros de profundidade, revelou um líquido escuro e viscoso. Ele decidiu tentar novamente em outro ponto, cerca de 50 metros distante do primeiro e a segunda perfuração trouxe o mesmo material, desta vez a apenas 23 metros de profundidade. As perfurações foram interrompidas e os locais isolados para análise.
O agricultor então procurou o IFCE em dezembro do mesmo ano, na tentativa de obter ajuda após descobrir a substância. Após os primeiros testes realizados por pesquisadores do instituto e da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufesa), o agricultor contactou oficialmente a ANP.
A visita técnica só ocorreu em 12 de março de 2026, sete meses após o comunicado, quando o caso ganhou repercussão nacional. Em maio do mesmo ano, os testes laboratoriais realizados pela ANP, após novas visitas técnicas e coletas, o laboratório da ANP confirmou oficialmente que o material encontrado era petróleo cru pesado .
Com a confirmação, a agência instaurou um processo administrativo para avaliar a área, estudar sua formação geológica e verificar o potencial das reservas. No Brasil, regiões com possibilidade de conter jazidas são divididas em “blocos exploratórios”, que posteriormente podem ser leiloados para empresas interessadas em realizar a exploração.
A propriedade de Sidrônio está situada próxima à Bacia Potiguar, que se estende entre o Ceará e o Rio Grande do Norte. Essa bacia possui tanto áreas terrestres, quanto marítimas, e já concentra diversos pontos de extração de petróleo. Após a delimitação das jazidas, a ANP organiza os blocos e os disponibiliza em leilões, mas o processo completo costuma levar anos, envolvendo estudos, licenciamento ambiental e instalação de infraestrutura.
Próximos passos
A inclusão no bloco exploratório não significa que a extração começará imediatamente. O processo ainda depende de uma série de etapas burocráticas e técnicas, como avaliações ambientais detalhadas, novos estudos geológicos e autorizações de diferentes órgãos e ministérios. Somente depois dessas fases será possível publicar um edital e selecionar uma empresa para realizar a exploração.
A legislação brasileira estabelece que os recursos minerais pertencem à União, e não ao proprietário da terra. Isso significa que Sidrônio não pode explorar ou vender o petróleo encontrado por conta própria. Caso a produção seja considerada comercialmente viável e uma empresa autorizada inicie a extração, o agricultor terá direito a uma participação entre 0,5% e 1% do valor da produção, além de indenizações pelas instalações necessárias.
A propriedade, que possui 49 hectares, já recebeu propostas informais de compra, mas Saullo Santiago, outro filho de Sidrônio, afirmou ao IFCE que “Não temos interesse em vender.”