
Um servidor do Banco Central que havia encaminhado ao Ministério Público Federal (MPF) um documento com suspeitas de irregularidades envolvendo o Banco Master foi citado, uma semana depois, em mensagens que, segundo a Polícia Federal (PF), indicariam uma suposta cobrança de propina ao banqueiro Daniel Vorcaro. As informações são do UOL.
O servidor citado na investigação é Belline Santana, que ocupava o cargo de chefe do Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central. Em 15 de julho de 2025, ele enviou ao MPF um documento no qual relatava suspeitas relacionadas a operações envolvendo carteiras de crédito do Banco Master vendidas ao Banco de Brasília (BRB) por R$ 12 bilhões.
Documento apontou suspeitas contra o Banco Master
O material encaminhado à Procuradoria da República no Distrito Federal foi classificado como um "relato sucinto de ocorrência". No documento, o Banco Central descreveu possíveis irregularidades relacionadas à aquisição e à cessão de créditos do Master, além de problemas na escrituração contábil da instituição.
Segundo o ofício, o Banco Central identificou indícios de que operações realizadas pelo banco teriam ocorrido de forma irregular e que as demonstrações financeiras e contábeis não refletiriam com fidelidade a situação econômico-financeira da instituição.
O documento foi encaminhado por Belline Santana à chefe da Procuradoria da República no Distrito Federal, Anna Carolina Resende Maia Garcia, após receber aval da Procuradoria-Geral do Banco Central.
Servidor volta a aparecer em mensagens
Sete dias depois do envio do documento ao MPF, Belline Santana voltou a ser mencionado em conversas de WhatsApp atribuídas a Daniel Vorcaro e ao cunhado dele, Fabiano Zettel, apontado pela investigação como suspeito de atuar como operador financeiro do banqueiro.
Em 22 de julho, Zettel teria enviado a Vorcaro a mensagem: "Bellini cobrando. Paga?". O banqueiro teria respondido afirmativamente e questionado como o pagamento seria realizado.
Na sequência, Zettel teria descrito um caminho para a transferência dos valores: "Sai pra Super. Super manda empresa Léo. Empresa Léo que tem contrato com ele".
Para a Polícia Federal, as mensagens podem indicar uma tentativa de esconder a origem dos recursos utilizados no suposto pagamento.
PF vê possível ocultação dos valores
De acordo com a investigação, valores ligados ao grupo de Vorcaro teriam passado pela empresa Super Empreendimentos e Participações.
Ainda segundo a apuração, a empresa teria enviado os recursos para a Varajo Consultoria, de Leonardo Palhares. A PF suspeita que o dinheiro teria sido posteriormente destinado a Belline Santana.
O caminho envolvendo diferentes empresas é interpretado pelos investigadores como possível mecanismo de dissimulação da origem e do destino final dos recursos.
Por isso, as mensagens passaram a integrar a apuração sobre uma possível rede de pagamentos ilícitos relacionada ao caso envolvendo o Banco Master.
Entenda o caso Banco Master
O caso envolve uma investigação da Polícia Federal sobre suspeitas de fraudes financeiras relacionadas ao Banco Master, instituição controlada por Daniel Vorcaro. A apuração ganhou força após operações envolvendo carteiras de crédito do banco e a tentativa de venda da instituição ao Banco de Brasília (BRB).
Entre os pontos investigados estão possíveis irregularidades na criação, negociação e contabilização de créditos, além de suspeitas de lavagem de dinheiro e corrupção. O Banco Central também identificou problemas nas operações do Master e encaminhou informações ao Ministério Público Federal.
A instituição acabou entrando em liquidação extrajudicial em novembro de 2025. Desde então, a investigação avançou para diferentes frentes e passou a envolver pessoas ligadas ao banco, empresas e operações financeiras.
Vorcaro foi preso novamente em março
Daniel Vorcaro foi preso pela Polícia Federal pela primeira vez em novembro de 2025, durante a primeira fase da Operação Compliance Zero. Ele acabou sendo solto posteriormente, mas voltou a ser preso em 4 de março de 2026, durante uma nova etapa da investigação.
A segunda prisão ocorreu em uma operação que apurava suspeitas de crimes como corrupção, lavagem de dinheiro, ameaças e invasão de dispositivos informáticos. A investigação também alcançou pessoas próximas ao banqueiro.
Mais recentemente, Vorcaro prestou depoimento à Polícia Federal e negou ter pago propina a ex-diretores do Banco Central. A defesa também vem tratando das acusações no curso da investigação.
A investigação da Polícia Federal agora analisa também as mensagens e o possível fluxo financeiro entre empresas que, segundo os investigadores, teria sido utilizado para ocultar pagamentos.
Até o momento, as informações descritas pela PF representam suspeitas investigadas pelas autoridades e não uma condenação definitiva dos envolvidos.