A investigação do MPT teve origem em denúncias relacionadas a uma unidade localizada na Avenida José Bonifácio, no Jardim Flamboyant, em Campinas
Divulgação Oxxo
A investigação do MPT teve origem em denúncias relacionadas a uma unidade localizada na Avenida José Bonifácio, no Jardim Flamboyant, em Campinas

rede de minimercados Oxxo foi condenada pela Justiça do Trabalho a pagar R$ 2 milhões por danos morais coletivos após ser acusada de  não oferecer segurança adequada aos funcionários diante de assaltos e outros episódios de violência nas unidades. A decisão determina mudanças nas medidas de proteção adotadas pela empresa em todas as lojas.

A sentença foi proferida pelo Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região (TRT-15), com sede na cidade de Campinas, em São Paulo, a partir de uma ação civil pública apresentada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT). A empresa ainda pode recorrer.

Entre as determinações estão a presença de vigilantes durante a noite em estabelecimentos considerados de risco médio ou alto, instalação de barreiras de proteção em outras unidades, atendimento médico e psicológico às vítimas e assistência jurídica após ocorrências.

Denúncias começaram em Campinas

A investigação do MPT teve origem em denúncias relacionadas a uma unidade localizada na Avenida José Bonifácio, no Jardim Flamboyant, em Campinas (SP).

Segundo o órgão, os problemas estavam relacionados principalmente ao funcionamento ininterrupto das lojas. Em alguns casos, trabalhadores atuavam sozinhos durante a madrugada e não havia vigilantes presenciais.

A apuração também apontou que as medidas de segurança eram consideradas insuficientes e tinham caráter principalmente patrimonial. Após ocorrências, funcionários eram orientados a levantar os prejuízos e registrar boletins de ocorrência.

Para o MPT, a situação deixava os trabalhadores diretamente expostos aos riscos provocados pela atividade.

Número de ocorrências aumentou

Durante a investigação, foram levantados dados sobre crimes registrados em unidades da rede.

Na capital paulista, os registros de roubos, furtos, arrastões e invasões teriam passado de 320 ocorrências em 2023 para 1.053 em 2024. Também foram identificados centenas de episódios nos primeiros meses de 2025.

A investigação ainda cruzou informações com dados da Previdência Social e encontrou afastamentos de funcionários relacionados a transtornos mentais e comportamentais.

O MPT apontou que, em alguns desses casos, não teriam sido emitidas as respectivas Comunicações de Acidente de Trabalho (CATs).

Assaltos também deixaram marcas psicológicas

A investigação não ficou restrita aos prejuízos materiais causados pelos criminosos.

Relatórios do Centro de Referência em Saúde do Trabalhador indicaram casos de funcionários que desenvolveram Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT) depois de assaltos considerados violentos.

Segundo o MPT, houve situações em que trabalhadores precisaram buscar atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) sem receber suporte da empresa.

A Justiça considerou que os impactos psicológicos também precisam ser tratados como parte do risco ocupacional enfrentado pelos funcionários.

O que muda nas lojas

A decisão determina que a Oxxo atualize seu Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) e o respectivo plano de ação, levando em consideração os riscos relacionados à violência urbana.

Nas unidades classificadas como de risco médio ou alto, a empresa deverá manter vigilância física ostensiva durante todo o período noturno.

Nas demais lojas, consideradas de menor risco, deverão ser adotadas medidas de proteção, como:

  • guichês blindados;
  • sistemas de eclusa;
  • cabines de segurança;
  • botões de pânico ligados a centrais de monitoramento em tempo real;
  • rondas durante a noite.

A empresa também deverá contratar serviço especializado de segurança privada voltado à proteção dos trabalhadores.

Atendimento médico e psicológico

Outra parte importante da sentença envolve o atendimento aos funcionários que forem vítimas de violência.

A rede terá de oferecer assistência médica e psicológica gratuita e integral, inclusive durante o horário de trabalho.

Também deverá disponibilizar assistência jurídica para acompanhar os empregados em delegacias e órgãos da Justiça, evitando que precisem enfrentar sozinhos as consequências de uma ocorrência.

A decisão ainda determina a revisão do Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO), com medidas específicas para acompanhar a saúde mental dos trabalhadores.

CAT deverá ser emitida após violência

A sentença também estabeleceu um protocolo para a emissão da Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT).

Em casos de violência que provoquem lesão ou abalo psicológico, o documento deverá ser emitido até o primeiro dia útil seguinte ao episódio.

A medida busca garantir que os impactos dos assaltos e de outras ocorrências sejam formalmente registrados e acompanhados.

Multa pode chegar a R$ 200 mil por loja

O descumprimento das determinações poderá gerar multa diária de R$ 5 mil por estabelecimento para cada obrigação não cumprida.

O limite inicial estabelecido pela Justiça é de R$ 200 mil por loja.

Já os R$ 2 milhões de indenização por danos morais coletivos e os valores eventualmente arrecadados com multas deverão ser destinados ao Fundo dos Direitos Difusos, ao Fundo de Amparo ao Trabalhador ou a projetos sociais indicados pelo MPT e aprovados pela Justiça.

Justiça aponta risco acima da média

Na sentença, a juíza Karine Vaz de Melo Mattos Abreu destacou que o modelo de funcionamento da rede contribui para aumentar a exposição dos funcionários.

A magistrada considerou que as lojas funcionam 24 horas, muitas vezes com equipes reduzidas, e comercializam produtos e mantêm valores em caixa que podem atrair criminosos.

A decisão ressalta que a obrigação de garantir a segurança pública continua sendo do Estado, mas isso não elimina a responsabilidade do empregador de proteger seus funcionários dentro do ambiente de trabalho.

A Oxxo ainda pode recorrer da decisão. Procurada pelo iG, a empresa não havia se manifestado até a publicação da reportagem.

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