MP arquiva caso de alunos da PUC após gritos ofensivos em jogos

Investigação sobre episódio em Americana (SP) concluiu que não houve elementos suficientes para caracterizar injúria racial ou ofensa individual

Alunos da PUC acusados de cometer atos discriminatórios durante jogos universitários no interior de SP
Foto: Reprodução
Alunos da PUC acusados de cometer atos discriminatórios durante jogos universitários no interior de SP

O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) arquivou a investigação envolvendo alunos da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo  (PUC-SP) que foram filmados gritando “pobres” e “cotistas” durante os Jogos Jurídicos, realizados em Americana, no interior de São Paulo.

A decisão foi tomada pelo promotor Fábio José Moreira dos Santos, da Promotoria de Justiça de Americana. Segundo ele, não foram encontrados elementos suficientes para caracterizar crime nas manifestações feitas durante a partida.

O episódio aconteceu em 16 de novembro de 2024, durante uma partida de handebol entre estudantes de Direito da PUC-SP e da Universidade de São Paulo (USP). Vídeos feitos no local viralizaram nas redes sociais e provocaram repercussão nacional.

Entenda o que aconteceu

Nas imagens, estudantes que estavam na torcida da PUC-SP aparecem gritando termos considerados ofensivos, entre eles “pobre” e “cotista”. Alguns também fizeram gestos relacionados a dinheiro com as mãos.

A suspeita apresentada na época era de que as provocações seriam direcionadas a alunos cotistas da USP.

Após a divulgação dos vídeos, estudantes da USP organizaram uma força-tarefa para identificar os envolvidos e levaram o caso às autoridades. A investigação ficou sob responsabilidade da Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), da Polícia Civil.

Cinco estudantes foram identificados durante a apuração.

Por que o MP não considerou crime?

Na análise do Ministério Público, a palavra “cotista” era a única entre as expressões investigadas que poderia, em tese, ser avaliada como possível injúria racial.

Isso porque os demais termos utilizados nas provocações foram considerados pelo promotor como relacionados principalmente à condição socioeconômica.

Mesmo em relação à palavra “cotista”, porém, o MP concluiu que não havia conteúdo étnico-racial suficiente para caracterizar o crime.

Um dos argumentos apresentados foi que as cotas da USP não são destinadas exclusivamente a pessoas negras. A política também contempla estudantes de escolas públicas e integrantes de outros grupos.

Por isso, segundo o promotor, ser cotista não significa necessariamente ser negro.

Investigação não identificou alvo específico

Outro ponto considerado pelo Ministério Público foi a dificuldade de determinar para quem exatamente os gritos eram dirigidos.

O relatório da Decradi já havia apontado que os vídeos analisados não permitiam identificar com segurança os destinatários das ofensas.

Para o promotor, essa circunstância também afastou a possibilidade de enquadramento por injúria comum, que exige uma vítima determinada.

A manifestação do MP também levou em conta o contexto de provocações entre as torcidas durante os jogos universitários.

Segundo a decisão, estudantes da PUC-SP também teriam sido alvo de xingamentos durante o evento. Entre os exemplos citados está a expressão “riquinho burro”.

O que disseram os investigados

Durante a apuração, os estudantes atribuíram os gritos ao clima de rivalidade existente entre as torcidas.

De acordo com a manifestação do promotor, Marina Lessi de Moraes admitiu ter gritado “pobre”. Matheus Antiquera Leitzke reconheceu a expressão “passa o PIX para esmola”.

Tatiane Joseph Khoury, ainda segundo o MP, admitiu ter gritado “cota, cota”, “cotista, cotista” e “ainda por cima é cotista”.

A Arthur Martins Henry foi atribuído o grito “cotista filho da puta”. Já Cecília Sales Braga teria proferido expressões como “cotista pobre do caralho” e “cotista do caralho”, mas negou ter feito os comentários.

Caso provocou repercussão

Na época, as Faculdades de Direito e os centros acadêmicos das duas universidades repudiaram o episódio e afirmaram que adotariam medidas para investigar o comportamento dos estudantes.

A PUC-SP também chegou a suspender estudantes envolvidos no caso por 30 dias, segundo informações divulgadas anteriormente.

A investigação criminal, porém, terminou sem denúncia do Ministério Público.

Com o arquivamento, os investigados não serão transformados em réus neste caso. A decisão ainda pode ser questionada e passar por revisão, conforme os procedimentos previstos para o arquivamento.

O iG tenta contato com os denunciantes para saber se pretendem pedir a revisão do arquivamento.