
A busca por um corpo mais magro, impulsionada pelas redes sociais, já chegou à infância e à adolescência . Vídeos de mães aplicando as chamadas “canetas emagrecedoras” nos próprios filhos chamaram a atenção de pediatras e acenderam um alerta sobre os riscos do uso inadequado desses medicamentos.
Na reportagem exibida pelo Bom Dia Brasil, em uma das gravações, uma mãe afirma que aplica o medicamento na filha de 17 anos por indicação médica. Em outra publicação, uma mulher conta que levou a filha, de 11 anos e 70 quilos, ao médico e recebeu recomendação para utilizar tirzepatida.
Também há adolescentes buscando informações sobre o tratamento nas redes sociais. Em um comentário, um usuário afirma ter 13 anos, 79 quilos e 1,70 metro e pergunta se poderia usar o medicamento.

Pediatras alertam para riscos
Diante da repercussão do assunto, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) publicou um alerta sobre o uso das chamadas canetas emagrecedoras por crianças e adolescentes.
A entidade destaca que esses medicamentos podem ter indicação para determinados pacientes pediátricos, mas a utilização precisa ocorrer dentro de critérios médicos e com acompanhamento profissional. O problema, segundo a SBP, está principalmente na banalização do tratamento e no uso sem indicação ou acompanhamento.
Entre os possíveis efeitos estão déficit no crescimento e no desenvolvimento, desidratação, alterações nos sais minerais do organismo e perda de massa muscular. Também podem ocorrer problemas gastrointestinais e, em casos mais graves, pancreatite e alterações na vesícula.
Perda de peso pode afetar o crescimento
Para crianças e adolescentes, emagrecer não é simplesmente uma questão de reduzir o número na balança. O organismo ainda está em formação e precisa de energia, proteínas, vitaminas e minerais para crescer.
Segundo especialistas, a redução da ingestão de proteínas e minerais pode prejudicar especialmente o chamado estirão de crescimento.
Outro ponto de preocupação é a perda de massa muscular. Em uma fase em que músculos, ossos e outros tecidos ainda estão se desenvolvendo, uma redução inadequada de massa magra pode trazer consequências para a saúde.
A SBP também chama atenção para possíveis efeitos psicológicos. O uso desses medicamentos com finalidade estética pode funcionar como gatilho para transtornos alimentares, como anorexia e bulimia, além de estar relacionado a problemas de imagem corporal.
Pressão estética preocupa especialistas
A adolescência é uma fase marcada por mudanças físicas e emocionais. Por isso, especialistas alertam que a pressão para alcançar rapidamente um determinado padrão de beleza pode fazer com que crianças e adolescentes enxerguem medicamentos como uma solução para questões que precisam de uma avaliação muito mais ampla.
A SBP afirma que os medicamentos não devem ser usados apenas para mudar a aparência, atingir um padrão estético ou perder peso rapidamente antes de festas, viagens ou competições.
A entidade recomenda que o pediatra avalie não apenas o peso, mas também o motivo pelo qual o jovem deseja emagrecer, suas expectativas e as condições de saúde.
Brasil tem milhões de jovens com excesso de peso
O alerta acontece em um cenário em que o excesso de peso também é uma questão de saúde pública entre crianças e adolescentes.
Segundo os dados levantados pelo Bom Dia Brasil, o Brasil tem mais de 17 milhões de pessoas entre 5 e 19 anos com excesso de peso. Desse total, cerca de 7 milhões são consideradas obesas.
A existência desse problema, no entanto, não significa que qualquer criança ou adolescente com excesso de peso deva utilizar medicamentos. A SBP ressalta que o tratamento precisa ser individualizado.
A entidade explica que, até agosto de 2026, três medicamentos da classe das incretinas tinham aprovação da Anvisa para determinadas situações envolvendo a população pediátrica: liraglutida, semaglutida e tirzepatida. As indicações variam conforme a idade, o diagnóstico e as características do paciente.
Produtos sem procedência são ainda mais perigosos
Outro motivo de preocupação são as canetas compradas no exterior ou de fontes desconhecidas.
Nas redes sociais, uma mãe afirma que pretende comprar uma caneta para o filho de 12 anos no Paraguai. O produto citado não possui autorização para comercialização no Brasil.
A SBP recomenda que produtos sem registro sanitário, clandestinos, manipulados ou importados sem registro da Anvisa não sejam utilizados. Nesses casos, não há garantia sobre a composição, a quantidade da substância ou as condições em que o medicamento foi produzido e armazenado.
Medicamento não deve ser usado por conta própria
As chamadas “canetas emagrecedoras” são medicamentos e não produtos de uso livre. No Brasil, os medicamentos dessa categoria que possuem indicação e registro para determinados tratamentos precisam de receita médica.
A SBP reforça que mesmo quando existe diagnóstico de obesidade ou diabetes, a prescrição não é automática. O médico deve avaliar a gravidade da doença, tratamentos anteriores, possíveis doenças associadas, riscos, capacidade de acompanhamento e expectativas do adolescente e da família.
Para os especialistas, o principal alerta não é contra o tratamento médico da obesidade, mas contra o uso indiscriminado e a transformação dessas medicações em uma solução rápida para alcançar um padrão de beleza.
A recomendação é que qualquer decisão sobre o uso desses medicamentos em crianças e adolescentes seja tomada com acompanhamento de profissionais de saúde e levando em conta o desenvolvimento físico e emocional de cada paciente.