
“ Amordaçada eu já fiquei, acorrentada eu já fiquei. Hoje, estou com as minhas mãos livres, estou com os pés livres. Então eu vou andar e eu vou falar”.
O relato é de Emiliane Tamara Nunes Carvalho, de 24 anos, que foi encontrada acorrentada e amordaçada após passar cinco dias em cativeiro em Águas Lindas de Goiás, no Entorno do Distrito Federal . Depois de receber alta e voltar para casa, ela passou a compartilhar nas redes sociais parte da rotina e das dificuldades para retomar a vida após o sequestro .
Em uma das publicações mais recentes, Emiliane afirma que ainda não se sente segura e que só conseguirá descansar quando tiver a certeza de que o ex-marido , apontado como responsável pelo crime, for sentenciado .
“Não estou bem, não estou bem ainda, mas se eu ficar só em casa sentada esperando, vai acontecer o quê?”, questionou.
Em outro momento, ela reagiu a comentários de pessoas que diziam que deveria permanecer em casa e se afastar das atividades cotidianas após a violência sofrida.
Ailton Rodrigues foi preso em flagrante no dia do resgate e teve a prisão convertida em preventiva durante audiência de custória no último sábado (22). Ele permanece preso.

Apesar da manutenção da prisão, Emiliane diz que teme ser morta caso o ex-companheiro deixe o sistema prissional. “ Eu sei que, se ele sair de lá, ele vai me matar . Porque ele já tinha falado isso várias vezes”, relatou à TV Anhanguera.
Nas redes sociais, Emiliane também rebateu críticas feitas à maneira como tenta retomar a rotina depois do resgate. “Independente de tudo que aconteceu comigo, ainda sou mãe, sou mulher e tenho minhas tarefas. Minha mãe tem me ajudado muito”, contou.
Ela afirmou que boa parte das críticas que recebeu partiu de outras mulheres e rejeitou a ideia de que uma vítima de violência precise permanecer isolada ou constantemente demonstrando sofrimento.
“Para as colegas que falaram que lugar de mulher violentada é em casa chorando: amordaçada eu já fiquei, acorrentada eu já fiquei . Hoje, estou com as minhas mãos livres, estou com os pés livres. Então eu vou andar. Tá vendo mordaça aqui? Então eu vou falar.”
Emiliane reconhece, entretanto, que ainda enfrenta as consequências do que aconteceu.
“Não estou bem, não estou bem ainda”, afirmou, antes de mencionar a audiência de custódia do ex-marido.
Cinco dias em cativeiro
Emiliane desapareceu no dia 17 de agosto, após sair de uma clínica. Ela foi localizada pela Polícia Militar quatro dias depois, na sexta-feira (21), dentro de um imóvel em Águas Lindas de Goiás.
Segundo a investigação, a casa teria sido preparada para mantê-la em cativeiro. A jovem foi encontrada imobilizada, amordaçada e acorrentada, apresentando ferimentos e sinais de violência. A polícia apreendeu no imóvel materiais como algemas, cordas, medicamentos e mantimentos.
Emiliane relatou posteriormente que foi dopada e submetida a diferentes formas de violência durante o período em que permaneceu presa. Entre as agressões denunciadas por ela está a colocação de uma substância química na boca, que teria provocado queimaduras e lesões internas.
A investigação também apura uma carta encontrada com o suspeito. O documento, assinado por Emiliane, continha orientações à família e pedia que a polícia não fosse acionada. A Polícia Militar trabalha com a possibilidade de que ela tenha sido coagida a escrever ou assinar o texto.
Histórico de perseguições
Após o resgate, Emiliane também relatou que as agressões não teriam começado com o sequestro.
Ela afirmou que manteve relacionamento com Ailton por cerca de seis anos e que os dois se separaram em dezembro. O casal tem dois filhos. Segundo a jovem, após a separação, o ex passou a persegui-la e dizia que, caso ela não ficasse com ele, não ficaria com mais ninguém.
Em um dos episódios relatados, Emiliane disse que o ex teria afrouxado os parafusos das rodas do carro dela para provocar um acidente. Ela também afirmou ter feito diversos registros anteriores buscando ajuda.
Um pedido de medidas protetivas apresentado neste ano chegou a ser negado. Segundo o Ministério Público de Goiás, a manifestação ocorreu diante de “incerteza da autoria e ausência de elementos concretos” relacionados aos fatos então apresentados.
A defesa de Ailton disse ao iG que aguarda a conclusão das diligências e o acesso integral aos elementos do inquérito para se manifestar sobre o mérito das acusações. Também informou que as investigações ainda estão em andamento.
Enquanto a investigação avança, Emiliane diz que tenta reconstruir a rotina sem esconder que o medo permanece.
“Quando sair a sentença de que ele não vai sair de lá, aí sim eu vou descansar. Aí sim eu vou poder dormir tranquilamente.”