
Mesmo após a suspensão das transmissões de vídeo do Discord no Brasil , perfis nas redes sociais passaram a divulgar tutoriais que prometem ensinar usuários a contornar a proibição por meio de VPNs . A movimentação ocorre um dia após a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinar a interrupção das funções de vídeo da plataforma, depois de uma investigação sobre falhas na proteção de crianças e adolescentes.
Vídeos publicados nas redes apresentam a tecnologia como uma alternativa para tentar recuperar o acesso a lives, chamadas de vídeo e compartilhamento de tela, que foram suspensos no país. A medida da ANPD ocorreu após uma investigação aberta na sequência da morte de uma adolescente de 13 anos , que teria sido transmitida ao vivo pela plataforma.
O caso colocou o Discord no centro de uma nova discussão sobre a segurança de crianças e adolescentes na internet . Agora, além da disputa entre a plataforma e as autoridades, usuários passaram a procurar maneiras de contornar tecnicamente a restrição.
Perfis divulgam alternativas nas redes
A circulação dos tutoriais começou após o Discord confirmar que cumpriria a determinação da ANPD e desativaria os recursos de vídeo para usuários no Brasil.
Nas publicações, a VPN aparece como uma possível ferramenta para alterar a forma como a conexão do usuário chega aos servidores do Discord.
VPN é a sigla em inglês para Virtual Private Network, ou Rede Privada Virtual. De maneira simplificada, trata-se de uma tecnologia que cria uma conexão privada entre o dispositivo do usuário e um servidor intermediário, fazendo com que o tráfego de dados siga por esse caminho antes de chegar ao serviço acessado.
O especialista em redes de computadores e telecomunicações Noilson Caio compara o funcionamento a um túnel criado dentro da própria conexão de internet.
“Nossa internet é um grande duto e dentro desse duto passam vários canos. O que está dentro dele são privados. VPN é mais um túnel desse”, explica.
Segundo ele, a tecnologia não foi criada especificamente para contornar bloqueios. Ela é utilizada em diferentes situações, inclusive para estabelecer conexões privadas e modificar a origem aparente de uma conexão.
Como funciona a VPN
Para entender por que a tecnologia está sendo citada nos tutoriais sobre o Discord, é preciso observar como uma conexão convencional funciona.
O computador ou celular do usuário se conecta à internet por meio da infraestrutura fornecida por empresas de telecomunicações. A partir dali, os dados trafegam até os servidores dos serviços utilizados.
“Os provedores de internet, como a Vivo, Claro, TIM, entre outros, são as portas dos nossos computadores para o mundo”, explica Noilson.
Quando existe uma determinação para bloquear determinado serviço ou recurso, o controle pode ser feito nessa infraestrutura.
“Quando um país quer fazer um controle de algo, ele faz um controle nessa infraestrutura”, afirma o especialista.
Noilson explica que a ferramenta acrescenta outro caminho a esse processo, uma vez que vai criar uma nova conexão a partir desse aplicativo instalado de VPN com o provedor dessa tecnologia.
Na prática, o tráfego do usuário passa primeiro por um servidor da VPN e, depois, chega ao serviço que ele pretende acessar.
IP pode aparecer como sendo de outro país
Uma das características que ajudam a explicar o interesse dos usuários pelas VPNs é a possibilidade de alterar a localização aparente da conexão.
Cada conexão à internet possui um endereço IP, que pode ser utilizado para identificar a origem aproximada daquele acesso. Quando a conexão passa pelo servidor de uma VPN, o serviço acessado pode enxergar o IP associado a esse servidor.
“Se essa VPN tiver no Canadá, o IP dela é do Canadá e não mais do Brasil . Se essa VPN tiver na Holanda, o IP dela já não é mais do Brasil ”, explica Noilson.
Segundo o professor, esse recurso também é utilizado em situações que não têm relação com bloqueios. Ele cita como exemplo serviços de streaming que disponibilizam determinados conteúdos apenas para usuários de alguns países.
“Imagina que a Netflix fez um catálogo que só está disponível para os Estados Unidos . A VPN é uma técnica muito usada para isso também”, afirma.
VPN não garante acesso ao Discord
Apesar de os tutoriais apresentarem a VPN como uma alternativa para tentar recuperar os recursos suspensos, não há garantia de que a tecnologia conseguirá contornar a restrição.
Isso depende de como o bloqueio foi implementado e de quais mecanismos o próprio Discord utiliza para identificar conexões.
A plataforma pode, por exemplo, reconhecer endereços de IP associados a serviços de VPN e adotar medidas próprias para restringir determinados acessos.
Além disso, uma VPN não elimina a determinação da ANPD. Ela apenas modifica o caminho pelo qual os dados trafegam.
Por que o Discord teve o vídeo suspenso
A decisão da ANPD ocorreu depois de uma investigação sobre os mecanismos de segurança do Discord para proteger crianças e adolescentes.
O procedimento foi aberto após a morte de uma adolescente de 13 anos, em um caso que envolveu uma transmissão ao vivo de seu suicídio e uma suposta indução à prática dentro de um servidor da plataforma.
Segundo a ANPD, a investigação identificou falhas nos mecanismos utilizados pelo Discord para prevenir e reduzir riscos relacionados à exposição de crianças e adolescentes a conteúdos ou práticas envolvendo violência, automutilação e suicídio.
A agência também apontou dificuldades para acompanhar e verificar conteúdos compartilhados em tempo real por meio das ferramentas de vídeo e compartilhamento de tela.
Discord reitera cumprimento da medida
Procurado pelo iG sobre os tutoriais que ensinam usuários a utilizar VPN para tentar contornar a suspensão, o Discord não respondeu especificamente se consegue identificar ou bloquear acessos feitos por meio desse tipo de conexão, nem informou se pretende adotar medidas contra eventuais tentativas de driblar a restrição.
Em nota, a empresa reiterou que está cumprindo a determinação da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) e afirmou que mantém conversas com o órgão para buscar uma solução que permita restabelecer as funções de vídeo no país. Além disso, permanece comprometido em trabalhar com autoridades e formuladores de políticas públicas para tornar a experiência online mais segura.
De acordo com a plataforma, o Discord continua disponível no Brasil e a determinação não afeta mensagens de texto, mensagens diretas, servidores, canais de voz e chamadas exclusivamente de áudio. A suspensão abrange as funcionalidades de comunicação por vídeo em tempo real e o compartilhamento de tela.
A empresa também contestou a caracterização feita pela ANPD sobre seus mecanismos de segurança. Segundo o Discord, a plataforma não tolera grupos ou indivíduos que promovam ou incentivem violência.
Sobre o caso que deu origem à investigação, a empresa afirmou que identificou e removeu, antes da morte da adolescente, um servidor privado no qual pessoas teriam incentivado a automutilação. Segundo o Discord, o espaço exigia convite para entrada e não podia ser encontrado por outros usuários.
A plataforma acrescentou que mantém equipes dedicadas a identificar grupos de alto risco, remover conteúdos que violem suas políticas e colaborar com autoridades policiais.
O iG também procurou a ANPD para saber se a agência identificou a circulação dos tutoriais sobre VPN, se a tecnologia pode dificultar o cumprimento da determinação e se há previsão de medidas específicas para impedir o acesso às funções suspensas por meio desse tipo de conexão. Até a publicação desta reportagem, o órgão não havia respondido.
Tutoriais surgem enquanto caso ainda está em investigação
A divulgação de maneiras de tentar contornar a suspensão acontece enquanto o processo envolvendo o Discord continua em andamento.
A ANPD determinou as medidas de segurança após apontar problemas na proteção de crianças e adolescentes. A agência ainda pode adotar novas providências caso entenda que as exigências não foram cumpridas.
Enquanto isso, a circulação dos tutoriais de VPN cria uma nova frente no caso. De um lado, autoridades tentam fazer com que a plataforma cumpra medidas de proteção; de outro, usuários já procuram alternativas técnicas para recuperar ferramentas que foram retiradas do ar no país.
O episódio também expõe um desafio para medidas de restrição no ambiente digital, já que mesmo quando uma plataforma ou recurso é bloqueado em determinada região, usuários podem tentar utilizar tecnologias que alteram a rota de suas conexões para buscar novamente o acesso.