
Por mais de quatro séculos, dois corpos preservaram uma prova que os relatos históricos não conseguiam entregar sozinhos. Pesquisadores encontraram DNA do vírus da varíola nos restos de um homem e de uma mulher que viveram durante o início da colonização espanhola nas Américas.
A descoberta oferece a primeira evidência molecular direta da chegada da doença ao continente com os europeus. As múmias foram encontradas em uma antiga comunidade inca próxima à costa de Camarones, no Norte do Chile.
O material genético pertencia a uma linhagem do vírus que já desapareceu. Ela ocupava uma posição intermediária entre variantes conhecidas na Europa medieval e aquelas que circularam nos séculos seguintes. Para os cientistas, a ligação ajuda a confirmar como a epidemia atravessou o Atlântico e avançou pelo continente.
Corpos foram preservados naturalmente
A mulher tinha entre 30 e 35 anos. O homem, entre 18 e 20. Os pesquisadores não conseguiram estabelecer o ano exato das infecções, mas situaram as mortes em um período concentrado no século 16, quando os espanhóis derrubaram o Império Inca.
Os corpos não passaram por técnicas artificiais semelhantes às usadas no Egito Antigo. Eles foram preservados pelas condições do ambiente e enterrados em fardos, envolvidos por mantas de lã de camelídeos e acompanhados por objetos funerários.
A antropóloga Constanza de la Fuente Castro, da Universidade do Chile, explicou que esse tipo de sepultamento já existia antes da expansão inca e era comum entre povos anteriores da região.
Dentro dos ossos, o vírus permaneceu legível.
Os dois genomas recuperados eram quase idênticos. Isso indica que o homem e a mulher provavelmente foram infectados durante o mesmo surto ou por uma variante que circulava naquele período.
Doença chegou antes dos registros locais
O primeiro surto de varíola documentado nas Américas ocorreu em 1518, na i lha de Hispaniola, hoje dividida entre Haiti e República Dominicana.

Em entrevista à Reuters, o geneticista Bruno Romero González, do Trinity College Dublin, afirmou que os registros apontam a doença durante o processo de ocupação espanhola da ilha. Ele é o principal autor do estudo publicado na revista Science.
O material recuperado no Chile mostra que o vírus alcançou áreas muito distantes do Caribe. A região onde as múmias foram encontradas não tinha registros anteriores da doença, o que abre dúvidas sobre o caminho percorrido até o Sul do continente.
Uma das hipóteses é que a transmissão tenha avançado por redes comerciais indígenas que já conectavam diferentes populações antes da chegada dos europeus. Os pesquisadores ainda não sabem qual grupo introduziu diretamente a variante identificada.
Vírus encontrou populações sem imunidade
Os povos indígenas não haviam tido contato anterior com a varíola e não possuíam proteção natural contra a doença. A transmissão ocorria de pessoa para pessoa e provocou um colapso populacional em diferentes partes das Américas.
Algumas estimativas citadas pelos pesquisadores apontam que a varíola e outras infecções trazidas durante a colonização mataram cerca de 90% da população indígena. As epidemias enfraqueceram comunidades, desmontaram estruturas sociais e facilitaram o avanço espanhol sobre os impérios Asteca e Inca e sobre cidades maias.
A doença também produziu um impacto psicológico. Povos que desconheciam a origem da infecção viram populações inteiras adoecerem enquanto os invasores europeus pareciam menos atingidos.
O golpe não veio apenas das armas.
DNA mostra como a varíola mudou
A comparação entre os genomas antigos e variantes conhecidas permitiu reconstruir parte da evolução da doença.
Os cientistas concluíram que o vírus passou por um longo período de alterações até o século 16. Essa transformação desacelerou durante as grandes epidemias ligadas à colonização espanhola e voltou a ganhar velocidade após a introdução da primeira vacina, em 1796.
Uma possível explicação é que o vírus já estivesse adaptado o suficiente para circular rapidamente entre populações sem imunidade. Sem grandes barreiras, precisava mudar menos para continuar se espalhando. Essa interpretação foi apresentada pelos autores a partir da análise genética.
A varíola provocou epidemias por séculos e matou centenas de milhões de pessoas. O último caso de transmissão natural foi registrado na Somália em 1977. Três anos depois, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a doença erradicada.
As duas múmias permanecerão como testemunhas de um período que os registros escritos contaram principalmente pela voz dos colonizadores.