
De cima de um morro, perto da praia, mirando no escuro enquanto atraía visitantes. No centro dessa cena, tanto Lucas quanto seu telescópio estiveram várias vezes.
Até que a comoção que a busca por observar astros causava, não em Lucas, mas nos outros, se tornou desejo por compartilhar conhecimento. Aos 17 anos, ele tem certeza de que esse é seu maior sonho. E a fotografia, sua principal ferramenta.
Um dos observatórios preferidos de Lucas era o Morro do Farol, situado na Praia da Cal, na cidade de Torres (RS), litoral norte gaúcho. Lá, a possibilidade de apontar as lentes para o escuro despertou a curiosidade do futuramente astrofotógrafo.
Mas foi no Parque da Guarita que Lucas bateu uma imagem da Nebulosa de Carina que foi reconhecida pela Agência Espacial Brasileira como “imagem da semana”.Ele conta que a foto, na verdade, saiu por acaso. Eram quase 23h no dia 18 de abril quando, ao fim de uma sessão de fotos tentando capturar a Via Láctea, Lucas insistiu em pegar pelo menos mais uma imagem. Dois meses depois, a agência o reconheceu nas redes sociais.
Lucas diz que ficava encantado em como as pessoas o paravam para perguntar sobre o que estavam fazendo e sobre o telescópio. Ele acredita que foi ali que nasceu a vontade de compartilhar o conhecimento sobre os astros.
Sonho de transmitir conhecimento

Observar o céu começou com um simples binóculos. "Uma daquelas vontades repentinas que toda criança apresenta cedo ou tarde", comenta em tom do brincadeira o pai, Roberto Justo. Com o tempo, o hobbie evoluiu para um telescópio, livro sobre astros e sair de noite para observar o céu.
Lucas diz que ficava encantado em como as pessoas o paravam para perguntar sobre o que estavam fazendo durante as saídas para observar o céu. Ele acredita que foi ali que nasceu a vontade de compartilhar o conhecimento sobre os astros – e junto disso, o uso da fotografia:
É um momento que tu transmite para as outras pessoas o que, para ti, pode ser normal, mas para os outros, nem tanto. E aí a questão da astrofotografia veio depois, né? Com o "sucesso" que a gente teve nas saídas com telescópio, eu queria começar a transmitir isso para mais gente Lucas Justo Teixeira, Astrofotógrafo
A partir daí, o objetivo da “caçada” por astros se tornou mostrar para as pessoas o que existe no céu e que passa despercebido, porque o olho humano não vê, conforme ele explica.
Ele reflete que a motivação nasceu do gosto pessoal e que deseja que as pessoas também admirem o que ele admira, incluindo a parte científica da atividade.
Às vezes, o uso da fotografia, ela pode parecer ser um meio simples para as outras pessoas, para elas compreenderem, para elas apreciarem o trabalho. Mas o resultado final, ele é sempre especial, porque ele vai transmitir o desconhecido Lucas Justo Teixeira, Astrofotógrafo
Lucas complementa que a astrofotografia é “um jeito não tão simples” de transmitir esse conhecimento, mas o suficiente para traduzir essa ciência para o público.
Com a ajuda de outros fotógrafos da cidade, Lucas produz quadros para exposições e para venda, também com objetivo de ganhar maior visibilidade. O prêmio conquistado pela Agência Espacial Brasileira (AEB) foi fundamental para isso.
O astrofotógrafo mantém um perfil profissional nas redes sociais em que divulga o trabalho e, r ecentemente, desenvolveu um site, onde também compartilha as fotos.
Confira algumas das fotos do trabalho do astrofotógrafo Lucas:
Empilhamento e anos-luz de distância
Ao invés dos olhos, a câmera do celular. Foi assim que a astrofotografia começou para Lucas, com o telescópio que tinha para as observações. Em junho deste ano obteve as câmeras que usa atualmente.
Uma delas é responsável por dar mais zoom, e a outra para pegar ângulos mais abertos, útil em nebulosas e galáxias.
Com elas, os estudos que já eram rotina, se tornaram diários. Lucas explica que para uma sessão de fotos ele costuma checar as condições do tempo, mas que elas vão além de chuva ou Sol. A turbulência atmosférica e a poluição luminosa são dois fatores importantes.
Ou seja, além do clima, que tem que estar perfeito, é preciso conferir se os “ruídos de luz” que a cidade (e toda humanidade) produz vão permitir fotografar o astro.
Já a turbulência atmosférica tem relação com ventos, temperatura e o movimento da própria atmosfera, que pode distorcer a luz no momento da foto – afinal, os objetos estão extremamente longe, e detalhes pequenos ganham influência.
Os estudos são acompanhados de três aplicativos que servem para calcular as posições dos astros que busca capturar em relação a onde ele está e outros cálculos de eventos futuros que ele pretende acompanhar.
Outro detalhe fundamental para as fotos é a quantidade de cliques – ou vídeos. Diferente da fotografia normal em geral, para capturar astros, Lucas esclarece que às vezes as fotos levam dias apontando para o mesmo objeto.
Ao invés de cliques, os vídeos registram o objeto desejado em várias “partes”, que depois são montadas como em um quebra-cabeça (empilhamento) em busca da melhor definição.
A Lua, por exemplo, tu faz um vídeo dela, é, um minuto, mais ou menos, e aí é um processo que chama stack. Tu ‘empilha’, em um software, que pega os melhores frames e junta eles para gerar uma foto final. É um processo meio que quase que natural dessas imagens. Vai agrupando a melhor parte de cada foto Lucas Justo Teixeira, Astrofotógrafo
Dedicação e futuro
O astrofotógrafo diz que praticamente respira a caça pelos astros, o que já se tornou parte da vida dele. Ele considera os estudos diários algo que quase não precisa de esforços e, menos ainda, uma obrigação.
Quando eu vejo eu já estou ali fazendo, sabe? Então é uma coisa muito presente, não só na minha vida, mas na vida da minha família também. Eles estão sempre por aí, saindo comigo
Perto de se graduar no Ensino Médio, Lucas afirma que quer continuar com as fotos enquanto concilia uma faculdade.
Ele conta que pretende seguir alguma área como astrofísica ou astronomia, que são assuntos que já tem por perto no dia a dia.
A motivação principal é a mesma que, segundo ele, o trouxe até onde já chegou com as fotos aos 17 anos: o desejo de compartilhar com todos o conhecimento que acessa, ou, nas palavras dele, transmitir “o céu que ninguém vê”.












