Operação resgatou 35 trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão em uma fazenda de cana-de-açúcar
Divulgação MPT
Operação resgatou 35 trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão em uma fazenda de cana-de-açúcar

Uma força-tarefa formada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), Defensoria Pública da União (DPU) e Ministério do Trabalho e Emprego resgatou 35 trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão  em uma fazenda de cana-de-açúcar localizada na cidade de Gabriel Monteiro,  no interior de São Paulo.

operação foi realizada no último dia 20 de maio, na Fazenda Califórnia I, na região de Araçatuba (SP). Segundo os órgãos envolvidos, os trabalhadores atuavam no corte manual da cana e enfrentavam uma rotina marcada pela falta de estrutura básica, segurança e dignidade.

Os trabalhadores também relataram conviver diariamente com insetos e animais peçonhentos nos alojamentos
Divulgação MPT
Os trabalhadores também relataram conviver diariamente com insetos e animais peçonhentos nos alojamentos

As irregularidades foram encontradas tanto na frente de trabalho quanto nos alojamentos onde os trabalhadores estavam hospedados.

Falta de estrutura no campo

Durante a fiscalização, os agentes identificaram diversas violações das normas que regulamentam o trabalho rural. Os trabalhadores realizavam as refeições em meio ao canavial, sem qualquer estrutura adequada para descanso ou alimentação.

Entre as irregularidades constatadas na área de trabalho estavam:

- Refeições feitas diretamente no canavial, sentados sobre a palha cortada;
- Ausência de mesas, cadeiras e cobertura para proteção contra sol e chuva;
- Falta de instalações sanitárias;
- Fornecimento inadequado de água potável;
- Equipamentos de proteção individual custeados pelos próprios trabalhadores;
- Ferramentas de trabalho pertencentes aos funcionários, e não ao empregador.

Durante a fiscalização, os agentes identificaram diversas violações das normas que regulamentam o trabalho rural
Divulgação MPT
Durante a fiscalização, os agentes identificaram diversas violações das normas que regulamentam o trabalho rural

De acordo com os auditores, as condições descumpriam exigências mínimas de saúde e segurança previstas para atividades rurais.

Alojamentos tinham colchões no chão e falta de higiene

As inspeções também alcançaram dois imóveis utilizados como alojamento dos trabalhadores, localizados em Santo Antônio do Aracanguá (SP), a cerca de uma hora e meia da fazenda.

O cenário encontrado foi considerado igualmente grave. Os 35 trabalhadores dividiam as residências e dormiam em colchões colocados diretamente sobre o piso de cimento. Em alguns cômodos, placas de papelão eram usadas como base improvisada.

Nos alojamentos, a fiscalização identificou:

- Colchões colocados diretamente no chão;
- Uso de papelão como suporte para dormir;
- Cozinhas sem condições adequadas de higiene;
- Botijões de gás instalados próximos aos dormitórios;
- Banheiros insuficientes para a quantidade de pessoas;
- Vasos sanitários sujos e com descargas sem funcionamento;
- Falta de privacidade nos sanitários;
- Presença de escorpiões e baratas dentro dos imóveis.

 Os 35 trabalhadores dividiam as residências e dormiam em colchões colocados diretamente sobre o piso de cimento
Divulgação MPT
Os 35 trabalhadores dividiam as residências e dormiam em colchões colocados diretamente sobre o piso de cimento

Os trabalhadores também relataram conviver diariamente com insetos e animais peçonhentos nos alojamentos.

Contratação irregular e acordo milionário

Durante as investigações, a força-tarefa identificou que a mão de obra era intermediada por uma empresa considerada sem capacidade econômica e operacional compatível com o contrato firmado. Diante disso, o tomador dos serviços foi responsabilizado pelas obrigações trabalhistas e pelos danos causados.

De acordo com os auditores, as condições descumpriam exigências mínimas de saúde e segurança previstas para atividades rurais
Divulgação MPT
De acordo com os auditores, as condições descumpriam exigências mínimas de saúde e segurança previstas para atividades rurais

Segundo o procurador do Trabalho Gustavo Rizzo Ricardo, o caso reúne características frequentemente associadas ao trabalho escravo contemporâneo, incluindo condições degradantes de moradia, ausência de registro formal e descontos indevidos nos salários.

Após a fiscalização, o MPT realizou uma audiência administrativa que resultou na assinatura de um Termo de Ajuste de Conduta (TAC). O acordo prevê o pagamento de R$ 666.012,45, sendo R$ 516.012,45 destinados às verbas rescisórias e indenizações individuais dos trabalhadores resgatados, além de R$ 150 mil por dano moral coletivo.

Os trabalhadores foram encaminhados para hospedagem provisória em Clementina (SP), custeada pelo responsável pela contratação. O retorno aos locais de origem (em sua maioria no Nordeste brasileiro) também foi pago pelo empregador.

Além disso, todos foram incluídos na lista oficial que garante acesso ao seguro-desemprego destinado a trabalhadores resgatados de situações análogas à escravidão.

O Ministério Público do Trabalho informou que continuará acompanhando o cumprimento do acordo e encaminhará o caso ao Ministério Público Federal e à Polícia Federal para apuração de possíveis responsabilidades criminais.

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