Imagens do fenômeno em São José dos Pinhais, registradas nas redes sociais
Reprodução/ Redes Sociais
Imagens do fenômeno em São José dos Pinhais, registradas nas redes sociais

O tornado que atingiu São José dos Pinhais,  no interior do Paraná, no último sábado (10), não foi apenas mais um evento climático severo registrado por câmeras de celular.

Ele escancarou um problema estrutural: o Brasil continua tratando tornados como exceção, apesar de evidências científicas apontarem que o fenômeno faz parte da dinâmica atmosférica do país, especialmente no Sul.

Confirmado pelo Simepar, o episódio provocou destelhamentos, queda de árvores e destruição de veículos, repetindo um padrão já visto recentemente em outras cidades paranaenses. A diferença, agora, é a recorrência. E ela muda o peso do debate.

Para o geógrafo Samuel Miranda, doutor em Geografia pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), professor da Estácio e coordenador de curso de Geografia EAD na Wyden, o erro começa na forma como o país interpreta sua própria geografia climática.

“O Brasil sempre teve tornados. O que não teve foi registro, monitoramento e, principalmente, políticas públicas voltadas para esse risco. A ideia de que tornados são raros aqui é falsa”, afirma.

Segundo ele, o Sul e parte do Sudeste integram o chamado Corredor de Tornados da América do Sul, faixa que se estende do norte da Argentina até o território brasileiro.

O Paraná está exatamente no centro dessa rota, onde massas de ar contrastantes se encontram com frequência.

O corredor de tornados passa pelo Sul do Brasil

A sequência recente de tornados no Paraná não é fruto do acaso. Há uma combinação atmosférica recorrente que explica a repetição desses eventos: calor intenso, alta umidade, ventos que mudam de direção com a altitude e a passagem de frentes frias ou sistemas de baixa pressão.

Carro ficou destruído após passagem do tornado
Reprodução X
Carro ficou destruído após passagem do tornado

“Existe uma receita atmosférica bem definida. O jato de baixos níveis traz ar quente e úmido da Amazônia, enquanto frentes frias avançam pelo Sul. Quando isso acontece de forma persistente, o ambiente fica altamente instável”, explica Miranda.

Esse cenário favorece a formação de supercélulas, que são tempestades capazes de gerar tornados.

O que tornou o quadro mais crítico nos últimos meses foi o reforço desse sistema por condições oceânicas específicas.

O aquecimento das águas do Atlântico Sul e do Pacífico, associado ao fenômeno El Niño em 2025/2026, aumentou a energia disponível na atmosfera.

“Mais vapor d’água significa mais combustível para tempestades severas. Fenômenos que antes eram espaçados passam a ocorrer em sequência”, diz.

O resultado foi uma série de eventos tornádicos em curto intervalo, incluindo episódios classificados entre F2 e F3 na escala Fujita, com ventos capazes de ultrapassar 200 km/h, intensidade suficiente para causar destruição urbana significativa.

Falta de preparo amplia danos e riscos

Se o ambiente atmosférico explica a formação dos tornados, o impacto deles é agravado por uma falha histórica de planejamento.

Guia de sobrevivência: como agir em caso de tornado
Gerada por IA
Guia de sobrevivência: como agir em caso de tornado

O Brasil não possui protocolos nacionais de alerta específicos para tornados nem políticas de educação pública sobre como agir diante do fenômeno.

“A população não sabe onde se abrigar. Pouca gente sabe que o correto é buscar locais internos, sem janelas, ou subsolos. Isso não faz parte da cultura de prevenção no país”, afirma o geógrafo.

Para ele, o problema não é apenas tecnológico, mas de comunicação de risco.

Há também um descompasso grave na infraestrutura. A principal norma brasileira para cálculo de ventos em edificações, a NBR 6123, foi baseada em mapas climáticos antigos, que não refletem a realidade atual.

Estudos recentes indicam que milhares de prédios, galpões e torres foram projetados para suportar ventos muito inferiores aos registrados hoje.

“Quando um tornado F2 atinge uma estrutura pensada para rajadas de 140 km/h, o colapso é praticamente inevitável. Isso não é surpresa, é consequência de normas defasadas”, afirma Miranda.

Para ele, o tornado em São José dos Pinhais não deve ser tratado como um evento isolado. “Não é azar meteorológico. É um sinal claro de que a gestão de risco no Brasil precisa incluir tornados no mesmo nível de prioridade que enchentes e deslizamentos”, conclui.

Enquanto vistorias técnicas seguem em campo para classificar oficialmente a intensidade do fenômeno mais recente, a principal conclusão já se impõe: tornados no Brasil não são novidade.

A novidade é que eles estão deixando de passar despercebidos, e o país ainda não está preparado para lidar com isso.

    Comentários
    Clique aqui e deixe seu comentário!
    Mais Recentes