Foguete Innospace em parceria com a FAB
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Foguete Innospace em parceria com a FAB

Mesmo diante das incertezas sobre o que provocou a  explosão do foguete da Innospace logo após o lançamento, na noite de anteontem, o governo brasileiro adotou um tom positivo ao comentar o episódio. A missão marcou a primeira decolagem de um foguete comercial a partir do Brasil e foi classificada por autoridades como um passo histórico para o programa espacial nacional.

Em nota, a Agência Espacial Brasileira (AEB) afirmou que “o lançamento do veículo HANBIT-Nano, da empresa sul-coreana Innospace, realizado a partir do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão, transcorreu de forma regular e segura em todas as etapas sob responsabilidade brasileira”.

O órgão acrescentou ainda que “eventos dessa natureza fazem parte do processo de desenvolvimento tecnológico na atividade espacial, sendo fundamentais para o aprendizado, a evolução dos sistemas e o aumento da confiabilidade em futuras missões”.

O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, ao qual a AEB é vinculada, seguiu a mesma linha. Segundo a pasta, “todos os protocolos de segurança, rastreio e operações de solo”, sob responsabilidade do Brasil, “funcionaram com precisão e exatidão, demonstrando a plena capacidade e a maturidade operacional do CLA para inserir o país no promissor mercado internacional de lançamentos espaciais”. A operação é vista como um primeiro movimento para colocar o Brasil em um setor atualmente dominado por Estados Unidos, Europa e China.

Foguete HANBIT-Nano, no Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão
Reprodução/INNOSPACE
Foguete HANBIT-Nano, no Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão

A Força Aérea Brasileira (FAB) vai apurar as circunstâncias do acidente em conjunto com a própria Innospace. A empresa sul-coreana informou que foi identificada uma “anomalia” cerca de 30 segundos após a decolagem, o que levou à decisão de executar “a medida de queda do veículo dentro da zona de segurança terrestre”, conforme explicou o CEO do grupo, Soo-jong.

Em comunicado aos acionistas, no qual pediu “profundas” desculpas pelo ocorrido, o executivo lamentou não ter correspondido plenamente às expectativas. “O desenvolvimento e operação de veículos de lançamento envolvem inúmeras tecnologias de alta complexidade operando simultaneamente, e com base nessa experiência, realizaremos uma análise minuciosa das causas”, afirmou.

O HANBIT-Nano decolou às 22h13, após uma sequência de adiamentos iniciada no fim de novembro. Segundo a Innospace, o foguete saiu da plataforma normalmente e chegou a iniciar a manobra de inclinação para inserção orbital. O motor do primeiro estágio operou como previsto, mas, cerca de 30 segundos depois, uma falha foi detectada, levando à interrupção da missão por razões de segurança. A transmissão ao vivo foi cortada e exibiu uma mensagem de alerta em inglês; antes disso, imagens mostraram rapidamente a explosão.

Inicialmente previsto para 22 de novembro, o lançamento foi adiado após a identificação da necessidade de ajustes técnicos. Em dezembro, novas tentativas foram postergadas por problemas em sistemas de resfriamento e em uma válvula do tanque de metano líquido, além de questões meteorológicas e de fornecimento de energia elétrica.

A Innospace não divulgou o prejuízo da missão, mas o mercado reagiu negativamente. Após a explosão, as ações da empresa caíram 29% na Kosdaq, bolsa sul-coreana. Antes do lançamento, os papéis haviam acumulado forte valorização.

Foguete HANBIT-Nano, no Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão
Reprodução/INNOSPACE
Foguete HANBIT-Nano, no Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão

Projetado para colocar em órbita até 90 quilos, o foguete transportava cinco satélites e três experimentos desenvolvidos por equipes do Brasil e da Índia, além de mensagens de estudantes da rede pública do Maranhão. Entre os equipamentos estava o satélite Jussara-K, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), destinado à coleta de dados ambientais, e dois satélites do SpaceLab/UFSC, que validariam tecnologias em órbita. Não havia tripulação a bordo.

Autoridades brasileiras veem a parceria com a Innospace como estratégica para demonstrar o potencial da base de Alcântara em lançamentos comerciais. A proximidade com a Linha do Equador reduz o consumo de combustível e é considerada um diferencial competitivo. Caso fosse bem-sucedido, o lançamento também seria o primeiro a alcançar órbita a partir de solo brasileiro, até hoje, apenas voos suborbitais partiram da base.

Próximos passos

Apesar do incidente, novos lançamentos não estão descartados. A Innospace já reservou diversos períodos em 2026 para operações em Alcântara, conforme calendário divulgado pelo Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial da FAB.

Em nota, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação reforçou que “eventos desta natureza, embora indesejados, são comuns no processo de inovação e pioneirismo científico, servindo como fonte indispensável de dados e aprendizado para o aperfeiçoamento de futuros sistemas”, em consonância com a avaliação da AEB.


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