Bolsonaro
Reprodução/Flickr/Palácio do Planalto
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No passado, o Brasil era um negociador duro, mas que atuava de boa-fé. O Brasil governado por Jair Bolsonaro não é confiável, e a única opção para lidar com esse “trouble maker” (criador de problemas) é tentar isolá-lo para que metas ambiciosas possam ser alcançadas.

A avaliação foi feita por um alto funcionário da União Europeia (UE) envolvido nas negociações globais sobre mudanças climáticas, que pediu para não ser identificado. Quando se fala sobre meio ambiente com fontes estrangeiras, essa é a imagem que tem hoje o governo Bolsonaro, prenunciando um ambiente hostil em relação à delegação brasileira na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP-26, que começa dia 31 de outubro em Glasgow, na Escócia.

Para técnicos europeus, o Brasil de Bolsonaro faz propostas irracionais, e ninguém acredita que cumprirá as metas anunciadas este ano pelo presidente, entre outras, em matéria de redução das emissões de carbono — foi antecipado de 2060 para 2050 o objetivo de atingir a neutralidade de carbono, isto é, a compensação de todas emissões de gases causadores do efeito estufa).

A Casa Branca tem uma visão mais otimista e, nos últimos meses, buscou uma aproximação institucional com o governo Bolsonaro. Em Washington, a avaliação é de que, dependendo do desempenho do Brasil na COP-26, as relações bilaterais podem melhorar. Na UE, a expectativa é nula.

A estratégia do bloco foi explicada em detalhes pela fonte europeia. O que a UE tentará fazer em Glasgow é deixar o Brasil sozinho. Para isso, estão tentando convencer pesos pesados, como China e Índia. Chineses e indianos não defendem as posições do Brasil como próprias, mas resistem à tática do isolamento. Nas conversas com os europeus, pedem que haja mais paciência com o Brasil, mas não há sinais de que esteja dando certo.

—Acreditamos que a única saída para garantir que da COP-26 saiam acordos [que devem ser por consenso] importantes é que o isolamento obrigue o Brasil a fazer algumas concessões. O país precisa se sentir acuado — disse a fonte europeia.

Os Estados Unidos dão a impressão de pensar diferente. Por enquanto, só falam nos ganhos que o Brasil poderá ter caso se comporte bem, sem mencionar eventuais punições por tropeços. Em Washington, a avaliação é de que, dependendo do desempenho do Brasil na COP-26, as relações bilaterais podem melhorar.

Uma das posições defendidas pelos negociadores brasileiros que a UE considera inadmissível é a chamada contabilidade dupla, que permitiria a um país vender reduções excedentes de suas emissões de carbono, e ao país que as comprasse contabilizá-las como reduções próprias. O Brasil também pede para ser compensado pelos países mais ricos por administrar a Amazônia. O problema com o governo Bolsonaro, diz o negociador europeu, é que “qualquer cobrança da comunidade internacional tem como resposta uma reação agressiva e sem sentido”.

O lado de Brasília

Fontes do governo Bolsonaro costumam colocar a situação da seguinte maneira: os países mais desenvolvidos fazem exigências ao Brasil, sem terem, eles mesmos, feito o dever de casa. A mesma posição é defendida por países como China, Rússia e Índia, entre outros. A diferença, apontaram fontes da UE, é que o Brasil é o único que faz demandas impossíveis de serem aceitas, e tornou-se uma pedra no sapato de acordos globais.

Ao lado das delegações oficiais à COP-26, ONGs, como a espanhola Ambientalistas em Ação, estão se preparando para receber Bolsonaro com acusações pesadas, entre elas a de ser um “criminoso climático”, afirmou Javier Andaluz, coordenador de clima e energia do grupo.

— Bolsonaro é responsável por crimes contra o meio ambiente. Ele quer acabar com a integridade climática — afirma Andaluz.

A péssima imagem do Brasil de Bolsonaro é assunto de debate frequente no Parlamento Europeu. Um dos discursos mais inflamados dos últimos meses foi o do eurodeputado Miguel Urbán, do movimento radical Anticapitalistas, que também antecipa um cenário difícil para a delegação brasileira na cúpula.

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— Enquanto ele for presidente, nenhuma política do governo brasileiro sobre meio ambiente terá legitimidade — disse.

Sob enorme pressão da comunidade internacional e de pesos pesados nacionais, inclusive grandes empresas e bancos, o governo brasileiro irá para COP-26 com uma proposta descrita por fontes oficiais como “proativa e construtiva”. O conteúdo ficará pronto nos próximos dias, mas os pontos altos do discurso são a regulamentação do mercado de carbono o fim do desmatamento ilegal até 2030 — meta traçada ainda no governo de Dilma Rousseff, no marco do Acordo de Paris, e reiterada por Bolsonaro na cúpula sobre o clima organizada pelo americano Joe Biden em abril.

A intenção do governo é apresentar o Brasil preocupado com a sustentabilidade e disposto a combater o desmatamento ilegal. Os representantes brasileiros dirão que o país cumpriu uma promessa importante, que foi dobrar o Orçamento dos órgãos de defesa ambiental, e anunciou que será aberto concurso público para a contratação de mais de 700 fiscais encarregados de combater o desmate ilegal na Amazônia.

Contribuição nacional

Até o momento, o governo não pretende alterar as metas climáticas apresentadas em 2020, quando todos os signatários do Acordo de Paris tiveram que atualizar sua chamada Contribuição Nacionalmente Determinada, ou NDC. O país assumiu, entre outros compromissos, o de reduzir em 37% até 2025, e 43% até 2030, as emissões de gases do efeito estufa.

Se a proposta do Planalto realmente se resumir a isso, será considerada insuficiente não apenas por europeus e americanos, mas também por empresários e ambientalistas brasileiros. A Concertação pela Amazônica, criada em 2020 e formada por mais de 400 empresários, economistas e pesquisadores, enviará uma delegação de 50 pessoas à Escócia. Roberto Waack, presidente do conselho do Instituto Arapyaú — organização filantrópica fundada por Guilherme Leal, da Natura —, afirma que o objetivo central é mostrar que o Brasil vai além do governo Bolsonaro. 

— Temos permanente interação com a comunidade internacional, que valoriza qualidade. Buscamos inserir a Amazônia numa estratégia de país — aponta Waack.

Visão empresarial

Ele está coordenando o documento “Uma agenda pelo desenvolvimento da Amazônia”, que será apresentado em Glasgow. Numa versão ainda preliminar, o texto fala das necessidades das diferentes regiões que existem dentro da Amazônia, entre elas as áreas de transição, onde deve haver contenção do desmatamento e regeneração da floresta e da biodiversidade. Fala também das cidades e de suas mazelas.

“Além de representar o agravamento de crises regionais, o desmatamento na Amazônia coloca em risco o compromisso [do Acordo de Paris) de assegurar que o aumento da temperatura global média não ultrapasse 2ºC”, alerta o documento.

— Estamos indo para a COP-26 de cabeça erguida, porque temos qualidade e conteúdo como sociedade. O Brasil é protagonista mundial, quer queira, quer não queira — frisa o biólogo Waack.

Serão dois Brasis em Glasgow. Um que é acolhido pelos que estão mergulhados numa cruzada para frear o aquecimento global. Outro que corre o risco de ser declarado o grande vilão de uma negociação complexa, que precisa de consensos para avançar.

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