Marielle Franco
Agência Brasil
Marielle Franco

O pequeno Arthur, de 4 anos e sete meses, está perdendo o medo de andar. Por ter nascido com má formação, o que o faz depender de cuidados especiais, ele ainda se segura nos móveis de casa. Vai de um lado para o outro. Brinca com uma vaquinha de pelúcia, seu brinquedo predileto. É quando a mãe, Agatha Arnaus Reis, fixa o olhar no rosto do menino, que bate a saudade.

Arthur está cada vez mais parecido com o pai, Anderson Gomes, o motorista que conduzia a vereadora Marielle Franco (PSOL), no fatídico 14 de março de 2018, quando ambos foram executados. Seguir a vida, preencher o vazio da perda. Essa tem sido a meta das famílias das duas vítimas do crime: um luto que, nesta terça-feira, completa mil dias.

Hoje, Agatha se divide entre o trabalho e a atenção ao filho. Ela aprende, a cada dia, a lidar com o tempo, à espera de desenvolvimento do pequeno, enquanto aguarda a resposta dos investigadores do caso sobre quem matou seu marido e a parlamentar.

"Arthur é idêntico ao pai ( Anderson ). Esses dias, ele fez um som, como se limpasse a garganta, que o Anderson fazia. Ele me deixou impressionada, pois não foi algo ensinado. A aparência física é o que ele tem de mais semelhante ao Anderson. Já o temperamento dele é mais parecido com o meu", comparou Agatha. "Falta pouco para que ele comece a andar sozinho", comemorou.

A evolução de Arthur é um alento. Afinal, Anderson era quem passava mais tempo com o menino. Um dos receios de Agatha era justamente o de que a ausência dele pudesse influenciar no desenvolvimento da criança, que perdeu o pai quando tinha apenas um ano e dez meses.

Arthur faz fisioterapia e natação, que ele ama, segundo a mãe. Também tem tratamento com fonoaudióloga, psicóloga e psicopedagoga.

"Não há um dia em que eu não pense no Anderson. Sempre me pego olhando para o Arthur e penso, por exemplo, o quanto Anderson estaria feliz com ele quase andando. Nós tivemos que reaprender a viver. Tudo o que fizemos, fizemos pela primeira vez sem ele e, a cada primeira vez, doeu muito. Sempre me vem ainda em pensamento: ‘Anderson adoraria isso...estaria rindo disso...falando tal coisa…', disse Agatha.

"Todo encontro de família tem aquele momento em que tocamos no nome dele. Mas, aos poucos, a dor dá lugar à saudade e às boas memórias. Mil dias! Parece mentira que não tenhamos os nomes dos mandantes ainda. É uma espera dolorosa. Decidi mudar o foco, seguir com todas as coisas do Arthur e manter a cabeça erguida esperando que tudo chegue ao fim", concluiu.

'Somos uma família simples'

A família de Marielle Franco, por sua vez, vem se dedicando, neste momento, a orar pela saúde do patriarca do clã Silva: Antonio Francisco da Silva Neto, de 68 anos, o Toinho, pai de Marielle, que está internado há pouco mais de uma semana com Covid-19 no Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, em Acari.

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O estado dele é estável. Nas mesmas orações pela sua recuperação, um pedido especial que se repete desde que a filha mais velha foi assassinada: forças para suportar a ausência da parlamentar.

A famiília cresceu. Em julho, mesmo mês de aniversário de Marielle, nasceu Eloah, filha da irmã da vereadora, a professora e jornalista Anielle Franco. Além do bebê de quatro meses, Antonio tem ainda mais duas netas: Mariah, de 4 anos — a mais velha de Anielle —, e Luyara, de 21 anos, filha de Marielle.

Anielle conta que luta para deixar a memória da irmã viva no Instituto Marielle Franco, do qual é diretora. Por isso, foca nos projetos, e desabafa.

"Eu daria tudo na vida para que a morte da minha irmã não tivesse ocorrido. Com o assassinato dela, veio muita coisa ruim. As pessoas não entendem muito o que a gente passa. Nós somos rotulados a um partido político de esquerda, quando era ela a filiada. Gostaria de conversar com as pessoas que nos criticam, saber por que fazem isso. Acham que estamos ganhando dinheiro, nos aproveitando da morte de Marielle. Sou professora, meu pai está internado num hospital público, porque não tem plano de saúde. Somos uma família simples", disse Anielle, que reforça: luta à frente da instituição pelo fim da intolerância.

'Não sei o que dói mais: viver sem ela ou ficar sem respostas'

Viúva de Marielle Franco, Monica Benicio, que acaba de ser eleita vereadora pelo PSOL, há pouco mais de uma semana, conta que, nos últimos dias, voltou para o divã.

"Essas datas mexem comigo. Todo dia 14, um mês, um ano, mil dias. Tinha largado a terapeuta que tratava de mim na época da morte de Marielle, mas voltei hoje. Eu já não sei o que dói mais: se é viver sem ela ou ficar sem respostas, sem a justiça. Passa o tempo, mas parece que foi ontem. Parece que ela vai entrar pela porta o tempo todo. Acho que é essa busca que deixa a gente péssima", contou a parlamentar.

Monica acrescenta, também, que a preocupa a possibilidade da saída da coordenadora do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado do Ministério Público do Rio (Gaeco/MPRJ), Simone Sibílio, e da promotora Letícia Emile à frente da investigação do caso, por conta da troca de comando da Procuradoria-Geral de Justiça.

"Já houve a troca três vezes de delegados da Polícia Civil. Isso, ao meu ver, atrasa as investigações. Se elas ( promotoras ) saírem, quem assumir precisará de mais tempo para entender o caso. Isso será angustiante", afirmou.

Como vereadora, Monica disse, por fim, que pretende dar continuidade a projetos de Marielle que acabaram ficando em suspenso:

"Tínhamos afinidades no amor e na política. Legado não é o que se deixa, mas o que se leva adiante", concluiu.

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