Sergio Moro
Isaac Amorim/MJSP
Sergio Moro

SÃO PAULO. O ex-ministro Sergio Moro vai entrar de quarentena em Curitiba para avaliar seus passos nos próximos meses. A interlocutores, antes mesmo de pedir demissão, Moro afirmou que, na atual conjuntura, "nada mais distante do que 2022 agora". No entanto, o ex-juiz da Lava-Jato tem ciência de sua popularidade, maior do que a do presidente Jair Bolsonaro, e deixou a porta aberta a convites políticos.

- Sempre vou estar à disposição do país - afirmou Moro , na entrevista coletiva em que anunciou sua saída do governo.

No seu grupo mais próximo, em Curitiba, a torcida é para que ele aceite entrar na política. Esse caminho era descartado no passado, mas agora pode ser considerado, como mostrou a fala de despedida do ex-juiz. Ao anunciar a saída do governo por princípios, o ex-ministro cresceu ainda mais na consideração dos ex-colegas de Lava-Jato e de parte da comunidade jurídica.

Ao aceitar o cargo de ministro de Bolsonaro, Moro teve de pedir exoneração do cargo de magistrado da Justiça Federal. Ou seja, ele só voltaria a ser juiz se prestasse outro concurso público, o que não é o caso. Ao se despedir do cargo, Moro disse que sabia dos riscos ao abandonar uma carreira de 22 anos para integrar a equipe do governo Bolsonaro. Ele poderia cuidar das áreas governança e compliance ou até do departamento jurídico.

Formado em Direito, Moro pode abrir seu próprio escritório de advocacia criminal, mas não parece ser essa uma opção imediata para o ex-juiz. Uma alternativa é trabalhar na iniciativa privada. Só na quinta-feira, antes da concretização da saída, segundo uma pessoa próxima, três empresas manifestaram interesse em ter Moro como funcionário. Ele poderia cuidar das áreas governança e compliance ou até do departamento jurídico.

Outra das alternativas é Moro se engajar numa luta internacional contra a corrupção, mas isso vai depender de como se movimentará o mundo depois da pandemia de Covid-19 .

Ainda durante a Lava-Jato, Moro cogitava a possibilidade de passar algum tempo fora do Brasil, desenvolvendo algum projeto em universidade estrangeira e fazendo palestras sobre o rastreamento de dinheiro sujo - algo que ele sabe bem como funciona, tanto na área de corrupção governamental como no tráfico de drogas e armas.

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Antes da Lava-Jato, Moro foi responsável por colocar na prisão o traficante Fernandinho Beira-Mar, numa operação que incluiu rastreamento da lavagem de dinheiro promovida dentro e fora do Brasil . Também foi ele quem ratificou o primeiro acordo de delação do doleiro Alberto Youssef, dentro da Operação Banestado, que investigou uso de contas de transferência de recursos para o exterior, na época batizadas de CC-5.

No momento, essa opção deve ficar em segundo plano, não só pela pandemia causada pelo coronavírus, mas pela efervescência política do país e da suspeita de que o ex-juiz tomou gosto pelas disputas de poder em Brasília.

O nível de popularidade de Moro o credencia para continuar na política e sair da posição de subalterno - como foi com Bolsonaro, sujeito a uma série de constrangimentos. Amigo de Moro, o advogado Luis Felipe Cunha, de Curitiba, avalia que o agora ex-ministro precisa levar em consideração o seu papel social ao decidir pelo seu futuro.

- Penso e digo que o Sergio Moro já não pertence apenas a si mesmo. Ele é um patrimônio da sociedade brasileira e essa responsabilidade precisa ser considerada em suas decisões para o futuro. Muitos que apoiavam esse governo o faziam pela figura do Sergio - afirma.

Leia mais: Moro pede demissão e diz que indicações políticas não são aceitáveis

Um dos aliados de Moro no campo político é o atual governador de São Paulo, João Doria ( PSDB ). A aproximação começou ainda durante a Lava-Jato, quando Moro participou de encontros promovidos pela Lide, empresa da família de Doria, dentro e fora do país. Um deles foi em 2018, no Lide Brazilian Investment Forum, em Nova York.

Principal rival de Bolsonaro entre os que almejam estar na disputa pela Presidência em 2022, Doria sairia em vantagem num possível acordo com Moro. Mas o Moro que Doria terá de convencer agora é bem diferente do então juiz que negociou com Bolsonaro. Moro agora é gato escaldado. O certo, por enquanto, é que Moro pretende tirar um tempo para descansar.

- Muitas opções surgirão. Por ora, entretanto, após um longo período de trabalho ininterrupto, um tempo de descanso é mais do que recomendável - diz o colega curitibano.

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