O cadáver que estava em um saco plástico pertencia a uma outra idosa
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O cadáver que estava em um saco plástico pertencia a uma outra idosa

A troca de prontuários de duas idosas internadas no Hospital Geral de Nova Iguaçu (HGNI), na Baixada Fluminense, causou uma situação dolorosa para as famílias envolvidas. O erro da unidade levou o filho da aposentada Luíza Helena Maia, de 78 anos, a ir até Volta Redonda reconhecer o corpo da mãe, que deveria ter sido transferido para o Hospital Zilda Arns, no Sul Fluminense.

Porém, quem estava lá era Deusalina Albernaz, de 74 anos. Ambas faleceram com suspeita de Covid-19, mas em locais diferentes do que constavam em suas certidões de óbito.

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Apresentando sintomas como febre e dificuldade para respirar, a aposentada estava internada com suspeita de coronavírus desde o último dia 7, no Hospital da Posse.

No sábado, a família teve um fio de esperança ao receber um aviso do hospital, informando que a idosa havia sido transferida para uma unidade de referência no tratamento da doença, em Volta Redonda, a cem quilômetros de Nova Iguaçu.

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No dia seguinte, um telefonema informou que a aposentada havia falecido. Filho de Luíza, o técnico em telecomunicações Gustavo Félix Maia, de 39, foi no mesmo dia ao hospital, onde recebeu uma declaração de óbito em nome da mãe. Na última segunda-feira, ele voltou a Volta Redonda para liberar o corpo da mãe, acompanhado de uma funerária, a fim de agilizar o sepultamento.

Minutos depois de ser chamado para fazer o reconhecimento oficial, o técnico de telecomunicações veio a surpresa. O cadáver que estava em um saco plástico pertencia a uma outra idosa. Sua mãe nunca fora transferida para o local. Pior ainda. No horário em que o episódio ocorreu, Luíza ainda estava viva. Ela acabou morrendo, uma hora depois, no HGNI.

–Era por volta das 13h. Me mostraram o rosto do cadáver. Olhei e notei logo que não era minha mãe. Tive que esperar por quase uma hora para me informarem depois que uma outra paciente veio transferida com o prontuário e o nome da minha mãe. Voltei para Nova Iguaçu. Por volta das 19h, ao chegar no HGNI, soube que ela morreu naquele mesmo dia por volta das 14h. Ou seja, no horário que me chamaram para fazer o reconhecimento, minha mãe ainda estava viva. Me pediram desculpas, depois, já em Nova Iguaçu. Mas, por causa desse erro só consegui enterrar minha mãe nesta terça-feira. E ainda vou precisar de uma segunda declaração de óbito, que tem de ser expedida pelo HGNI – disse Gustavo Félix.

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A partir do erro constatado pelo técnico de telecomunicações, a família da paciente Deusalina Albernaz, de 74, moradora de Mesquita, e o HGNI descobriram uma troca de prontuários. Ou seja, Deusalina que também estava internada no hospital com suspeita de coronavírus e que morreu domingo, havia sido transferida no sábado, no lugar de Luíza, para Volta Redonda. A exemplo dos parentes da outra idosa, a família de Luíza Helena também decidiu que vai entrar com uma ação na Justiça.

–Vamos entrar na Justiça. Vamos resolver se será uma ação individual ou em conjunto com a outra família também prejudicada. Ainda vamos conversar sobre isso – disse Gustavo.

Mãe de dois filhos, Luíza Helena Maia é descrita por parentes como sendo uma pessoa alegre.

– Minha mãe era calma e muito protetora. Gostava de casa cheia, de família reunida. Ela era a alegria da casa – concluiu Gustavo.

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As mortes das duas idosas ainda não foram contabilizadas nas estatísticas da Secretaria Estadual de Saúde (SES). Segundo o boletim da SES desta terça-feira, a Baixada Fluminense registra 39 mortes e 417 casos de Covid-19. O município da região com maior número de óbitos é Duque de Caxias, com um total de 20 óbitos. Já Nova Iguaçu tem o maior número de casos confirmados, com 122 pacientes.

Falta de UTIs

Procurada para falar sobre a transferência de pacientes da Baixada Fluminense para Volta Redonda, a SES negou que exista falta de leitos de isolamentos na região. A secretaria alegou que as transferências seguem uma estratégia para que uma única unidade ou equipe médica não fique sobrecarregada com a demanda de pacientes com sintomas da doença.

No entanto, um levantamento feito junto às prefeituras dos dois maiores municípios da região, nesta quarta-feira, mostra que as UTIs estão operando em capacidade máxima em Nova Iguaçu e Duque de Caxias. Na primeira cidade citada, todos os 20 leitos de UTI exclusivos para tratar de pacientes graves já estavam ocupados. O município ressaltou que há outros 25 leitos de UTI que estão sendo equipados em contêineres no estacionamento do HGNI. E um hospital de campanha está sendo construído, em parceria com o estado, com capacidade para até 500 leitos, no aeroclube da cidade.

Já Duque de Caxias, nesta quarta-feira, também registra ocupação de 100% nos leitos de UTI para pacientes graves de Covid-19. Segundo o município, mesmo não havendo vaga, em caso de necessidade é acionado o Serviço Estadual de Regulação, para que seja providenciada a transferência de paciente para uma unidade de saúde estadual ou federal.

Procurada para falar sobre a troca de prontuários da paciente Luíza Helena Maia e de Deusalina Albernaz, a Prefeitura de Nova Iguaçu, que administra o HGNI, emitiu a seguinte nota:

"O Hospital Geral de Nova Iguaçu (HGNI) está vivendo um cenário atípico com a pandemia da Covid-19. Além dos atendimentos usuais de urgência e emergência que chegam de toda a Baixada Fluminense (baleados, vítimas de arma branca, esfaqueados e etc), o HGNI precisou se estruturar e adaptar para receber pacientes com sintomas do novo coronavírus. Em quase três semanas, mais de 500 atendimentos foram realizados com uma redução importante no quadro de funcionários, já 150 profissionais de saúde da unidade estão afastados devido à doença. Sobre o caso das pacientes Luíza Helena, de 78 anos, e Deusalina, de 74, o hospital lamenta o ocorrido e está apurando com rigor os fatos que marcaram a transferência. Além disso, acolheu os familiares e também colocou equipes à disposição para auxiliar na parte documental (certidão de óbito).
A paciente Luíza Helena, de 78 anos, deu entrada no HGNI em 07/04, em estado grave, com sintomas da Covid-19. Ela foi atendida na emergência, conforme protocolo estabelecido pelo Ministério da Saúde para casos da doença, o mesmo adotado para qualquer pessoa, e inserida na regulação para ser transferida a um Centro Especializado no tratamento da doença. Em 11/04, a Central Estadual de Regulação liberou a vaga para Luíza no Hospital Zilda Arns, em Volta Redonda. O HGNI precisou providenciar imediatamente a transferência, porém, devido a um equívoco de identificação, uma paciente de 74 anos é que acabou sendo transferida. Vale ressaltar que no momento da admissão, o paciente é reavaliado pela equipe médica da unidade para qual foi transferida. Durante o período de internação, ambas idosas receberam assistência médica e de enfermagem diariamente, com medicações prescritas corretamente para cada quadro clínico".


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