Mike Patton "corrompe" Orquestra de Heliópolis com pop italiano

Apresentação do Mondo Cane, projeto do vocalista do Faith No More, foi prejudicada pelo som do palco Mundo

Marco Tomazzoni, enviado ao Rio de Janeiro |

Mike Patton sempre foi um cara, digamos, inquieto. Não é de hoje que o vocalista do Faith No More se dedica a projetos paralelos não muito normais. Mas comparado ao Fantômas, por exemplo, o Mondo Cane é dos mais saudáveis. O roqueiro trouxe ao Rock in Rio a turnê do álbum lançado no ano passado, totalmente dedicado ao pop italiano dos anos 1960. Se em estúdio Patton foi acompanhado por um orquestra de 65 pessoas, no Brasil ele tocou ao lado dos integrantes da Orquestra de Heliópolis, programa de formação de jovens na periferia de São Paulo. Não é exagero dizer que Patton corrompeu os garotos. Ainda bem.

Agência Estado
Mike Patton durante a apresentação do Mondo Cane, no palco Sunset do Rock in Rio
O show teve início muito depois do previsto – marcado para terminar às 19h, começou às 19h50, depois que o NX Zero se despediu. Aí as cordas da orquestra puderam ser ouvidas sem dificuldade e Patton, com seu visual de canalha latino – cabelo besuntado e penteado para trás, blazer, camisa debotoada no colarinho e fivela enorme no cinto – entrou em cena para comandar o espetáculo.

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Não durou muito tempo. Com quarenta minutos de apresentação, o Stone Sour começou a tocar no palco Mundo. O hard rock dos norte-americanos chegava alto ao palco Sunset e, claro, as músicas delicadas do Mondo Cane sumiram. "Calem a boca", vociferou Patton, incrédulo, no microfone. Não adiantou. Duas músicas inaudíveis vieram na sequência e o jeito foi pedir a conta.

Antes disso, as coisas iam muito bem. A lado de Patton no palcos, todos, assim como ele, estavam vestidos de preto: na bateria, baixo, flauta, as backing vocals e o maestro que conduzia a orquestra. As exceções eram justamente a orquestra, uniformizada com camisetas da Seleção Brasileira, e o tecladista, alinhado num smoking.

O figurino solene está de certa forma relacionado ao repertório. O pop italiano sessentista tem uma aura de sofisticação similar ao que música popular norte-americana, comandada por Frank Sinatra, tinha na época. Só que muito mais assoviável e chiclete: as canções grudam com a maior facilidade e a cabeça e os pés, teimam em acompanhar.

Patton percebeu esse potencial e teve coragem para encarar a excentricidade. Ao vivo, ele mostra não ser lá muito familiarizado com a língua italiana – em alguns momentos parece que está cantando num idioma completamente diferente –, mas se sai bem melhor que a maioria de seus compatriotas.

A questão é que o roqueiro mantém a postura que tem à frente do Faith No More. Isso significa andar sem parar pelo palco, jogar os punhos para o ar constantemente e até escarrar no chão. Os poucos que teimaram em gritar "Faith No More" foram recompensados com urros típicos do vocalista em "L'Urlo Negro" e "Deep Down", em que até a bateria aumentava o peso. Aí o público reagia com vontade – era, afinal de contas, o que eles esperavam desde o início.

Falar "do caralho, Rio" também ajudou a manter esse espírito, que contaminou os jovens instrumentistas. Logo no início Patton mostrou ter ensaiado algumas manobras e regeu os garotos, que antes já faziam o sinal de "metal" com as mãos: eles bateram os pés, ergueram os arcos dos instrumentos para cima, levantaram, sentaram e riram muito. Bem distante da sisudez do mundo erudito. Patton se divertia como nunca vendo os moleques serem mal-criados. Isso sim, ele deve ter pensado, é trabalho social.

A descontração só ajudou a deixar a músicas do Mondo Cane ainda mais deliciosas. O volume do som não ajudou muito, é verdade, mas ouvir "Storia d'Amore", "Lontano, Lontano", "Il Cielo in una Stanza" e outras preciosidades italianas com a intensidade imposta por Patton é uma oportunidade rara. Um dos melhores momentos de sábado no Rock in Rio.

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