Junta militar do Egito pede desculpas por mortes de manifestantes

Cessar-fogo negociado por clérigos muçulmanos entra em vigor na tentativa de encerrar choques entre polícia e ativistas

iG São Paulo |

A junta militar que governa Egito há nove meses pediu desculpas nesta quinta-feira pela morte de civis durante protestos pró-democracia no país e admitiu que a polícia cometeu violações de direitos humanos. Um cessar-fogo entre policiais e manifestantes entrou em vigor às 6h (horário local), suspendendo a violência após cinco dias de intensos choques que deixaram ao menos 37 mortos, de acordo com o Ministério da Saúde. Fontes da oposição falam em até 40 vítimas.

AP
Manifestantes e forças de segurança são separados por arame farpado na Praça Tahrir, no Cairo (24/11)

Em pronunciamento na TV, dois dos generais que comandam o país prometeram punir os responsáveis pela violência, em uma nova tentativa de acalmar os manifestantes que pedem a saída imediata dos militares do poder.

Os generais ofereceram “seus pêsames a toda a população do Egito”. Muhammad al-Assar expressou “o arrependimento e as desculpas das Forças Armadas pela tragédia”. “Nossos corações sangram pelo que aconteceu. Esperamos que essa crise acabe e que, se Deus quiser, não se repita”, acrescentou.

Posteriormente, o general Mohammed Mokhtar el-Mulla afirmou em coletiva que será garantida a segurança da eleição legislativa que começa na segunda-feira, admitindo as violações pela polícia. "A princípio, pessoas que atacaram o Ministério do Interior foram perseguidas com gás lacrimogêneo e cassetetes, mas depois os policiais foram para a Praça Tahrir, e isso foi uma violação", admitiu, expressando a esperança de que os manifestantes permitam que a votação ocorra com sucesso.

Ao mesmo tempo, porém, ele negou que a polícia tenha usado munição real contra os manifestantes, apesar de o Ministério da Saúde ter confirmado na quarta-feira que algumas das mortes foram causadas por disparos .

Leia também: Chefe de direitos humanos da ONU cobra investigação no Egito

Nas ruas, o pedido de desculpas não pareceu comover os manifestantes. “Queremos ouvir que eles estão indo embora”, afirmou o ativista Khaled Mahmoud. 

O cessar-fogo que entrou em vigor nesta quinta-feira foi negociado por clérigos muçulmanos. Os manifestantes fizeram uma corrente humana nas ruas próximas à Praça Tahrir, epicentro dos protestos, para impedir que alguém se aproximasse da polícia para tentar violar o acordo. No local, há muitos destroços, sapatos, máscaras cirúrgicas e fuligem.

Na quarta-feira, o Ministério do Interior egípcio pediu à Justiça que analise as acusações contra a polícia por uso excessivo da força, atendendo a um apelo da ONU para que se averigue a repressão aos protestos. O titular da pasta da Saúde, Amro Helmy, admitiu que vários dos mortos foram baleados.

Helmy acrescentou que seu Ministério analisa o gás lacrimogêneo utilizado pela polícia após receber denúncias de que são mais fortes do que os utilizados habitualmente para dispersar protestos. No entanto, um dos médicos voluntários na Praça Tahrir, Amro Murada, explicou à EFE que foram encontrados tubos de gases que estão proibidos nos EUA por seus efeitos secundários e cancerígenos.

O caso também foi denunciado pela ONG Human Rights Watch, que recebeu testemunhos de que as forças da ordem apontam para o rosto dos civis ao disparar balas de borracha ou munições letais.

Na noite de terça-feira, o marechal Hussein Tantawi, que dirige o Egito desde a renúncia do presidente Hosni Mubarak , comprometeu-se a realizar eleições presidenciais até o fim de junho para transferir o poder totalmente para autoridades civis, mas não mencionou especificamente uma data para a transição. Antes, a junta militar havia marcado as eleições presidenciais para o fim de 2012 ou o início de 2013.

Em seu discurso na TV, Tantawi disse que os militares estão preparados para realizar um referendo sobre a transferência imediata de poder se a população fizer essa reivindicação. Ele também afirmou que está mantida a data da votação legislativa (que será realizada em três fases a partir do dia 28) e que será estabelecido um governo de salvação nacional após o gabinete ter apresentado sua renúncia na segunda-feira.

Com BBC, AP e EFE

    Leia tudo sobre: egitomundo árabecairojunta militarhosni mubarak

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG