ONU tem lista de sírios envolvidos em 'crimes contra a humanidade'

Lista está em relatório de brasileiro que será debatido na próxima semana; ONU nomeia enviado especial e jornalista francesa pede ajuda

iG São Paulo |

O Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos tem uma lista confidencial de funcionários políticos e militares sírios de alto escalão envolvidos supostamente em "crimes contra a humanidade" durante a repressão contra o levante popular antigoverno de 11 meses, segundo um relatório de uma comissão de investigação internacional. Os especialistas da ONU indicaram que a lista vai até o presidente sírio, Bashar al-Assad.

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Chamas saem de casa atingida por bombardeio no bairro de Baba Amr, na Síria (22/02)
As informações sobre o relatório surgiram no mesmo dia em que o ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan foi anunciado como enviado especial da organização para o país árabe.

"Existem provas confiáveis, consistentes com outras circunstâncias verificadas, que fornecem elementos razoáveis para acreditar que indivíduos em particular, incluindo oficiais de comando nos níveis mais altos do governo, têm responsabilidade por crimes contra a humanidade e outras fortes violações contra os direitos humanos", indicou o relatório da Comissão Internacional Independente de Investigação sobre a Síria, que foi nomeada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU e é liderada pelo brasileiro Paulo Sergio Pinheiro.

"A comissão depositou diante do Alto Comissariado um envelope lacrado que contém o nome dessas pessoas", informaram os investigadores. O documento não especifica quem podem ser essas autoridades sob investigação, mas a liderança do principal órgão de direitos humanos da ONU previamente pediu que o caso sírio fosse referendado ao Tribunal Penal Internacional em Haia.

O documento também aponta que "abusos de direitos humanos" foram cometidos por células do Exército Sírio Livre (ESL, opositor). Mas, apesar disso, o relatório diz que "(os abusos) não são comparáveis em termos de escala e organização aos realizados pelo Estado". "A maioria dos crimes contra a humanidade e das violações de direitos humanos foi realizada no âmbito de operações complexas (...) que, em consequência, exigiram ordens superiores", denunciam.

O governo sírio "fracassou em proteger seu povo", denunciou a comissão de investigação internacional sobre a Síria. "Desde novembro de 2011, suas forças cometeram sérias, generalizadas e sistemáticas violações dos direitos humanos", escreveu a comissão, que interrogou 136 novas vítimas desde novembro, data de seu relatório anterior.

Primeiro relatório: Tropas sírias mataram centenas de crianças, diz relatório da ONU

A linguagem do relatório - que deve ser debatido em uma reunião especial do Conselho de Direitos Humanos da ONU em Genebra na próxima semana - também oferece apoio específico para uma intervenção militar internacional na Síria, disse Andrea Bianchi, de direito internacional no Instituto de Graduação de Geneva.

Milhares de sírios morreram na violência desde março e o painel, citando o que descreve como uma fonte confiável, disse que ao menos 500 crianças estão entre os mortos . Dezembro foi o mês mais sangrento, com 80 crianças mortas, seguido de janeiro de 2012 (72).

A ONU divulgou sua última estimativa de mortes no conflito em janeiro, dizendo que 5,4 mil foram mortos apenas em 2011. Mas centenas foram mortos desde então, de acordo com grupos ativistas, que afirma que o total de mortos estaria agora em 7,6 mil. Não há como verificar os números de forma independente, já que a Síria proíbe a atuação de quase todos os jornalistas internacionais e organizações de direitos humanos.

Confrontos em terra

As informações sobre o relatório surgiu enquanto o regime de Assad manteve a ofensiva contra o bastião opositor em Homs, no 20º dia de bombardeios contra a cidade, que fica no centro do país. De acordo com militantes, bairros da cidade foram violentamente bombardeados, principalmente Baba Amr, que sofreu com explosões "aterrorizantes".

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Fotos mostram a jornalista americana Marie Colvin (E) e o fotógrafo francês Remi Ochlik. Os dois foram mortos na quarta e não há informações sobre onde estão seus corpos
A situação no país piora a cada dia diante do impasse da comunidade internacional sobre os meios para resolver a crise. Os ataques em Homs são tão intensos que torna difícil a comunicação com os militantes.

Em Homs também existe a incerteza sobre o destino dos corpos da americana Marie Colvin, jornalista do Sunday Times, e do fotógrafo francês Rémi Ochlik, mortos na quarta-feira em um bombardeio. Ferida no mesmo ataque, a francesa Edith Bouvier pediu por meio de um vídeo postado online por ativistas para ser retirada imediatamente da Síria porque precisa de ajuda médica urgente.

Cobertura de risco: Jornalistas ocidentais são mortos em Homs, na Síria

O regime sírio negou nesta quinta-feira qualquer responsabilidade no caso, justificando que os dois jornalistas assumiram os riscos ao entrar clandestinamente no país. Mas, segundo militantes e o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), o edíficio transformado em "centro de imprensa" onde estavam os jornalistas foi deliberadamente atingindo depois que os aviões de reconhecimento "captaram sinais de transmissão".

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), que recebeu na quarta-feira em Genebra membros do Conselho Nacional Sírio (CNS), principal coalizão da oposição, fez um apelo por tréguas diárias de duas horas para permitir a entrada de ajuda humanitária, uma ideia aprovada pela Rússia, que continua a se opor aos "corredores humanitários" propostos por Paris.

*Com AP, AFP e EFE

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