Manifestantes entram em confronto com a polícia no Cairo

Confronto, que matou ao menos três e feriu mais de 100, ganhou força quando fotos de jovem ferido foram publicadas na internet

iG São Paulo |

Policiais e manifestantes voltaram a entrar em confronto no Cairo, capital do Egito, nesta sexta-feira. O estopim dessa nova onda de violência aconteceu quando um acampamento de manifestantes montado em frente ao prédio do governo foi desmontado por agentes de segurança. As forças do governo expulsaram os presentes, que pediam o fim do governo controlado pelos militares.

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AP
Mulher vestindo niqab apanha de soldados em confronto no Cairo

Os confrontos destacam uma tensão latente entre ativistas e as forças da segurança e retomam a violência após a realização de uma eleição pacífica na quarta e na quinta-feira, cujos resultados estão sendo contabilizados nesta sexta.

Segundo ativistas, ao menos três pessoas foram mortas durante os confrontos. Sahar Abdel Mohsen, uma jovem ativista, disse que viu dois corpos chegando ao hospital do Cairo, ambos feridos por tiros. "O sangue ainda estava escorrendo da cabela de um deles. O outro corpo havia levado um tiro no peito.

Emad Effat, um clérigo do Al-Azhar, instituição religiosa mais eminente do país também teria sido morto, informou o ativista Ibrahim el-Houdaiby à AP. Ele disse que Effat - que tem uma posição crítica aos militares - foi atingido no coração por uma bala após se unir aos protestos.

De acordo com a rede de televisão CNN, o porta-voz do Ministério da Saúde, Hisham Shiha, confirmou que dois adolescentes e um estudioso islâmico tinham sido mortos com tiros. Ele também afirmou que ao menos 100 pessoas ficaram feridas.

Os manifestantes que estavam acampados há três semanas em frente ao prédio do gabinete egípcio reivindicam que os militares, que estão no poder desde o encerramento de três décadas do regime autoritário do presidente Hosni Mubarak , transfiram o governo para autoridades civis.

Um ativista publicou uma foto na internet de uma manifestante apanhando nos confrontos, e outros disseram que a polícia militar deteve todos os presentes por um breve momento. Não ficou claro quantos manifestantes ainda estão sob custódia.

Em sua conta no Twitter, Mohamed ElBaradei, uma figura marcante dos protestos pela reforma e vencedor do Nobel , condenou a violência. "Se o acampamento era contra lei, não é a crueldade e a brutalidade usada para desfazê-lo uma violação maior a todas as leis dos direitos humanos? Não é assim que as nações devem ser governadas", ele escreveu.

De acordo com os manifestantes, os choques com a polícia tiveram início na noite de quinta-feira depois que soldados bateram com violência em um jovem que estava no acampamento.

Centenas de pessoas se uniram ao protesto assim que fotos e vídeos que mostravam o homem ferido sendo carregado foram publicados na internet. As fotos mostravam seu rosto e olhos machucados e inchados, sua cabeça envolta em uma gaze e sangue escorrendo pelo nariz.

Testemunhas acusaram a polícia militar de ter afastado o homem da multidão e ter batido nele dentro do Parlamento, próximo à sede do gabinete. Então, manifestantes jogaram pedras e bombas contra as forças de segurança.

O ativista Hussein Hammouda disse que os militares responderam atacando os manifestantes com pedras e pedaços de vidro de dentro dos portões próximos ao prédio do Parlamento. "As tensões entre as pessoas e os oficias da segurança estão tão inflamadas que qualquer coisa que acontece vira uma explosão. Não há confiança entre os dois lados", disse Hammouda, que saiu da polícia em 2005 em protestos à prática da coorporação.

O manifestante Mostafa Sheshtawy disse que as forças de segurança queimaram as barracas dos manifestantes na madrugada para acabar com o acampamento. Dezenas de pessoas estavam acampadas em frente à sede do gabinete depois da violência que sacudiu a praça Tahrir em novembro, quando mais de 40 civis foram mortos nos conflitos com a polícia.

Insatisfeitos com a forma que os militares estão promovendo a transição de poder no Egito, manifestantes nesta sexta-feira gritavam pelo fim do governo militar e alguns pediam a execução de Hussein Tantawi, que chefia o Conselho Supremo das Forças Armadas.

Sheshtawy disse que dezenas de manifestantes tratavam seus ferimentos nesta sexta em um hospital nas redondezas. "É muito irônico que os militares estejam joganto pedras nos manifestantes de dentro do prédio do Parlamento, onde há um sinal pendurado que diz que a democracia é o poder do povo."

Horas depois do pôr-do-sol, centenas de manifestantes se juntaram ao protesto, enquanto a repressão continuava, com jovens se escondendo atrás de barreiras de metal e de um carro, de onde atiravam pedras contra uma fileira de policiais dispostos em frente ao Parlamento.

Foram registrados alguns tiros sendo disparados dos telhados de prédios. Um manifestante, Islam Mohammed, disse que um amigo tomou um tiro no estômago. "Ele tomou um tiro no meu lugar e caiu no chão. Eu tenho seu sangue na minha camiseta e nas mãos", disse Mohammed.

Dois membros de um painel de conselho civil criado pelos militares no início do mês se demitiram em protesto ao uso da força. Os militares criaram esse grupo como um gesto de boa vontade com os manifestantes. Alguns dos parlamentares eleitos também condenaram a violência policial.

A Irmandade Muçulmana, grande vencedora das eleições parlamentares até o momento, disse em comunicado que rejeita a repressão aos manifestantes e o uso do prédio do Parlamento para atacar as pessoas.

Em um comunicado lido pela TV estatal na sexta-feira de noite, o conselho que governa o país disse que suas forças não tinham intenção de acabar com o protestos e disse que os agentes mostraram auto-controle, negando o uso de armas de fogo. O comunicado afirmava que o confronto começou quando um militar foi atacado enquanto tentava impedir que manifestantes invadissem o prédio do Parlamento.

Com AP

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