Relatório da ONU mostra que Síria lançou ataque químico, dizem EUA e Reino Unido

Por Leda Balbino - de Nova York* | - Atualizada às

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Embaixadores na ONU afirmam que tipo de foguete e qualidade do sarin confirmam responsabilidade do regime

O relatório de inspetores da ONU mostra que o regime do presidente sírio, Bashar al-Assad, é responsável pelo ataque com gás neurológico sarin lançado nos arredores de Damasco em 21 de agosto, afirmaram os EUA e o Reino Unido após a divulgação do documento em Nova York nesta segunda-feira. Em Paris, o chanceler francês, Laurent Fabius, também afirmou que o documento comprovava a culpa do regime de Assad.

Armas químicas: Relatório da ONU confirma uso de sarin em ataque na Síria

AP
Samantha Power, representante dos EUA para a ONU, faz pronunciamento durante coletiva após reunião do Conselho de Segurança na Síria

Apesar de a missão de inspetores não ter sido encarregada de verificar quem seria responsável pelo ataque, os embaixadores dos EUA e do Reino Unido na ONU afirmaram que os aspectos técnicos do relatório - tipo de foguetes usados no ataque, suas trajetórias e a qualidade do sarin empregado - provam que só o governo teria a capacidade de lançar esse tipo de ataque em larga escala.

“Só temos informação de que o governo, e não a oposição, tem o tipo de foguete usado para lançar o ataque”, afirmou a embaixadora americana Samantha Power, relembrando que um relatório de inteligência dos EUA previamente divulgado indicava que os foguetes foram disparados de uma área sob controle do governo.

“Desafiaria a lógica pensar que a oposição infiltraria uma área do regime para lançar um ataque contra si mesma”, afirmou em coletiva após reunião do Conselho de Segurança. "O regime sírio tem sarin, enquanto não há evidências de que a oposição tenha", acrescentou.

Segundo o governo americano, o ataque de 21 de agosto deixou mais de 1,4 mil mortos, incluindo centenas de crianças. Mas as agências de inteligência da França e do Reino Unido, bem como a organização Médicos Sem Fronteiras, apontam um número bem menor de mortos.

Mortos: Ataque químico da Síria deixou 1.429 mortos, dizem EUA

"Falando previamente a Samantha Power, o embaixador do Reino Unido na ONU, Lyall Grant, fez declarações similares. "Não foi um uso artesanal de armas químicas", afirmou. Segundo o diplomata britânico, o relatório dos inspetores mostra que a quantidade de sarin empregada no ataque do dia 21 foi 35 vezes maior do que a usada em um ataque contra o metrô de Tóquio, no Japão, em 1995.

AP
Secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, faz pronunciamento sobre relatório do ataque químico de 21 de agosto na Síria

Pior ataque em 25 anos

Em suas declarações, a embaixadora americana corroborou essa informação, enfatizando que a qualidade do sarin usado no ataque sírio era superior ao do programa do ex-presidente iraquiano Saddam Hussein (1979-2003) durante a guerra Irã-Iraque (1980-1988).

Em coletiva logo após informar o Conselho de Segurança sobre as informações do relatório, o secretário-geral da ONU, Ban ki-moon, afirmou que o ataque do dia 21 representa o uso confirmado mais significativo de armas químicas contra civis desde o ataque de Saddam contra iraquianos de etnia curda em Halabja, em 1988.

Entenda: Saiba o que é o sarin, arma química letal usada no conflito sírio

Ao principal órgão da ONU, o chefe da organização afirmou que testes feitos com amostras de sangue retiradas de 34 de 36 pacientes com sinais de envenenamento comprovaram a exposição ao sarin. De acordo com Ban ki-moon, “85% das amostras de sangue deram positivo para o gás sarin”, com as vítimas tendo apresentados sintomas claros associados a esse agente, incluindo perda de consciência, falta de ar, visão embaçada, inflamação ocular, vômitos e convulsões.

O relatório foi divulgado depois de os EUA e a Rússia terem alcançado no sábado, após dias de negociações em Genebra, um plano de acordo para pôr as armas químicas sírias sob controle internacional. O documento determina que Assad forneça um inventário de seu arsenal químico até o fim desta semana e entregue todos os componentes de seu programa até meados do próximo ano. O objetivo final é destruir as armas químicas da Síria.

Sábado: Acordo entre EUA e Rússia prevê destruir arsenal químico sírio em 2014

Origem: Saiba mais sobre armas químicas da Síria; Irã ajudou a produzir arsenal

Veja imagens do ataque químico de 21 de agosto:

Imagem fornecida pelo Gabinete de Mídia de Douma mostra sírio ao lado de corpos de vítimas mortas por suposto ataque químico. Foto: APCrianças afetadas por suposto ataque químico respiram com máscaras de oxigênio no subúrbio de Saqba, Damasco. Foto: ReutersSírios tentam identificar corpos depois de suposto ataque químico em Arbeen, subúrbio da Síria. Foto: APMenino que sobreviveu a suposto ataque químico chora em abrigo montado dentro de mesquita no bairro de Duma, Damasco. Foto: ReutersHomem e mulher velam corpos de sírios após suposto ataque com gás venenoso lançado pelas forças do regime de Assad. Foto: APJovem que sobreviveu a suposto ataque químico chora dentro de mesquita em bairro de Duma, Damasco. Foto: ReutersHomem, afetado pelo que ativistas dizem ser gás neurológico, respira com ajuda de máscara de oxigêneo em subúrbio de Damasco. Foto: ReutersImagem fornecida pelo Comitê Local de Arbeen mostra corpos de sírios enfileirados em Arbeen, Damasco. Foto: APSegundo ativistas da oposição, armas químicas teriam matado centenas. Foto: BBCSírios colocam corpos de vítimas de suposto ataque químico em vala comum em Hamoria, área nos subúrbios a leste de Damasco. Foto: Reuters

O plano de acordo suspendeu indefinidamente o que, até o mês passado, parecia ser a possibilidade de um ataque iminente dos EUA contra a Síria em retaliação ao ataque químico. A Síria, que nega a acusação e responsabiliza os rebeldes antigoverno pelo ataque, contou com sua aliada Rússia para evitar ser alvo de uma operação militar externa.

Aliados: Por que a Rússia e a China apoiam a Síria?

Ameaça: Em Israel, Kerry envia recado à Síria: 'Ameaça de uso de força é real'

Os EUA, porém, mantêm a advertência de que a opção militar continua sobre a mesa se a diplomacia fracassar com o descumprimento do plano pela Síria. “A ameaça de força é real”, alertou o secretário de Estado americano, John Kerry, no domingo em Jerusalém.

*Repórter viaja como bolsista da Dag Hammarskjöld Fellowship, da ONU

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