Líder do PMDB do Rio detalha tática para partido governar até 2022

Derrotado para o Senado em 2010, ex-deputado Jorge Picciani diz que Sérgio Cabral está pronto para disputar a presidência em 2014

Flávia Salme, iG Rio de Janeiro |

Divulgação DS Comunicação
Picciani defende que o governador Sérgio Cabral concorra à presidência em 2014 e que o prefeito Eduardo Paes dispute o governo do estado em 2018
“O PMDB tem que raciocinar de 2012 a 2018”, diz o presidente da sigla no Rio de Janeiro, o ex-deputado estadual Jorge Picciani, ao apresentar a estratégia da legenda para as eleições municipais no ano que vem. Aos 56 anos, recém-curado de um câncer na bexiga após ser derrotado na corrida ao Senado em 2010, ele afirma que os planos do partido que controla por quase oito anos o governo do Rio de Janeiro têm que ser de longo prazo.

No que depender do ex-presidente da Assembleia Legislativa do Estado (por quatro mandatos consecutivos, ganhos por unanimidade), o governador Sérgio Cabral será lançado candidato a presidente da República em 2014. Sobre o prefeito Eduardo Paes, ele afirma: “Está reeleito em 2012” e “Pode voltar como candidato ao governo do Rio em 2018, após ficar dois anos sem mandato”.

Com alianças fechadas com 18 partidos a favor da reeleição de Paes, Picciani está convencido de que o PMDB-RJ sairá das disputas sucessórias municipais com o comando de 40 prefeituras. “Temos boas chances em 48 cidades, mas acho que faremos 40 prefeitos”. Se o prognóstico se confirmar, a sigla terá aumentado em cinco cidades o seu controle, mantendo a liderança no Estado (que tem 92 municípios).

O PT, com o qual está coligado na capital, não preocupa o cacique do PMDB-RJ. “Não tem quadros fortes aqui, tem em nível nacional. Nas eleições municipais pode até ser que o PR ( comandado no estado por seu ex-aliado, o deputado federal e ex-governador Anthony Garotinho ) tenha uma força maior que o PT”, avalia.

Picciani é estatístico de formação. No passado, antes de se tornar um homem rico investindo em gado (ele tem patrimônio declarado à Justiça Eleitoral de R$ 11 milhões), chegou a figurar no quadro de funcionários do IBGE. “Não sei fazer nada se não ler uma pesquisa”, diz.

Ele afirma que política bem-sucedida tem receita: “O governante com menos de 25% de avaliação ‘ruim’ e ‘péssimo’ e mais de 46% de ‘ótimo’ e ‘bom’ faz sucessor”, assegura. “Veja o Garotinho ( mostra uma pesquisa que mantém à sua frente durante duas horas de entrevista ), em algumas cidades do interior a rejeição a seu nome chega a 60%. Garotinho nunca mais será governador do Rio”, desdenha. O ex-governador deixou o PMDB em junho de 2009.

A seguir, Picciani detalha a tática do partido para permanecer no poder e conta detalhes sobre os bastidores da política fluminense. Acompanhe:

iG: Como o PMDB se organiza para 2012?
Jorge Picciani:
O grande desafio é 2014. Mas as eleições do ano que vem são fundamentais para chegarmos lá. O PMDB tem que raciocinar de 2012 a 2018, em função dos quadros que tem. Eu defendo que o Marco Antônio Cabral ( filho mais velho do governador Sérgio Cabral e presidente da Juventude do PMDB-RJ ) seja candidato a deputado federal ou estadual em 2014. Para isso, o governador tem que deixar o governo em março daquele ano para que o Pezão ( vice-governador Luiz Fernando Pezão ) assuma os sete meses restantes e concorra à reeleição. Isso dá três opções a Cabral em 2014: ser candidato à presidência da República, à vice-presidência ou ao Senado. Em qualquer dessas circunstâncias ele garantiria a vitória do Pezão. O Eduardo, que está reeleito em 2012, fica na prefeitura até 2016 e, quando chegarmos lá, o único que teria precedência sobre mim para disputar a prefeitura é o Sérgio Cabral. Eduardo voltaria em 2018 como candidato a governador, depois de ficar dois anos sem mandato.

iG: O senhor faz planos de suceder o prefeito Eduardo Paes?
Jorge Picciani:
Tudo depende do quadro que se configurar para 2014. Posso até abrir mão de não disputar novamente o Senado daqui a dois anos se o Cabral quiser a vaga. A precedência é dele e eu posso ser o seu suplente. Ou me preparo para vir candidato em 2016. Mas não está descartada a possibilidade de eu sair candidato a vice-governador do Pezão, só preciso convencer as pessoas citadas dessas ideias ( risos ).

iG: Em 2010, após ser reeleito, o governador Sérgio Cabral afirmou que não disputaria mais nenhuma eleição. Ele mudou de ideia? A presidência é um sonho do Cabral?
Jorge Picciani:
Acho que a vontade maior do Cabral é a vice-presidência. Mas vice você não disputa e eu acho que ele tem que disputar a presidência, ele está pronto. Ouço apelos nacionais dos militantes para que ele seja candidato, isso tem que ser considerado. Mas acho que no final ele será candidato ao Senado, é o mais lógico.

i G: O PMDB fez acordo com o PT para a reeleição de Eduardo Paes, eles indicarão o vice. Em 2014, porém, as duas siglas pensam em ter candidato ao governo do Rio. O senador Lindberg Farias (PT-RJ) já manifestou desejo de ser pré-candidato. Não vai haver racha na aliança?
Jorge Picciani:
A aliança entre o PMDB e o PT na capital do Rio é uma questão isolada, compreendemos que não tínhamos como não facilitar a reeleição do Eduardo. Era um desejo dele e foi uma tese defendida pelo próprio PT. Apoiamos com algum pesar porque o Muniz ( vice-prefeito, que é do PMDB ) é um quadro extraordinário. Agora, tirando a capital, não sobram muitas opções de aliança com o PT. Não posso dizer que uma candidatura de Lindberg em 2014 não teria chances, nos cabe respeitar. Mas ele não terá vida fácil não.

Leia mais: Eduardo Paes admite ceder vice ao PT no Rio em 2012

iG: PR e DEM pensam em se unir para disputar a prefeitura, em chapa composta pelo deputado federal Rodrigo Maia (DEM-RJ) e a deputada estadual Clarissa Garotinho (PR-RJ). As duas legendas miram em 2014. Da parte do PR, Garotinho já declarou que quer disputar a sucessão de Cabral. Para o PMDB essa movimentação é uma ameaça?
Jorge Picciani:
O Garotinho monta um partido velho ao estilo dele. Em cada cidade ele procura a terceira ou a quarta força que não está aliada conosco, filia ao PR, e tenta montar candidaturas de oposição. Sobre as eleições 2012 no Rio pode até ser que o PR venha a ter uma força maior que o PT, por exemplo. Mas Garotinho não tem densidade na capital. Em relação às eleições estaduais, o PT é mais forte. Em algumas cidades do interior, onde o Garotinho teria mais eleitores, a rejeição ao nome dele é de 60%, está nas pesquisas. Garotinho nunca mais será governador do Rio de Janeiro.

iG: O senhor já foi aliado de Anthony Garotinho, o ajudou a entrar no PMDB (em 2003). O rompimento entre os senhores é político ou pessoal?
Jorge Picciani:
Em geral sou conciliador. Defendi que Rosinha e Garotinho entrassem no PMDB quando eles ficaram sem apoio no PSB e condicionei a entrada deles à candidatura do Cabral ao término do governo Rosinha (em 2007). Tenho certeza de que fui rigorosamente correto com Garotinho e Rosinha enquanto permaneceram no PMDB. Não só os respaldei no parlamento, como ajudei a construir a candidatura da Rosinha em Campos. Mas o Garotinho sempre quis tirar o Cabral e nós não deixamos. Garotinho tem duas características: é ingrato e mentiroso. Ingrato porque disse que me apoiaria ao Senado e não o fez. Ele foi para outro partido e até entendo que não fizesse campanha para mim, mas jogar contra? Ele precisava inventar uma mentira para justificar isso e a mentira foi a de que quis cassar o mandato da filha dele, a Clarissa.

iG: É mentira?
Jorge Picciani:
Como queria cassar a Clarissa? Antes de se candidatar a vereadora, ela acabou desfiliada em Campos. Garotinho me procurou e sugeri a tese da filiação notória, que precisaria de bom respaldo. Fui ao Sérgio Cabral, ao vice-governador Pezão, e todos assinaram a favor dela, inclusive eu. Então, como eu queria expulsar a moça? Volta e meia ele inventa uma mentira, mas eu não travo luta pessoal, travo luta política.

Leia também: TRE-RJ mantém mandato Clarissa Garotinho na Câmara Municipal

DS Comunicação
Picciani sobre apoio de Lula a Crivella e Lindberg: "não guardo mágoas"
iG: Uma das acusações contra o senhor e seus filhos, o deputado federal Leornardo Picciani e o deputado estadual Rafael Picciani, é de enriquecimento ilícito. Sente-se incomodado?
Jorge Picciani:
Claro que incomoda, mas eu tenho rigorosa tranquilidade ao longo de mais de 20 anos de vida pública de que você não encontra uma pessoa que diga e prove algo contra mim. Vira e mexe tem um ex-militante, alguém de ONG, com alguma denúncia. E afirmo que você não vai encontrar uma pessoa que diga que o deputado Picciani propôs alguma coisa ilegal. São tão inconsistentes essas denúncias que a Procuradoria Regional Eleitoral não tem ação contra nós. O Garotinho fica falando essas coisas... Ele é uma pessoa que tem feito da vida uma amargura, um rancor enorme. Ele não tem limite.

iG: Sobre a derrota para o Senado, o senhor ficou chateado com alguém, com o ex-presidente Lula, por exemplo, que pediu votos para os senadores Marcelo Crivella (PRB) e Lindberg Farias?
Jorge Picciani:
Não, eu sou político. O presidente Lula disse ao Michel Temer que gostava de mim e que reconhecia que eu o tinha ajudado. Tanto que ele ( Lula ) esteve no Rio, pegou minha mão, fez fotos comigo. Mas ele falou que tinha compromisso com o Lindberg, a quem havia apelado a desistir de disputar o governo do Rio pelo PT, porque o Lula adora o Cabral. E o Crivella era ligado ao ex-vice-presidente José Alencar e tinha votado durante oito anos a favor do governo Lula. O Lula dizia que o inferno astral dele sempre foi o Senado, ele devia esse apoio aos dois. O Michel me falou isso e eu respondi que era da vida.

iG: O senhor identificou por que perdeu a vaga ao Senado?
Jorge Picciani:
Basicamente por três motivos: o Cabral gravou um texto do Duda Mendonça em que dizia que poderia procurar o Lindberg a qualquer momento porque ele era amigo da Dilma. O Duda parece ter grande talento, via nas pesquisas que eu aparecia como mais preparado e colocou emoção na campanha do Lindberg, que já tinha o Lula, aquele negócio de família, entendeu? Voto você conquista pela emoção. O Cabral não fez minha campanha e eu dependia da colagem. Pedi a ele uma semana para percorrer as cidades, mas ele não conseguiu. A única agenda com o ele era quando a Dilma vinha ao Rio, mas tinha Crivella, Lindberg, um empurra-empurra que não é o meu estilo. Por fim, o Garotinho espalhou santinhos na zona oeste com a imagem dele e do Waguinho (candidato derrotado ao Senado pelo PTdoB). Olha a pesquisa, ali está a diferença de votos ( Picciani obteve 284.852 votos a menos que o senador Marcelo Crivella e ficou em terceiro lugar ).

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