O líder evangélico defendeu ainda que empresas privadas possam continuar contribuindo com as campanhas, em sintonia com os planos do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, a quem chama de "troglodita do trabalho"

Dias depois da segunda onda de manifestações contra a presidente Dilma Rousseff e outros políticos, realizada em 12 de abril, o pastor Silas Malafaia passou pela capital federal para participar da inauguração de um templo. Sem agendas políticas, o pastor não abriu espaço nem para um encontro com o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), seu aliado. “Nada, com ele eu falo aqui no Rio mesmo”, disse em entrevista ao iG .

Silas Malafaia
AP (arquivo)
Silas Malafaia

Apesar de negar qualquer possibilidade de participação na política partidária, Malafaia tem suas pontes no parlamento e contatos ativos com membros da bancada evangélica, engrossando o poder da ala conservadora do Congresso. Ele não rejeita o rótulo de conservador. “Se ser conservador for para defender a família, bons costumes e valores que estão impregnados na história da humanidade, então legal, pode deixar o rótulo, está ótimo. É melhor do que ser um esquerdopata dúbio”.

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Na entrevista Malafaia se disse contrário à tese de financiamento público de campanha e de acordo com a possibilidade de se continuar com as doações de empresas privadas, prática que já conta com maioria contrária do Supremo Tribunal Federal. “Quer dizer que nós é que temos de pagar para os outros fazerem campanha?”, questionou.

“A questão é a regra. Uma sociedade sem limites vai fazer bobagem. Quais são as regras? Quanto uma empresa pode doar? Quantas empresas podem dar a um partido ou a um candidato? É só isso, é botar o limite da brincadeira”, afirma ele, em concordância com os planos de Cunha, que articula um texto de reforma política que mantém o financiamento privado.

Opositor declarado do PT, Malafaia usa cautela para falar das manifestações impeachment da presidente. “Não se pode condenar sem provas. Por mais que se pareça, não significa que é. Provou, tchau”, disse o pastor. Sobre intervenção militar ele é mais taxativo. “Isso é idiotice. Que intervenção militar o caramba. Isso é loucura”.

Controverso por sua visão acerca de direitos de minorias, em espacial de homossexuais e a questão do aborto, Malafaia enxerga essa disputa como um jogo. “O grande problema hoje em dia é que minoria não pode determinar o que pensa e fala a maioria. Aqui é que está a encrenca. A minoria tem lá seus direitos, ok, mas que direitos são esses? Qual é o direito de qual minoria?”.

Confira a entrevista na íntegra:

IG - O que o senhor achou dessa diminuição do volume verificado nas manifestações do dia 12 de abril em relação ao dia 15 de março?

Silas Malafaia - Acho isso normalíssimo. Primeiro pela repetição de data. Por exemplo, Rio de Janeiro, manifestação no domingo não dá certo. Manifestação no Rio para dar certo tem de ser sexta-feira, porque aí pega a Cinelândia, o Centro da cidade. Culturalmente no Rio pode fazer 100 manifestações que domingo nunca vai dar certo, só envolverá o pessoal da zona sul. O restante da cidade não se envolve. Acho também que já tinha feito uma e imediatamente fazer outra ficou muito perto uma da outra. Acho que valeu, faz parte da democracia as manifestações, desde que sejam ordeiras. Apoiei, gravei um vídeo para a primeira. Só achei que repetir no domingo não foi muito estratégico.

Qual estratégia seria melhor?
Acho que a estratégia seria fazer um dia de semana, uma sexta-feira ou segunda-feira, aí sim. Fazer mesmo as pessoas pararem às 17h, fazer onde o pessoal sai do trabalho. Aí acho que isso teria um efeito muito mais violento do que fazer domingo. Acho que para o estilo do povo brasileiro, o brasileiro é muito pacífico. O brasileiro não é politizado como o argentino, que coloca 500 mil pessoas debaixo de chuva para protestar contra a presidente.”

O senhor é favorável ao impeachment da presidente?
Sou favorável ao impeachment desde que existam provas. É querer dar atestado de idiota achar que Lula e Dilma não sabiam de nada. Mas entre eu achar e a prova tem uma distância daqui para Marte. Posso ter minhas conjecturas, mas elas têm de ser respaldadas pelo viés legal, da Justiça, da lei. Não se pode querer o impeachment da presidente porque se acha que ela sabia. Esse não é o viés para dar. Tem de ter provas. Não se pode condenar sem provas. Por mais que se pareça, não significa que é. Provou, tchau. O PT fez isso com o (ex-presidente Fernando) Collor por causa de um Fiat Elba. O Collor não caiu por causa de bilhão. Caiu porque provaram. O PT não pode reclamar. Isso é uma marca deles. Quer dizer que só vale para os outros? Então, se for provado, tem de ter. Se não for provado, aí não. Só por uma questão política, não acho justo.

O que o senhor acha desses grupos mais radicais que pedem intervenção militar? Isso é idiotice. Que intervenção militar o caramba. Isso é loucura. Não tem de ter intervenção militar. Inconstitucional. Isto não tem respaldo legal. Sou contra. Que história é essa? Acabou. É estado democrático de direito pleno. Somos radicalmente contra.”

O senhor é muito próximo do Eduardo Cunha, o que está achando da presidência dele na Câmara?
Primeiro que já sabia, já o conhecia que Eduardo Cunha é um cara que é um monstro para trabalhar. Ele é um troglodita de trabalho. Estou desconfiado que ele é viciado em trabalho. Acho que isso é muito bom para o parlamento. Número dois, se ele não for o maior, talvez esteja entre os três que mais entendem de regimento (interno da Câmara), o que é muito bom um cara que é presidente da Casa entender do regimento interno. E acho que ele está imprimindo um ritmo de trabalho na Câmara que a sociedade não tem visto na última década. Não estou dizendo que ele é perfeito, mas tem mostrado um serviço que acho importante.

O senhor acha que ele seria um bom nome para disputar a presidência em 2018? Nunca conversei com Eduardo Cunha sobre isso, mas se ele continuar dentro desse prisma de trabalho, mostrando que é possível fazer pelo bem do País… Sempre pensei assim, acho que na política, alguém querer ser candidato porque é evangélico, aí não. Acho que o cara, para consquistar alguma coisa na política só pode ser pelo viés político, ser cacifado pelo seu trabalho. Então eu penso que amanhã se o Eduardo, pelo seu trabalho mostrar frutos, ele vai automaticamente, não porque acho ou porque gosto, mas porque é uma coisa automática. Por exemplo, o prefeito do Rio (Eduardo Paes) pode ser um candidato a presidente. Ele, com seu trabalho extraordinário no Rio de Janeiro, vai mostrar que é um grande administrador, então, por essas questões, pode ser um candidato a presidente.

Cabe um presidente evangélico? Considerando a diversidade…
Não por ser evangélico. Estou dizendo uma coisa que defendo. Existe o político evangélico e o evangélico político. O primeiro é o cara que tem vocação para ser político, que construiu uma história. O segundo é o que decide ser candidato por ser evangélico. Não acho que isso seja algo que possa tornar alguém candidato. Ele tem de vir pelo viés político e não pelo viés religioso. A Marina (Silva) é o melhor caso. Ela não foi candidata porque era evangélica. Ela foi porque é política.

A atual legislatura é considerada a mais conservadora dos últimos anos e Eduardo Cunha parece sintetizar essa marca…
Se é conservador, aqueles que falam contra preconceito são os maiores preconceituosos. A pessoa que se utiliza do preconceito, de rotular os outros, está desprezando o debate das ideias. Esse é um joguinho dos mais velhacos que eu vejo. Esses caras que se dizem tão progressistas são os reis de rotular os outros. Se ser conservador for para defender a família, bons costumes e valores que estão impregnados na história da humanidade, então legal, pode deixar o rótulo, está ótimo. É melhor do que ser um esquerdopata dúbio.

Mas o senhor não acha que o conceito de “decisão da maioria” tão usado pelo presidente da Câmara comprometerá as pautas das minorias?
O grande problema hoje em dia é que minoria não pode determinar o que pensa e fala a maioria. Aqui é que está a encrenca. A minoria tem lá seus direitos, ok, mas que direitos são esses? Qual é o direito de qual minoria? Minoria porque é um grupo menor de deputados? Mas está defendendo o quê? O jogo hoje é ideológico. Eu vou na ferida. O jogo hoje é o seguinte: o Ocidente é marcado pelo modelo judaico-cristão e querem mudar o paradigma para o modelo humanista-ateísta. O resto é blá-blá-blá. É a tentativa de mudança de um modelo. Os caras da esquerda têm no DNA deles o comunismo, está falido, mas não saiu do DNA deles. Eles têm um vírus para o qual não há antídoto. Então estão sempre com essa conversa. É a discussão ideológica de paradigma.

O Congresso tentará mais uma vez fazer a reforma política e um dos pontos cruciais é a questão do financiamento privado feito por empresas, apontado como uma das raízes de toda a corrupção...
É a piada. Quer dizer que a contribuição das empresas é que é a raiz de toda a corrupção? Raiz da corrupção é o caixa dois. Agora querem o financiamento público de campanha. Quer dizer que nós é que temos de pagar para os outros fazerem campanha? E olha que tenho um irmão deputado, heim. Na minha opinião, a questão é a regra. Uma sociedade sem limites vai fazer bobagem. Quais são as regras? Quanto uma empresa pode doar? Quantas empresas pode dar a um partido ou a um candidato? É só isso, é botar o limite da brincadeira. Sou contra o financiamento público de campanha.

O que o senhor acha da perspectiva do ex-presidente Lula voltar a disputar a presidência em 2018?
Não é possível. Uma roubalheira desgraçada, um desmando desse e ainda pensar em PT continuar no poder. Isso é uma afronta à inteligência do brasileiro. Pelo amor de Deus, gente. Não posso acusar porque chama-se juízo temerário e eu conheço a vida. Aí eu vou pelo viés religioso. Eu não posso dizer que Lula é ladrão, que Dilma roubou, mas posso dizer que se tem essa roubalheira toda, tem incompetência administrativa. Como pode uma coisa dessas? Isso é uma afronta.

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