Músico conta que maior desafio foi transformar metalúrgico de São Bernardo em esperança nacional; veja Acioli cantando o hit

Em fevereiro de 1989, o músico Hilton Acioli recebeu um telefonema o convocando para um desafio. Apenas com o bordão “Lula lá” anotado em um pedaço de papel, o compositor precisava criar a pedido do PT um jingle que representasse a disputa do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência - durante a primeira eleição com voto direto desde 1960. Apesar da derrota nas urnas contra o ex-presidente Collor, a música "Lula lá" perdurou e foi hino do político petista por 13 anos até 2002, quando conquistaria o cargo de presidente da República.

Compositor Hilton Acioli, de 74 anos
Carolina Garcia / iG São Paulo
Compositor Hilton Acioli, de 74 anos

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Três meses depois, em maio de 89, Acioli apresentou um samba aos que trabalhavam na campanha de Lula no comitê do partido. "Até falei ao Paulo de Tarso [ parte da equipe e de quem recebeu o bordão ]: 'Rapaz, não tem nada melhor que 'Lula lá'. Vai ser isso mesmo", relembra. Durante a apresentação, todos ficaram animados na sala, menos o compositor, que sentiu que faltava "alguma coisa". Insatisfeito, ele prometeu voltar com uma nova música. Foi quando, na manhã seguinte, conseguiu compor a versão final pensando "no Brasil criança" e em toda a fase de esperança que o País vivia. "Aí pronto. Veio a história toda", conta com um leve sotaque nordestino.

Para o músico, que pegou o primeiro violão aos 13 anos ao som de Luiz Gonzaga no Rio Grande do Norte, o maior desafio de sua composição era colocar Lula como uma figura nacional e associá-lo à elite cultural brasileira. "Precisava mostrar que ele não era só um metalúrgico de São Bernardo ou um nordestino, era uma coisa mais geral do Brasil. Foi como colocar uma aura e mostrar que ele era um cara do Brasil desses que a gente admira, como Pixinguinha, Ari Barroso, Tom Jobim." Durante a campanha, Acioli ficou surpreso com o envolvimento popular e de figuras importantes - inúmeros atores globais e cantores da MPB, como Chico Buarque, Djavan e Gilberto Gil. Apesar de não culminar na Presidência, a fórmula grudaria no ouvido de várias gerações de eleitores.

Assista a Hilton Acioli cantando o jingle Lula lá durante entrevista ao iG :

“Era uma possibilidade que o Brasil tinha de ser diferente, eu acreditei nele [ Lula ] e muitas pessoas importantes se engajaram na campanha. Já escutei de um jornalista que a música era azarada, eu não concordo. Se até hoje você escuta e se arrepia até hoje, alguma coisa tem”, defende. Acioli não esconde a admiração por Lula, que começou naquela época e segue até hoje. Para ele, o País passou por grandes mudanças após a entrada do governo petista e segue mudando com a atuação de Dilma, candidata à reeleição.

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“Muitos querem uma cara nova, mas não é por aí. O Brasil já mudou muito de Lula para cá. Mas claro que ainda tem muito a ser feito”, reconhece o músico, deixando claro que nunca teve envolvimento partidário com o PT. E continua: “Só não consigo ver outros candidatos mais atraentes do que o que já está aí."

Acioli marcou sua passagem pela universo da MPB não apenas pelos jingles políticos que escreveu. No período pré-bossa nova, entre os anos 50 e 60, o compositor formou o trio Marayá com Behring Leros e Marconi Campos, dois amigos de infância, sendo que o último “já foi porque fumava demais”. Anos depois, em 1968, Acioli formalizou uma parceira com Geraldo Vandré, com quem fez músicas de protestos. “Me trancava em casa até conseguir compor novas música para os festivais. Era uma troca, eu me trancava e o espírito da fome me dava uma música”, conta aos risos.

Vender jingles virou uma opção aos grandes músicos da época após a chegada do AI-5, que “afunilou” os programas de rádio e televisão e deu fim aos grandes festivais.

'Você pegou a alma do cara'

A histórica “Lula lá” foi lançada no CD O som da estrela do PT , com outras nove canções de Acioli. Um detalhe interessante é de que em nenhum momento o compositor citou o nome do partido nas músicas. O que vale, segundo ele, é a liberdade poética e a beleza do símbolo do partido. Ao apontar uma “estrela que brilha”, dificilmente o eleitor entenderia que se tratava de outro grupo político. “Se você fala sobre o símbolo já mostrou quem é sem nenhum problema”, explica. O compositor se declara contra os jingles que buscam somente repetir os números dos candidatos e coligação partidária. “Aí fica aquela coisa chata que só irrita.”

Acioli recebeu um valor simbólico pelo hit eleitoral, como custos da gravação, alimentação e transporte, já que chegou a acompanhar Lula nas caravanas pelo Nordeste. Como detém os direitos autorais, é até hoje consultado pelo PT para a sua utilização e possíveis adaptações, como o jingle Dilma lá de 2010. Ele se orgulha do que ouviu do maestro Wagner Tiso, responsável pela última versão. “Você não fez um jingle ou uma música, você pegou a alma do cara”, cita.

A relação com o Lula sempre foi ótima, contou o músico. Quando o político conquistou a Presidência, em 2002, Acioli queria mandar uma mensagem ao Planalto, mas não soube como. “Nas caravanas, eu era o companheiro Hilton [ diz imitando o petista ]. E foi bonito ver sua vitória. Eu queria ter falado para o Lula que ele era o cara certo, no lugar certo e na hora certa.”

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