Stédile anuncia ‘urbanização’ do MST: ‘Não adianta só ocupar terras'

Por Vasconcelo Quadros - iG São Paulo |

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Líder do movimento admite que a reforma agrária clássica, baseada em invasões, acampamentos e distribuição de terras, está ultrapassada e é preciso disputar as cidades

A nova fase do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) é mais urbana e traz mudanças nas táticas e no espaço onde se dará a luta pela terra nos próximos anos, segundo o economista João Pedro Stédile, princípal dirigente do movimento, em entrevista exclusiva ao iG: “Se na periferia de São Paulo for preciso hortigranjeiros mais baratos, então vamos fazer desapropriações, inclusive no perímetro urbano, e entregar um ou dois hectares para as pessoas produzirem alimentos.”

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A “urbanização” do MST, conta o dirigente, vem sendo construída com um projeto de alianças com os jovens que encabeçaram a jornada de manifestações de junho do ano passado, os movimentos sociais que lutam por moradia nas grandes cidades e as centrais sindicais. “Só ocupar terras não muda mais a correlação de forças. O MST precisa das alianças com a cidade”, afirma Stédile ao admitir que a reforma agrária clássica, baseada em invasões, acampamentos e distribuição de terras, pela qual o movimento lutou por três décadas, está ultrapassada e perdeu a oportunidade histórica.

Segundo Stédile, ancorada no projeto de uma “reforma agrária popular”, a nova fase será de intensas mobilizações para derrubar o atual modelo político e forçar o governo a promover reformas na economia. “Precisamos mudar os parâmetros da agricultura brasileira. O objetivo principal deve ser produzir alimentos”, afirma.

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O MST quer colocar na agenda oficial um projeto de agricultura familiar baseado na agroecologia e na agroindústria para produzir, em grande escala, alimentos saudáveis e sem os agrotóxicos que fizeram a pujança do agronegócio, mas deixaram pesado saldo de prejuízos à saúde pública.

Na entrevista ao iG, Stédile anuncia a concentração de esforços para o plebiscito pela convocação da Constituinte, critica os números “patéticos” do governo Dilma Rousseff na distribuição de terras e diz que, se não houver mudanças, o país entrará num período de crise prolongada. “As ruas vão gritar com mais força”, alerta. 

Na semana passada, o movimento deu uma demonstração de força. Cerca de 20 mil sem-terra ocuparam as ruas de Brasília para reivindicar ações do governo a favor da reforma agrária e enfrentaram a polícia. E, no dia seguinte à manifestação, foram recebidos por Dilma no Palácio do Planalto.

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