Em 3 anos, Dilma realiza 12% dos assentamentos realizados por Lula em 8 anos

Por Vasconcelo Quadros , iG São Paulo |

compartilhe

Tamanho do texto

Ritmo de assentamentos no Brasil teve grande redução em comparação às gestões Lula e Fernando Henrique Cardoso

O desempenho do governo da presidente Dilma Rousseff é um bom termômetro para explicar a crise na reforma agrária e seu impacto na redução da luta pela terra no Brasil. Segundo dados do Incra, Dilma desapropriou 186 imóveis, num total de 342.503 hectares, incorporou 2.540.772 hectares à reforma agrária e assentou 75.335 famílias. É um resultado pífio quando os números são comparados com os governos Lula (1.987 imóveis, 48.291.182 hectares incorporadas e 614.088 famílias assentadas) e Fernando Henrique Cardoso (3.539 imóveis, 21.129.935 incorporadas e 540.704 famílias assentadas).

Mais: Assentados do MST vendem suas terras por mais de R$ 500 mil

AP
Integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em Brasília

Quando Dilma assumiu, em 2011, o número de famílias acampadas, vivendo debaixo dos barracões de lona preta, girava em torno de 165 mil e, destas, apenas cerca de 45 mil tiveram acesso à terra nos últimos três anos, o que significa que cerca de 100 mil estão há um tempo médio de cinco anos à espera de um programa que o governo simplesmente engavetou.

A implantação de assentamentos para 2014, segundo o próprio Incra, não deve ultrapassar os números do ano passado, em torno de 30 mil famílias, o que deverá manter à míngua e sem perspectivas todo esse contingente de pobres que ainda resiste à beira da estrada. Essa é uma demanda emergente, que o MST - ao elevar levemente o tom das críticas a Dilma - quer resolver ainda este ano, independente das eleições.

Espremido, de um lado, pela expansão do agronegócio e da avalanche de capital estrangeiro na produção soja, de cana de açúcar, milho, celulose e pastagens e, de outro, pela paralisação da reforma agrária, o MST não será mais o mesmo. As táticas radicais de invasão de terras, formação de acampamentos ou confronto com governo e latifundiários que marcaram a disposição para o conflito em três décadas, se não são coisas do passado, foram reduzidos drasticamente. Os acampamentos atuais, assim como a clássica distribuição de terras, desaparecerão. O MST está cada vez mais urbano.

Leia também: 

MST resgata pauta das ruas, mas fica de fora dos protestos contra a Copa

MST busca título mundial de ocupações de latifúndios

“Há dez ou 20 anos, os acampamentos abrigavam famílias inteiras. Hoje são pontos de encontro de finais de semana”, observa o geógrafo Bernardo Mançano Fernandes, da Unesp, apontando outra mudança na base do MST: atualmente apenas 10% dos sem-terra trabalham e vivem no campo; 40% deles trabalham no campo e vivem nas cidades; 50% moram e trabalham nas cidades. É uma mudança e tanto.

Mançano acha que o MST é criativo e saberá se adequar aos novos tempos. Uma das estratégias, segundo ele, é focar na produção de alimentos saudáveis nos assentamentos sob o controle do movimento, um universo de dois milhões de pessoas ou 500 mil famílias - 350 mil famílias vinculados diretamente ao movimento e outros 150 mil indiretos.

Negócios: Com agricultura familiar, MST adere a estratégias capitalistas

O geógrafo Eduardo Girardi diz que a urbanização do movimento é tão significativa que a militância do MST passou a participar e atuar na organização dos movimentos que lutam pela moradia em lugares como a capital paulista. A reforma agrária popular do MST passa, estrategicamente, pela busca de terras próximas às cidades, inclusive nos perímetros urbanos, territórios opostos aos tradicionais espaços dos sem-terra.

Os programas sociais do governo - especialmente o Bolsa Família - minaram a capacidade de recrutamento de trabalhadores para as invasões e produziram um efeito psicológico de difícil superação. Mançano e Girardi afirmam que quem recebe os benefícios do Bolsa Família não quer mais ocupar terra ou acampar, uma vida dura de pelo menos três anos até o acesso a terra.

O presidente do Incra, Carlos Guedes de Guedes afirma que a redução dos assentamentos e da margem de manobra dos movimentos sociais têm uma explicação mais confortável para o governo: o boom da agricultura, com recorde de produção de grãos a cada ano, reduz as terras improdutivas, encarece e dificulta a desapropriação de áreas para a reforma agrária. “Nós vamos continuar fiscalizando aquelas que não cumprem a função social”, afirma.

O MST diz, no entanto, que existem cerca de 600 fazendas onde se descobriu trabalho escravo, sobre as quais, em vez de desapropriar, o governo passou a exigir estudos de viabilidade dos futuros assentamentos - medida estranha a uma base formada por pobres da cidade e do campo.

Leia tudo sobre: mstassentamentossem-terradilma rousseffreforma agrária

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas