'É uma coisa latente', diz neto de Carlos Lacerda sobre morte suspeita do avô

Por Ricardo Galhardo - iG São Paulo |

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No livro 'A República das Borboletas', o neto Rodrigo Lacerda conta 'as memórias póstumas' do homem que se tornou pivô dos fatos que levaram ao suicídio de Getúlio

"Meu pai e eu tínhamos um temperamento francamente marcial. Na medida em que fui incapaz de corrigir esse traço de comportamento só me resta acreditar que havia, sim, determinismos biológicos insuperáveis para eu ser como era, um especialista em sentir raiva”, confessa o ex-jornalista e ex-governador da Guanabara Carlos Lacerda (1914-1977) em um dos muitos momentos de franqueza e autocrítica de suas memórias póstumas “A República das borboletas”, publicado pela Companhia das Letras.

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Reprodução TV Tupi
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O livro é na verdade um romance histórico (ou biográfico) escrito pelo carioca Rodrigo Lacerda. Neto de Carlos, o autor toma a liberdade de escrever em primeira pessoa na voz do biografado já morto, à maneira do Brás Cubas de Machado de Assis, para contar a história da família Lacerda desde 1870 até 1954, ano da morte de Getúlio Vargas, numa espécie de 100 anos de solidão da história política brasileira.

O lacerdismo ficou gravado no imaginário popular pelo “temperamento marcial” do jornalista, as sucessivas tentativas de golpes de Estado e seu papel central no turbilhão de fatos que levou ao suicídio de Getúlio. Não por acaso, carregou até a morte o apelido O Corvo.

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A imagem antipática deste “especialista em sentir raiva” talvez explique o fato de Lacerda ser preterido até hoje, em relação a outros políticos da mesma época e estatura. Lacerda, Juscelino Kubitschek, João Goulart e Tancredo Neves eram os maiores líderes políticos civis do Brasil em 1964, quando os militares instauraram a ditadura. Os três primeiros morreram em circunstâncias até hoje nebulosas em um curto espaço de tempo, entre agosto de 1976 e maio de 1977, pouco antes de poderem reaver seus direitos políticos, quando a ditadura já dava sinais de esgotamento. Investigações sobre as mortes de Juscelino (num acidente automobilístico) e Jango (de enfarto) foram reabertas depois de forte pressão de parentes, ex-companheiros e herdeiros políticos. Já o esclarecimento da misteriosa morte de Lacerda por infarto um dia depois de ser internado na Clínica São Vicente com uma simples gripe continua sem ser reivindicado.

“Isso não é uma coisa viva na família mas é uma coisa latente, uma possibilidade com a qual sempre vamos conviver”, disse Rodrigo Lacerda ao iG. “Nunca pedimos uma investigação, mas também nunca nos opusemos. As coincidências são incríveis mas às vezes penso que a gente superestima a competência dos agentes da ditadura porque o que a gente conhece é o padrão Riocentro. Agora, se descobrirem algo sobre Juscelino e Jango a coisa muda de figura”, concluiu.

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No entanto, a morte e o período de maior sucesso político de Lacerda, durante sua passagem pelo Palácio Guanabara, não são objeto do livro. Nas 515 páginas de “A República das borboletas” é possível ter um panorama dos ciclos que marcaram a história brasileira desde o Segundo Império até a morte de Getúlio por meio da família Lacerda que sempre desempenhou papel relevante na política nacional.

Embora o livro tenha sido escrito antes das manifestações de junho, em vários trechos é possível perceber o caráter cíclico da política brasileira, desde o caldeirão ideológico que marcou o período pré revolução de 1930 até o frenesi popular de agosto de 1954, ambos casos muito semelhantes com o que se viu nas ruas do Brasil seis meses atrás.

O autor destaca ainda outros dois fatos que remetem ao momento atual. O primeiro foi a defesa feita por Lacerda de uma constituinte exclusiva para a reforma política, semelhante ao que a presidenta Dilma Rousseff fez em junho. “Na época Carlos Lacerda foi chamado de golpista por isso”, disse Rodrigo.

O segundo foi a tentativa de campanha movida pelo jornalista contra a construção do Maracanã antes da Copa do Mundo de 1950. “Ele considerava a construção do estádio um desperdício de dinheiro público e foco de corrupção”, lembrou o autor.

De certa forma, fatos como estes, ausentes da imagem comum do “Corvo” ajudam equilibrar o papel de Carlos Lacerda na história brasileira.

“Evitei trabalhar com estereótipos que existem dos políticos da época como Getúlio, Luiz Carlos Prestes, Oswaldo Aranha e também Carlos Lacerda. Quero mostrar o lado mais reflexivo dele. O Carlos Lacerda que aparece no livro está afastado da política há 10 anos, com direitos cassados pela ditadura, sem aquela estridência da disputa política, um personagem muito mais interessante”, disse o autor.

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