Apesar de identificar o risco, lideranças não sabem ainda que postura o partido deve adotar

Manifestantes rasgam bandeira do PT durante protesto na Avenida Paulista
Futura Press
Manifestantes rasgam bandeira do PT durante protesto na Avenida Paulista

Depois de oito horas de reunião na quinta-feira (27) na sede do partido, em São Paulo, dirigentes nacionais e estaduais do PT mostraram ter poucas certezas sobre a onda de manifestações no País, muitas dúvidas e uma grande preocupação: que a forte presença de grupos de direita nas manifestações acabe por criar no Brasil uma divisão social semelhante à que ocorreu na Vanezuela desde a chegada de Hugo Chávez ao poder em 1999.

"Temos de tomar muito cuidado. Se falarmos "vamos para a rua" corremos o risco de deslegitimizar estes movimentos e criar uma direita no Brasil", disse o secretário-geral do PT, Paulo Teixeira.

O deputado Reginaldo Lopes, presidente do diretório estadual do partido em Minas Gerais, foi ainda mais direto. "A rua é o nosso campo mas a verdade é que a direita quer disputar as ruas como fez na Venezuela", disse ele ao iG .

Na maioria das manifestações foram vistos cartazes e faixas com mensagens consideradas de direita ou de oposição como a redução da maioridade penal, destituição da presidente Dilma Rousseff, prisão dos mensaleiros e até a volta da ditadura militar. Em São Paulo, no sábado (22), um grupo de 50 skinheads pertencentes a grupor neofascistas e ultranacionalistas fechou a passeata contra a PEC 37 com uma bandeira do estado.

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Segundo fontes petistas, o primeiro a perceber o risco venezuelização do Brasil foi o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Estimulado por correligionários a usar sua popularidade para mobilizar a população em atos a favor do governo Dilma Rousseff em uma das muitas conversas sobre o assunto na semana passada, Lula teria respondido: "Quem fez conflito de massas foi o Chávez e nós não somos chavistas".

Uma das principais dúvidas do PT no momento é sobre como participar dos protestos para evitar que a pauta de direita prevaleça sem entrar em um clima de confronto com os manifestantes, muitos deles contrários à presença de partidos políticos.

Em entrevista coletiva o presidente nacional do PT, Rui Falcão, disse que o PT vai continuar indo para as ruas. Questionado sobre a forma das manifestações, no entanto, Falcão não soube responder. "Isso ainda não foi discutido".

Na quinta-feira (20) passada, militantes do PT foram hostilizados e agredidos por manifestantes durante um ato organizado pelo Movimento Passe Livre na avenida Paulista.

Na reunião de ontem, alguns dirigentes defenderam que os governadores e prefeitos do PT entrem em campo para dialogar com os manifestantes, negociar pontos específicos da pauta dos protestos e aproximar o PT das ruas. Um dos exemplos citados foi o do governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, que ontem anunciou o passe livre para estudantes na região metropolitana de Porto Alegre.

"A gente quer estabelecer um diálogo, não um conflito", disse o presidente do PT gaúcho, Raul Pont.

Por outro lado, algumas correntes do partido argumentam que o PT não pode abandonar as ruas. "O partido não pode ter uma postura de covardia política", disse o deputado Ricardo Berzoini, ex-presidente do PT.

Existe ainda a preocupação com setores exaltados ligados ao sindicalismo e favoráveis ao confronto. "Vamos colocar o povo na rua com uma pauta de esquerda", disse o presidente nacional da CUT, Vagner Freitas, que está preparando uma grande manifestação em São Paulo para o dia 11 de julho em parceria com outras centrais sindicais.

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