Comissão da Verdade espera concluir exumação do corpo de Jango em agosto

Por Wilson Lima - iG Brasília |

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Entidade contará com cerca de 10 legistas de todo o mundo, a maioria vinda da Rússia; vários elementos podem influenciar no resultado de exames sobre suposto envenenamento

A futura coordenadora da Comissão Nacional da Verdade (CNV) e responsável pelas investigações da Operação Condor, Rosa Cardoso, acredita que o processo de exumação do corpo do ex-presidente João Goulart, deposto pelo Regime Militar em 31 de março de 1964, deve ser concluído até agosto deste ano.

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Oficialmente, Jango morreu na Argentina em 1976, vítima de um ataque cardíaco. Mas a família do ex-presidente suspeita que ele tenha sido envenenado em uma ação da Operação Condor, parceria entre os órgãos repressores do Brasil e da Argentina entre os anos de 1976 e 1980.

Para esse trabalho de exumação do corpo de Goulart, a CNV contará com aproximadamente 10 peritos vindos de vários países, principalmente da Rússia. Essa estimativa de três meses para a conclusão dos trabalhos toma como base a logística que o Brasil precisará adotar para conseguir reunir todos os técnicos envolvidos. Além disso, a família de Goulart pede que peritos cubanos também participem da investigação.

Divulgação
Imagem de "Dossiê Jango"

Esse trabalho também reunirá técnicos e integrantes da CNV, da Secretaria de Direitos Humanos, da Polícia Federal, da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), do Ministério Público do Rio Grande do Sul e da Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro.

O pedido de exumação do Corpo de João Goulart foi feito pela família do ex-presidente durante uma das audiências da Comissão Nacional da Verdade realizadas no Rio Grande do Sul. A primeira reunião de trabalho já com o corpo técnico deve ser realizada no final do mês.

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A Comissão da Verdade e membros do Ministério Público Federal acreditam que os resultados da exumação do corpo de Jango não serão conclusivos. Isso porque, após quase 40 anos de sua morte, técnicos da Polícia Federal, médicos e outros legistas imaginam que, pela deterioração dos ossos do ex-presidente, existe uma grande possibilidade dos laudos apontarem resultado negativo para morte por envenenamento. Até mesmo a madeira do caixão de Jango pode influenciar nos exames.

“É tudo muito impreciso. Mesmo se for positivo (se os exames confirmarem a morte de Jango por envenenamento), pode haver condicionantes”, afirmou a procuradora da República Suzete Bragagnolo, do Ministério Público Federal no Rio Grande do Sul.

O corpo de Jango está sepultado no Cemitério Jardim da Paz, na cidade de São Borja, distante 594 quilômetros de Porto Alegre. No momento, o corpo do ex-presidente tem a vigilância apenas de uma empresa de segurança privada, paga pela prefeitura de São Borja. A segurança foi intensificada desde a última sexta-feira e o município prevê gastar R$ 3 mil por mês com esse serviço.

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O prefeito Antônio Carlos Almeida (PDT) pediu ao Exército para que a corporação assuma a guarda dos restos mortais de Goulart, mas teve seu pedido negado. Na semana passada, Almeida também pediu ao Comando Geral da Polícia Militar do Rio Grande do Sul que a brigada militar disponibilizasse homens para esse trabalho. Até o fechamento desta reportagem, a PM gaúcha não havia confirmado, mas a expectativa é que pelo menos um policial militar fosse deslocado para o local.

Almeida afirmou que investiu em segurança privada como efeito preventivo para evitar que alguém viole o túmulo do ex-presidente. “A exumação do corpo de João Goulart pode mudar toda uma história. Além disso, se acontecer algo, daqui a pouco podem cobrar da prefeitura. Se eventualmente acontecer algo, quem é o responsável? É o prefeito”, afirmou o pedetista.

Alguns representantes dos militares ficaram inconformados com o pedido de exumação do corpo de João Goulart. O assessor especial da presidência do Clube Militar do Exército, general Clóvis Purper Bandeira, afirmou que não acredita em novas provas desse processo de exumação do corpo de Jango. No entanto, ele fez uma ressalva. “O problema não é encontrarem se ele foi envenenado ou não. O problema é que essa Comissão (Nacional da Verdade) sempre vai colocar a culpa nos militares”, disse Bandeira.

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