‘Invisível’ para vizinhos, Demóstenes é alvo de cassação no Senado

Nas últimas semanas, o insone parlamentar goiano tem se recolhido em imóvel funcional para se dedicar a discursos e acompanhar denúncias sobre Cachoeira

Fred Raposo - iG Brasília | - Atualizada às

AE
Notívago, o senador Demóstenes Torres aproveita a insônia para preparar discursos, escrever o "memorial" já entregue aos demais senadores e preparar a sua defesa: "Nunca dormi bem. Agora então..."

O senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) não está para os vizinhos. Não que os vizinhos – em sua maioria também senadores – estejam aí para ele. Mas essa “invisibilidade” do parlamentar goiano, que pode ser sentida tanto nos corredores do Senado quanto nos arredores de sua moradia em Brasília, revela o grau de isolamento que deve marcar esta quarta-feira a votação da cassação de seu mandato .

Em imagens: Demóstenes, o exemplo de ética que virou alvo de cassação

Seguir o rastro de Demóstenes à beira da cassação é como seguir um Frank Sinatra resfriado, na melhor tradição gaytaleseana. Demóstenes não conversa com a imprensa. Seu círculo de amizades encolheu, depois que foi flagrado pela Polícia Federal em conversas que denotam intimidade com o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira .

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Ignorado pelos colegas, aos quais sem sucesso recorreu diversas vezes por apoio, Demóstenes afirma apresentar quadro de depressão. Nas últimas semanas, o parlamentar passa mais tempo no apartamento funcional em Brasília, elaborando estratégias de defesa, do que despachando em seu gabinete no Senado.

A prioridade é salvar o mandato. Para isso, chega de Goiânia segunda-feira de manhã e só deixa Brasília na sexta-feira à noite. No Senado, porém, não fica mais do que duas ou três horas. Comparece a votações nominais. Desde a semana passada, sobe quase diariamente à tribuna para discursar para um plenário vazio e para as câmeras da Casa.

Alan Sampaio / iG Brasília
Fachada do edifício onde ficam os apartamentos funcionais de Demóstenes e de outros 44 senadores, localizado na Superquadra 309 Sul, área nobre da capital

Passa entre 10 e 20 minutos, dependendo do dia, empoleirado junto ao microfone despejando argumentos de defesa. Esgotado o último segundo a que tem direito, junta suas anotações entre as mãos e desce da tribuna sem dizer palavra. Olhar firme em frente, alarga os passos em direção ao cafezinho do Senado.

Quando começou a fazer os discursos, era seguido por um batalhão de repórteres e fotógrafos até chegar ao carro. Hoje, é escoltado apenas por assessores. O motivo: qualquer pergunta é ignorada. Vez ou outra, Demóstenes, quando se sente pressionado ou incomodado por um questionamento, repete o mantra: “Fale com meu advogado, o Kakay”.

Quatro dias de defesa:
- "Sou limpo, meu patrimônio é limpo", diz Demóstenes no 4º dia de defesa
- Pela 3ª vez, Demóstenes vai à tribuna do Senado e ataca decisão da CCJ
- Demóstenes volta ao plenário pelo 2º dia e diz ser 'a bola da vez'
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E é com Kakay, como é conhecido em Brasília o advogado Antonio Carlos de Almeida Castro, que o parlamentar mais tem se encontrado nos últimos tempos. Defensor dos poderosos com problemas na Justiça, Kakay visita Demóstenes regularmente em seu apartamento funcional na Superquadra 309 Sul, área nobre da capital, onde se avizinham outros 44 parlamentares.

Segundo interlocutores, os dois trabalham incessantemente na defesa do senador. A estratégia incluiu a preparação de discursos, a análise de reportagens envolvendo ele e Cachoeira e a preparação de um dossiê, intitulado “Memorial”, que foi distribuído ontem aos 80 senadores, no qual Demóstenes faz última tentativa de sensibilizar os colegas.

Os discursos na tribuna merecem especial cuidado. Eles somam, cada, média de dez laudas. No cálculo, leva-se em conta que o senador usa dois minutos para ler cada lauda. O trabalho, contudo, não lhe tira o sono. Notívago, Demóstenes nunca teve muito sono. “Nunca dormi bem. Agora então...”, é o argumento repetido pelo senador a interlocutores.

Residente no apartamento oficial desde março de 2003, Demóstenes talvez tenha aproveitado o aconchego de sua residência em Brasília mais do que nunca nos últimos 133 dias, desde que começaram a pipocar denúncias contra ele. Porteiros, garagistas e seguranças são unânimes em dizer que Demóstenes mantém o apartamento funcionando, inclusive com movimento “normal” de empregados.

Mas ele não é visto entrando ou saindo do prédio. O motivo é que o edifício tem duas entradas para a garagem subterrânea. Não é necessário, passar pela portaria para se chegar ao elevador que leva aos apartamentos. “Acho que ele não mora mais aqui”, opina uma funcionária da limpeza do prédio. “Nos últimos meses ele não tem aparecido”, desconversa um porteiro.

Supergaleria:  Demóstenes, o exemplo de ética que virou alvo de cassação

Se por um lado a quadra dos senadores está localizada em área privilegiada, não há muito o que fazer nos seus arredores. De comércio, há apenas uma banca de jornal e um ponto de táxi, ambos situados em frente ao prédio. Do outro lado da rua há ainda uma quadra de futebol, onde meninos apenas um pouco mais novos do que Neymar na noite da última segunda-feira se divertiam.

“Muita gente tem raiva dos políticos”, afirma Nilvan dos Santos, dono da banca de jornal que abastece a quadra. “Você acha que o (Fernando) Collor ou o (José) Sarney vão sair assim na rua? Eles aprontaram demais”, completa, acrescentando que, se Demóstenes compra periódicos em seu estabelecimento, é “só por meio de assessores”.

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