Telenovelas em espanhol tomam conta de Miami

Popularidade, segurança e custos mais baixos levam emissoras a mudar set de telenovelas do México para os Estados Unidos

The New York Times |

Blanca Soto se mudou do México para Los Angeles em busca de uma vida melhor. Após uma década de luta diária na cidade, ela se mudou para Miami, onde trabalha 10 horas por dia, seis dias por semana.

O trabalho dela? Ser uma estrela.

Hollywood pode estar perdendo sets de filmagem para locais mais baratos no exterior e as famosas séries passadas em Nova York, como "All My Children" e "One Life To Live", já chegaram ao fim. Mas Miami está vivendo um momento de alta na produção de telenovelas, programas que são amplamente populares entre o público de língua espanhola.

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NYT
Blanca Soto e Rafael Novoa em cena da novela "El Talisman", filmada em Miami

Cinco novelas estão sendo filmadas em Miami atualmente - alguns anos atrás esse número não chegava a duas. No ano passado, produtores gastaram um total de US$ 40 milhões na área, um aumento considerável quando levados em conta os US$ 11,5 milhões gastos em 2009, de acordo com o Gabinete de Filmes e Entretenimento do Condado Miami-Dade.

Apesar de as telenovelas terem decaído há muito tempo no México, as duas maiores emissoras de língua espanhola nos Estados Unidos, Univision e Telemundo, estão aumentando a produção no sul da Flórida, atraídas por oportunidades de marketing, benefícios fiscais e um crescente público hispânico no país.

As telenovelas importadas do México ainda atraem grande audiência nas emissoras americanas, mas cada vez mais hispânicos que vivem nos Estados Unidos querem ver histórias que ressoem com as suas vidas no país, explicam os executivos das redes.

Atores, produtores e roteiristas da América Latina têm tomado conta da cidade, transformando Miami na capital da telenovela. O distrito de lojas de luxo e restaurantes como o Michael's Genuine Food & Drink tornaram-se um centro de ação para os paparazzi de língua espanhola em busca de estrelas como Soto, que interpreta Camila na novela "El Talisman" (O Talismã, em tradução livre), transmitida pela Univision.

"Brincamos que a melhor coisa de Miami é que ela está tão perto dos Estados Unidos", disse Luis Balaguer, fundador e presidente-executivo da Latin World Entertainment, uma empresa de gestão de talentos e de produção.

Para muitas estrelas, a mudança é bem-vinda por outra razão: o aumento no índice de criminalidade no México. "Os atores me disseram 'Não quero que meus filhos sejam sequestrados no meu país", disse Roberto Stopello, vice-presidente de desenvolvimento de novelas na emissora Telemundo.

Consideradas um dos pilares do entretenimento em língua espanhola, as novelas vão ao ar cinco noites por semana e precisam de um ritmo de produção acelerado. Uma temporada de 120 episódios custa cerca de US$ 3 milhões, o mesmo que um episódio de uma série de drama do horário nobre americano. Cada novela emprega cerca de 95 funcionários e 25 atores, que muitas vezes trabalham seis dias por semana.

A mudança na produção para Miami é resultado em parte de generosos incentivos oferecidos pelo Estado, mas a crise imobiliária na Flórida tornou-se um ponto de venda adicional para os produtores locais à procura de locações baratas. A novela da emissora Telemundo "La Casa de al Lado" (A casa ao lado, em tradução livre), foi parcialmente gravada em uma casa de alto padrão no subúrbio de Bay Palmetto.

Embora fazer televisão em Miami ainda seja mais caro do que no México, a Univision e a Telemundo afirmam que as produções na cidade oferecem às redes a capacidade de integrar produtos desde o início, o que significa que podem cobrar mais dos anunciantes.

Um personagem de "Eva Luna", por exemplo, trabalhava em uma agência de publicidade na criação de uma campanha para a Buick. O anúncio criado na série foi realmente veiculado em língua espanhola na Univision. As redes também podem ganhar dinheiro ao vender a produção para outros países para transmissão local ou com a comercialização de DVDs ou reprises.

Balaguer, um agente de talentos, disse que há cinco anos nunca teria aconselhado atores a se mudar para Miami. Agora, ele lhes aconselha a construir uma base de fãs entre os hispânicos e depois passar para emissoras em inglês. Sua cliente mais famosa, Sofia Vergara, a onipresente atriz do seriado "Modern Family", teve sua grande oportunidade na Univision.

"Digo aos executivos das redes, se você ama uma atriz, mas sua babá não sabe quem ela é, isso é um problema", disse Balaguer.

As telenovelas sempre trazem mensagens sociais em um antiquado formato melodramático: a reforma agrária no Brasil, a criminalidade associada à droga no México e as liberdades civis na Venezuela. "Pense nelas como as histórias pós-modernas da Cinderela", disse Thomas Tufte, autor de “Living With the Rubbish Queen: Telenovelas, Culture, and Modernity in Brazil" (Vivendo com a Rainha da Sucata: Telenovelas, Cultura e Modernidade no Brasil, em tradução livre).

As telenovelas americanas apresentam mensagens sociais sobre questões que afetam desproporcionalmente os hispânicos como o diabetes, a importância de uma educação universitária e as diferenças de gerações entre os hispânicos assimilados à cultura americana e seus mais tradicionais pais e avós.

Na novela recorde da Telemundo de 2010, "Mas Sabe el Diablo" (O diabo sabe mais, em tradução livre) uma personagem tenta ser um trabalhador do censo, uma sutil mensagem para que os telespectadores aceitassem ser contados pelo governo. "Queremos que as pessoas nos Estados Unidos saibam que estamos escrevendo para elas", disse Joshua Mintz, vice-presidente executivo da Telemundo Entertainment.

A Univision, a rede de língua espanhola número um no país, também incorpora temas sociais, mas em menor grau. "Não vou mentir, o triângulo amoroso de três vias ainda é a história principal [das nossas novelas]", disse César Conde, presidente da Univision Networks.

Miami ainda está longe de ser Hollywood quando se trata de condições de trabalho. Em alguns aspectos, a indústria aqui reflete os primeiros dias de Hollywood. Os estúdios de língua espanhola em grande parte ainda têm contratos de exclusividade com os atores e os sindicatos são praticamente inexistentes. Os atores muitas vezes trabalham 10 horas por dia e os roteiristas devem apresentar um roteiro de 45 páginas todos os dias.

Novelas de baixo orçamento significam que as redes não podem gastar muito em grandes estrelas. Em vez disso, elas arrancam novos atores da América Latina ou fazem buscas por talentos aspirantes que falam a língua espanhola por todo o país.

"Ainda somos uma televisão em língua espanhola", brincou Conde. "Aqui, ganhar significa trabalhar 100 horas por semana."

Por Amy Chozick

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